Poliomielite em 2026, vacinação e vigilância no Brasil | Newslab

Poliomielite em 2026, vacinação e vigilância sustentam a proteção contra o retorno da doença

No Dia Mundial de Combate à Poliomielite, a circulação internacional do vírus e a atualização do calendário brasileiro reforçam a importância da imunização e do diagnóstico laboratorial oportuno

O Brasil chega ao Dia Mundial de Combate à Poliomielite, celebrado em 24 de outubro, com uma conquista que exige continuidade. O último caso da doença no país foi registrado em 1989, e as Américas receberam, em 1994, a certificação de interrupção da transmissão autóctone do poliovírus selvagem. Preservar esse resultado depende de vacinação, investigação clínica oportuna e uma rede laboratorial preparada para esclarecer cada suspeita.

Em 2026, essa proteção ganhou uma atualização no calendário brasileiro. Desde 3 de agosto, o Ministério da Saúde recomenda um segundo reforço da vacina inativada poliomielite, a VIP, aos 4 anos. A medida integra o esforço para manter a população infantil protegida enquanto a erradicação mundial permanece incompleta.

Uma conquista que precisa ser preservada

A interrupção da transmissão no Brasil não significa que o poliovírus tenha desaparecido do mundo. A vacinação e a vigilância continuam essenciais para reduzir o risco de reintrodução da doença.

A circulação internacional mantém o risco

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os casos causados pelo poliovírus selvagem diminuíram mais de 99% desde 1988. O avanço transformou o cenário epidemiológico, mas ainda não encerrou a transmissão. Afeganistão e Paquistão permanecem como os países com circulação endêmica do poliovírus selvagem.

A atualização da Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite, com informações até 21 de outubro de 2026, evidencia essa persistência. Naquela semana, foram comunicados seis casos adicionais de poliovírus selvagem tipo 1 no Afeganistão, com início da paralisia em agosto e setembro. O total informado pelo país em 2026 chegou a 42 casos.

O mesmo boletim registrou casos por poliovírus circulantes derivados de vacina em países como Chade, República Democrática do Congo, Nigéria e Sudão do Sul. Enquanto houver transmissão, permanece a possibilidade de disseminação internacional, especialmente em populações com proteção vacinal insuficiente.

Uma infecção que pode passar despercebida

A poliomielite é uma doença viral aguda transmitida principalmente pela via fecal-oral. O poliovírus se multiplica no intestino e, em parte das infecções, pode atingir o sistema nervoso. Embora seja conhecida como paralisia infantil e afete sobretudo crianças pequenas, pessoas não vacinadas de qualquer idade podem adoecer.

A maioria das pessoas infectadas não apresenta manifestações clínicas evidentes, conforme o Ministério da Saúde. Quando surgem sintomas, eles podem incluir febre, mal-estar, cefaleia, vômitos e dores no corpo. Essa apresentação inicialmente pouco específica contrasta com a forma paralítica, caracterizada por fraqueza de instalação súbita, flacidez muscular e redução ou ausência de reflexos.

Uma em cada 200 infecções

É a estimativa da OMS para a ocorrência de paralisia irreversível. Entre os pacientes que desenvolvem paralisia, de 5% a 10% morrem quando os músculos respiratórios são comprometidos. Não existe cura para a poliomielite, o que torna a prevenção decisiva.

O que mudou na vacinação brasileira em 2026

A Nota Técnica nº 64/2026 do Ministério da Saúde estabeleceu a inclusão do segundo reforço da VIP aos 4 anos. Com a atualização, o esquema de rotina para crianças menores de 5 anos passou a compreender cinco doses, todas com a vacina inativada.

Esquema de rotina contra a poliomielite desde 3 de agosto de 2026
Idade Dose da vacina inativada
2 meses Primeira dose
4 meses Segunda dose
6 meses Terceira dose
15 meses Primeiro reforço
4 anos Segundo reforço

Fonte, Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 64/2026. A avaliação de esquemas incompletos deve considerar o histórico de vacinação e as orientações do Programa Nacional de Imunizações.

A VIP contém vírus inativados e protege contra a doença paralítica causada pelos três tipos de poliovírus. Por não conter vírus capazes de se replicar, não apresenta risco de poliomielite paralítica associada à vacina.

