O aumento da incidência de câncer em adultos com menos de 50 anos tem apresentado um comportamento que desafia algumas das explicações tradicionais da epidemiologia oncológica. Uma análise populacional realizada na Inglaterra identificou crescimento significativo de diferentes tipos de tumores nessa faixa etária, mesmo em um cenário de redução ou estabilidade de importantes fatores de risco comportamentais, como tabagismo, consumo de álcool e determinados hábitos alimentares.
Publicado no periódico científico BMJ Oncology, o estudo avaliou registros nacionais de câncer entre 2001 e 2019, relacionando as tendências de incidência às mudanças na exposição da população a fatores reconhecidamente associados ao desenvolvimento de neoplasias.
A obesidade contribui para o aumento de diversos tipos de câncer, mas sua evolução não é suficiente para explicar todos os padrões observados entre adultos mais jovens.
Incidência cresce em diferentes tipos de câncer
A investigação, conduzida por pesquisadores vinculados ao Institute of Cancer Research e ao Imperial College London, utilizou dados do National Disease Registration Service, sistema de registros de doenças da Inglaterra. A equipe comparou as taxas de incidência de câncer entre adultos de 20 a 49 anos e pessoas com 50 anos ou mais, considerando diferenças por sexo e localização tumoral.
Apresentaram aumento estatisticamente significativo de incidência antes dos 50 anos.
Registraram crescimento significativo na mesma faixa etária.
Os pesquisadores concentraram parte da análise em 11 neoplasias com incidência crescente entre os mais jovens e associação estabelecida com fatores de risco comportamentais. O grupo incluiu tumores de tireoide, fígado, rim, vesícula biliar, intestino colorretal, pâncreas, cavidade oral, mama, ovário e endométrio, além do mieloma múltiplo.
Os cânceres colorretal e de ovário apresentaram um comportamento particularmente relevante: sua incidência aumentou significativamente entre adultos mais jovens, sem crescimento correspondente entre os indivíduos com 50 anos ou mais.
No caso do câncer colorretal, as taxas permaneceram estatisticamente estáveis na população mais velha. Para o câncer de ovário, foi identificada redução significativa nesse grupo etário.
Outras neoplasias, incluindo câncer de endométrio, rim, pâncreas, tireoide e mieloma múltiplo, registraram crescimento proporcionalmente mais acelerado entre mulheres jovens. Entre os homens, essa diferença entre faixas etárias foi estatisticamente significativa para o mieloma múltiplo.
Os resultados, entretanto, não indicam crescimento contínuo de todos esses tumores. Algumas neoplasias apresentaram estabilização ou redução das taxas nos anos mais recentes das respectivas séries analisadas.
O paradoxo dos fatores de risco tradicionais
Um dos aspectos mais relevantes da pesquisa está na comparação entre a evolução dos indicadores comportamentais e o aumento dos diagnósticos oncológicos.
A equipe analisou informações sobre tabagismo, consumo de álcool, alimentação, índice de massa corporal (IMC) e atividade física, utilizando levantamentos nacionais de saúde realizados em diferentes períodos.
Os resultados mostraram que, com exceção da obesidade, os principais fatores comportamentais avaliados apresentaram tendências predominantemente estáveis ou favoráveis ao longo das últimas uma a duas décadas.
Consumo de carne vermelha, homens jovens
Mediana diária de 38 g em 2008 para 17 g em 2018.
Consumo de carne vermelha, mulheres jovens
Mediana diária de 22 g em 2008 para 10 g em 2018.
Tabagismo
Redução relativa de aproximadamente 2% ao ano entre homens e mulheres mais jovens, conforme as séries disponíveis desde 1995.
Consumo de fibras
Em 2018, mais de 90% dos adultos jovens avaliados não atingiam os níveis considerados adequados.
Também foram observadas tendências de redução ou estabilidade no consumo de álcool. A ingestão insuficiente de fibras, por sua vez, permaneceu elevada, embora esse indicador tenha apresentado estabilidade ou discreta melhora ao longo do período estudado.
A incidência de determinados tumores continuou aumentando, apesar da melhora de vários indicadores tradicionalmente associados ao risco de câncer.
Isso não significa que os fatores conhecidos tenham perdido relevância. A associação entre essas exposições e o desenvolvimento de neoplasias permanece sustentada por evidências científicas. O que a pesquisa questiona é a capacidade das mudanças recentes nesses fatores de explicar, isoladamente, a magnitude do crescimento observado.
Obesidade permanece como componente importante
Diferentemente dos demais fatores comportamentais avaliados, a prevalência de obesidade aumentou de maneira consistente na população inglesa.
Prevalência de obesidade em 2019
Das mulheres de 20 a 49 anos, aproximadamente.
Dos homens jovens, aproximadamente.
O excesso de peso estava associado a dez das onze neoplasias selecionadas pelos pesquisadores, com exceção do câncer da cavidade oral.
Para dimensionar essa contribuição, a equipe calculou frações atribuíveis populacionais, estimativas epidemiológicas da proporção de casos associados a determinadas exposições em uma população.
