O sequenciamento genômico na triagem neonatal ganhou espaço no encontro anual da Sociedade Americana de Genética Humana, o ASHG 2026, realizado de 20 a 24 de outubro, em Montreal, no Canadá. Entre os trabalhos, uma análise do programa GUARDIAN investigou resultados de rastreamento e variantes genéticas em mais de 19 mil recém-nascidos de diferentes ancestralidades.
Para a medicina laboratorial, a pesquisa aborda uma questão decisiva. Como ampliar a identificação precoce de doenças genéticas e manter critérios consistentes para interpretar os achados, confirmar diagnósticos e orientar o cuidado.
O trabalho integrou os 27 resumos científicos aceitos com participação da GeneDx. O conjunto incluiu pesquisas sobre sequenciamento de exoma e genoma, doenças do neurodesenvolvimento e interpretação de variantes com apoio computacional. No recorte neonatal, o interesse está na possibilidade de reconhecer condições para as quais uma intervenção precoce possa modificar a assistência.
O que os resultados publicados mostram
Uma análise anterior do GUARDIAN, publicada no JAMA, oferece uma base clínica para compreender essa discussão. O estudo prospectivo, observacional e multicêntrico avaliou os primeiros 4 mil recém-nascidos recrutados em seis hospitais de Nova York, entre setembro de 2022 e julho de 2023. O sequenciamento foi realizado como complemento à triagem neonatal convencional.
Naquela etapa, todos os participantes foram rastreados para 156 condições genéticas de início precoce com intervenções estabelecidas. As famílias podiam optar pela investigação adicional de 99 condições do neurodesenvolvimento associadas a convulsões.
Indicadores da coorte inicial
4 mil
recém-nascidos incluídos na análise inicial publicada.
99,6%
dos casos tiveram o exame concluído com sucesso.
3,7%
foi a taxa de resultados positivos no rastreamento genômico.
Fonte. Análise inicial do GUARDIAN publicada no JAMA. A taxa de positividade no rastreamento deve ser distinguida da proporção de diagnósticos confirmados.
Segundo a Universidade Columbia, entre as 147 crianças com rastreamento genômico positivo, 120 foram consideradas verdadeiros positivos e receberam diagnóstico de uma condição rara. Dez dessas crianças haviam sido identificadas pela triagem convencional.
A composição dos achados merece atenção. Dos 120 casos, 92 correspondiam à deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, a G6PD. Essa concentração precisa ser considerada na leitura do resultado global, pois a contribuição do rastreamento não se distribuiu de maneira uniforme entre as diferentes doenças investigadas.
Quando o achado genético muda a conduta
Um dos casos descritos pela instituição envolveu uma criança com imunodeficiência combinada grave, não identificada pelo rastreamento convencional. A investigação genômica permitiu reconhecer a condição antes do desenvolvimento de infecções e viabilizou um transplante de medula óssea.
O episódio documenta uma aplicação clínica concreta da abordagem. Ainda assim, um caso individual não estabelece o benefício de uma estratégia populacional, que exige avaliação sistemática dos resultados e do acompanhamento das crianças.
A interpretação define o alcance do exame
Sequenciar o genoma não significa investigar indiscriminadamente todas as doenças genéticas. Na análise inicial publicada no JAMA, a interpretação se concentrou em um conjunto previamente definido de genes e condições. O desenho evidencia a importância da seleção clínica dos alvos, mesmo quando a tecnologia produz dados genômicos amplos.
Uma revisão publicada em 2026 no periódico Pediatric Research, por pesquisadores do Boston Children’s Hospital e da Harvard Medical School, descreve diferenças relevantes entre programas de triagem genômica. Os estudos variam nos genes selecionados, nos critérios de comunicação de variantes e nos procedimentos de confirmação. Essa heterogeneidade restringe comparações diretas entre suas taxas de positividade.
Para os laboratórios, a incorporação da abordagem envolve decisões ao longo de todo o processo. Consentimento, qualidade analítica, classificação de variantes, prazo de liberação e comunicação dos resultados precisam estar articulados à capacidade de confirmar diagnósticos e acompanhar as crianças.
A aplicação em larga escala depende de demonstrar que os achados podem ser convertidos em cuidado oportuno, com critérios consistentes e acesso ao seguimento clínico. É nessa ligação entre o resultado laboratorial e a assistência que o valor da triagem neonatal genômica precisa ser medido.
Referências
GeneDx. Resumos científicos aceitos para o ASHG 2026, incluindo a análise do GUARDIAN em mais de 19 mil recém-nascidos.
Consultar comunicado e trabalhos destacados.
Ziegler A. e colaboradores. Expanded Newborn Screening Using Genome Sequencing for Early Actionable Conditions. JAMA.
DOI 10.1001/jama.2024.19662.
Columbia University Irving Medical Center. Resultados iniciais e aplicações clínicas do estudo GUARDIAN.
Consultar publicação institucional.
GUARDIAN Study. Orientações sobre resultados positivos no rastreamento.
Consultar orientações do programa.
Duz M. B. e Chung W. K. Perspectives on genomic newborn screening studies, design, implementation, and outcomes. Pediatric Research, 2026.
DOI 10.1038/s41390-026-05283-y.