Sua proteção contra a paralisia, entretanto, não dispensa a vigilância da circulação viral. A imunidade intestinal induzida por essa formulação é limitada, e uma pessoa vacinada pode, caso seja infectada, apresentar multiplicação do vírus no intestino e eliminá-lo nas fezes.

Como compreender os poliovírus derivados de vacina

A expressão exige precisão. Os poliovírus circulantes derivados de vacina estão relacionados ao vírus vivo atenuado utilizado em vacinas orais. Em comunidades com baixa cobertura vacinal, esse vírus pode circular por períodos prolongados e acumular alterações genéticas que restabelecem sua capacidade de provocar paralisia.

Esse mecanismo não se aplica à VIP utilizada atualmente na rotina brasileira. As vacinas orais tiveram papel central na redução mundial da doença e continuam sendo empregadas em estratégias internacionais de interrupção da transmissão. A escolha das formulações considera a situação epidemiológica e as necessidades de cada programa de imunização.

A investigação começa com a suspeita clínica

Para os serviços de saúde, a paralisia flácida aguda constitui um sinal de alerta. O Ministério da Saúde orienta suspeitar de poliomielite diante de paralisia flácida de início agudo, acompanhada de diminuição ou abolição dos reflexos tendinosos, em menores de 15 anos. Reconhecer essa apresentação permite iniciar a investigação e encaminhar material para esclarecimento laboratorial.

Atenção à fase pré-analítica

As diretrizes brasileiras preveem a coleta de uma amostra de fezes até o 14º dia após o início da deficiência motora. A oportunidade da coleta e as condições de conservação são componentes essenciais da investigação.

O fluxo envolve os Laboratórios Centrais de Saúde Pública e os laboratórios de referência, com participação da Fiocruz e do Instituto Evandro Chagas. O recebimento, a avaliação das condições da amostra e o encaminhamento adequado integram uma cadeia de trabalho que sustenta a qualidade da vigilância.

O laboratório esclarece a origem do vírus

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o poliovírus é isolado com maior probabilidade em amostras de fezes. A investigação especializada utiliza isolamento em cultura, diferenciação intratípica por RT-PCR em tempo real e sequenciamento de regiões do genoma para caracterizar o vírus e apoiar a identificação de sua provável origem geográfica.

Essa caracterização orienta a interpretação epidemiológica do achado. Identificar um poliovírus selvagem, uma cepa semelhante à vacinal ou um vírus derivado de vacina tem implicações para a investigação de vínculos entre casos e para as medidas de saúde pública.

A análise do líquido cefalorraquidiano pode revelar alterações inespecíficas. O CDC informa que a detecção do poliovírus nesse material é incomum. Seus resultados, portanto, precisam ser interpretados em conjunto com a avaliação clínica e a investigação virológica apropriada.

Preservar a eliminação exige trabalho contínuo

O Dia Mundial de Combate à Poliomielite encontra o Brasil diante de duas tarefas concretas, completar os esquemas de vacinação conforme o calendário atualizado e manter os serviços preparados para investigar sinais compatíveis com a doença.

Para a medicina laboratorial, a contribuição está na execução rigorosa de cada etapa, da orientação sobre a coleta ao encaminhamento e à caracterização das amostras. A proteção construída ao longo de décadas depende dessa continuidade.

Vacinar e investigar oportunamente continuam sendo ações centrais para impedir que a circulação internacional do poliovírus se transforme em novos casos no país.

Referências

  1. Ministério da Saúde.
    Poliomielite.
  2. Ministério da Saúde.
    Nota Técnica nº 64/2026, inclusão do segundo reforço da vacina inativada poliomielite.
  3. Ministério da Saúde.
    Diretrizes para resposta a um evento de detecção de poliovírus e um surto de poliomielite, estratégia do Brasil.
  4. Organização Mundial da Saúde.
    Poliomyelitis.
  5. Organização Mundial da Saúde.
    Perguntas e respostas sobre poliomielite.
  6. Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite.
    Polio This Week.
    Atualização consultada de 21 de outubro de 2026.
  7. Centers for Disease Control and Prevention.
    Laboratory Testing for Poliovirus.