Mudanças climáticas e doenças infecciosas no Brasil | Newslab

Mudanças climáticas ampliam riscos de infecções e desafiam o diagnóstico no Brasil

Expansão da dengue, riscos associados às enchentes e alterações na distribuição de fungos reforçam a necessidade de integrar informação ambiental, investigação clínica e vigilância laboratorial

As mudanças climáticas interferem nas condições de transmissão de doenças infecciosas e tornam mais complexa a investigação de casos no Brasil. Temperatura, chuvas e eventos extremos podem modificar a distribuição de vetores, favorecer a exposição à água contaminada e alterar os ambientes onde vivem fungos potencialmente patogênicos.

Para os serviços de saúde, essas transformações exigem atenção ao histórico de exposição dos pacientes e à escolha dos exames, sobretudo em regiões onde determinadas infecções eram pouco frequentes. A investigação clínica e laboratorial passa a depender de uma leitura cuidadosa das condições ambientais e epidemiológicas de cada território.

O contexto ambiental faz parte da investigação.
A expansão da dengue, os riscos associados às enchentes e as alterações na distribuição de fungos reforçam a importância de interpretar os resultados laboratoriais junto às circunstâncias da exposição.

Os mecanismos envolvidos, entretanto, apresentam diferentes graus de comprovação. Há evidências consistentes sobre a influência de condições climáticas na transmissão de arboviroses e hipóteses ainda em investigação sobre a adaptação de fungos ao aquecimento. Essa distinção é essencial para compreender o cenário sem atribuir ao clima, isoladamente, toda mudança no perfil das infecções.

Dengue avança sob influência do clima e da urbanização

Um estudo publicado no periódico Scientific Reports, conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz e de instituições internacionais, investigou a expansão da dengue nas microrregiões brasileiras com dados de 2000 a 2020. A análise identificou associações entre o aumento da incidência, a circulação prévia do vírus, a urbanização e a ocorrência prolongada de anomalias de temperatura, especialmente na região central do país.

118 microrregiões

Passaram da categoria de baixa incidência para aquela com taxas superiores a 300 casos de dengue por 100 mil habitantes, na comparação entre os períodos de 2007 a 2013 e de 2014 a 2020.

Fonte: Barcellos e colaboradores, Scientific Reports, 2024.

O resultado documenta a ampliação das áreas com transmissão elevada dentro do recorte investigado. A temperatura participa desse processo ao influenciar o intervalo necessário para que o vírus se multiplique no mosquito e alcance condições de transmissão.

A Organização Mundial da Saúde, OMS, ressalta que a dinâmica da dengue envolve outros fatores, como mobilidade populacional, armazenamento de água, urbanização e capacidade dos sistemas de vigilância. O risco resulta da interação entre essas condições.

A escolha do exame começa antes da coleta

A expansão territorial das arboviroses traz uma consequência prática para os laboratórios. A investigação precisa considerar o momento da doença, o local provável de infecção e os agentes em circulação.

Nas orientações publicadas em abril de 2025, a OMS destaca que a seleção dos testes para dengue depende dos dias transcorridos desde o início dos sintomas, do tipo de amostra, da prevalência regional, de possíveis coinfecções e do histórico de exposição a outros ortoflavivírus. A situação vacinal integra essa avaliação.

Métodos moleculares, pesquisa de antígenos e sorologia têm aplicações e limitações distintas. A escolha e a interpretação dos resultados devem respeitar essas particularidades.

Dias de sintomas, tipo de amostra e contexto epidemiológico
são informações que orientam a seleção do método e dão sentido clínico ao resultado.

Oropouche reforça a importância do diagnóstico diferencial

A febre do Oropouche evidencia esse desafio. Segundo a OMS, desde o final de 2023 houve registro de transmissão em áreas onde a doença não havia sido documentada anteriormente. Febre, cefaleia, mialgia e artralgia podem se confundir com manifestações de dengue e chikungunya.

A investigação laboratorial inclui métodos como a RT-PCR para detecção do RNA viral. A semelhança entre os quadros clínicos reforça a necessidade de considerar os agentes em circulação e o histórico de exposição durante a definição da investigação.

A contribuição específica das alterações de temperatura e chuva para a expansão do Oropouche permanece em investigação, em conjunto com fatores como degradação ambiental. Essa relação ainda não permite explicar cada surto como consequência direta do aquecimento.

Enchentes ampliam a exposição e mudam a suspeita clínica

Após inundações, o contato com água e solo contaminados pela urina de animais infectados pode aumentar o risco de leptospirose. A doença apresenta manifestações inespecíficas e pode ser confundida com outras causas de síndrome febril, o que torna o histórico de exposição especialmente relevante.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, CDC, informam que a confirmação pode envolver a detecção de DNA de Leptospira ou de anticorpos contra a bactéria. A escolha do método depende do tempo de evolução dos sintomas.

Em pacientes com forte suspeita clínica de leptospirose, o CDC orienta iniciar o tratamento oportunamente, sem aguardar os resultados laboratoriais.

A informação sobre contato com enchentes ajuda a direcionar a investigação. O resultado do exame precisa ser interpretado junto à evolução clínica e às circunstâncias da exposição.

Fungos exigem atenção e rigor na interpretação das evidências

As alterações ambientais podem ampliar as áreas favoráveis à sobrevivência de determinados fungos e modificar a exposição humana aos seus esporos. Tempestades, incêndios e inundações participam desse cenário por mecanismos diferentes, da dispersão de partículas no ar à umidade que favorece o crescimento de fungos em ambientes internos.

O CDC aponta que a adaptação a temperaturas mais elevadas pode favorecer a emergência de fungos capazes de sobreviver no organismo humano. Ressalta, contudo, que ainda existem lacunas importantes sobre a dimensão desses efeitos.

A instituição relaciona o uso ambiental de fungicidas à seleção de resistência, com destaque para infecções por Aspergillus resistentes a triazóis. Esse processo acrescenta dificuldades ao tratamento de determinadas infecções fúngicas.

Candida auris e a hipótese climática

A participação do aquecimento na emergência de Candida auris foi proposta em artigo publicado no periódico mBio. Trata-se de uma hipótese científica, sem comprovação de uma origem climática.

A capacidade desse fungo de causar infecções graves, frequentemente resistentes a múltiplos medicamentos, e de se disseminar em serviços de saúde está bem estabelecida.

Vigilância precisa reunir resultados e contexto ambiental

A OMS apoia sistemas de alerta que utilizam informações climáticas para estimar o risco de surtos de doenças como dengue, chikungunya, zika, malária e cólera. A proposta é antecipar condições favoráveis à transmissão e orientar medidas de resposta.

Para a medicina laboratorial, essa integração reforça o valor das informações que acompanham a amostra. Data de início dos sintomas, deslocamentos e exposições ambientais ajudam a selecionar métodos e interpretar achados.

Em territórios onde o perfil das infecções se modifica, reconhecer as circunstâncias da exposição faz parte da qualidade do diagnóstico.