Em 2019, a fração atribuível ao IMC elevado variou de aproximadamente 5% para câncer de ovário a 37% para câncer de endométrio, conforme o tipo tumoral e os parâmetros considerados.
Entretanto, ao separar estatisticamente a incidência estimada como atribuível e não atribuível ao IMC elevado, os pesquisadores identificaram crescimento em ambas as parcelas.
Câncer colorretal em mulheres jovens
Incidência estimada como atribuível ao IMC elevado: +4,3% ao ano.
Parcela estimada como não atribuível ao IMC elevado: +3,2% ao ano.
Valores aproximados das tendências anuais estimadas no estudo.
O resultado sustenta a interpretação de que alterações no peso corporal representam uma parte importante do fenômeno, mas outros determinantes provavelmente participam de sua evolução.
A análise também reforça a necessidade de considerar condições metabólicas relacionadas à obesidade, incluindo diabetes e síndrome metabólica, cujas associações com diferentes neoplasias vêm sendo investigadas na literatura científica.
Microbioma intestinal e exposições precoces entram no centro das investigações
A dificuldade de explicar integralmente o aumento da incidência de câncer entre adultos jovens tem direcionado a atenção científica para exposições ainda pouco compreendidas.
Entre as hipóteses investigadas estão mudanças na composição do microbioma intestinal, fatores ambientais, consumo de alimentos ultraprocessados, exposição precoce a antibióticos e condições metabólicas desenvolvidas durante a infância.
O microbioma intestinal desperta interesse particular por sua possível participação em processos associados à carcinogênese. Alterações na comunidade de microrganismos do trato gastrointestinal podem estar relacionadas a mecanismos biológicos relevantes para o desenvolvimento de tumores, embora sua contribuição para as tendências populacionais de câncer ainda não esteja estabelecida.
Em investigação científica
Colibactina e assinaturas mutacionais
Os autores destacam evidências moleculares relacionadas à colibactina, substância genotóxica produzida por determinadas bactérias intestinais. Estudos de sequenciamento tumoral identificaram assinaturas mutacionais associadas à exposição a essa toxina, com maior frequência em determinados cânceres colorretais de início precoce.
Esses achados oferecem uma linha de investigação sobre a participação de agentes microbianos em processos carcinogênicos que podem começar muitos anos antes da manifestação clínica da doença.
Entretanto, a identificação de uma assinatura molecular associada a uma exposição não demonstra que ela seja responsável pelo aumento populacional da incidência de câncer. A confirmação dessa relação depende de estudos adicionais, capazes de integrar dados epidemiológicos, microbiológicos e moleculares.
Outra possibilidade envolve exposições durante a gestação, infância e adolescência. A hipótese considera que determinados fatores ambientais e biológicos possam exercer efeitos de longa duração, influenciando a suscetibilidade ao desenvolvimento de neoplasias na vida adulta.
Por enquanto, essas possibilidades permanecem como campos de investigação, sem evidências suficientes para estabelecer uma explicação causal abrangente.
Diagnóstico mais frequente ou aumento real da doença?
A ampliação do acesso a exames, o aperfeiçoamento dos métodos de imagem e as mudanças nos programas de rastreamento representam outra dimensão importante da análise.
Uma elevação nas taxas de incidência registradas pode refletir diferentes fenômenos, incluindo aumento real da ocorrência da doença, maior capacidade diagnóstica e identificação de tumores que anteriormente poderiam permanecer sem diagnóstico.
A pesquisa reconhece que mudanças na prática assistencial e nos critérios de detecção podem ter influenciado parte das tendências observadas, especialmente em neoplasias de tireoide, rim, mama e outros órgãos.
No câncer colorretal, a implantação de programas de rastreamento entre adultos mais velhos pode ter contribuído para a redução da incidência nessa população, por meio da identificação e remoção de lesões precursoras. Entretanto, os autores consideram improvável que essa circunstância explique integralmente as diferenças entre as faixas etárias.
A interpretação das tendências epidemiológicas exige distinguir crescimento da incidência, aumento da detecção e possíveis situações de sobrediagnóstico.
Para a medicina diagnóstica, esse aspecto é particularmente relevante. Análises estratificadas por estágio tumoral, idade ao diagnóstico e modalidade de detecção podem contribuir para esclarecer essas diferenças. Também são necessárias séries históricas consistentes, com padronização dos critérios diagnósticos e qualidade dos registros populacionais.
O que os resultados representam para a medicina diagnóstica?
A investigação evidencia a importância de integrar vigilância epidemiológica, diagnóstico laboratorial e pesquisa molecular para compreender as mudanças no perfil etário das neoplasias.
A caracterização dos tumores em adultos jovens, incluindo seus aspectos histopatológicos e moleculares, constitui uma frente relevante de pesquisa para identificar possíveis diferenças nos mecanismos de desenvolvimento da doença.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta que o diagnóstico precoce e o rastreamento são estratégias distintas e complementares. Enquanto o primeiro busca reconhecer a doença em pessoas que apresentam sinais ou sintomas, o segundo se destina a identificar alterações em indivíduos assintomáticos, conforme critérios específicos de idade, risco e efetividade dos exames.
No caso do câncer colorretal, a OMS reconhece o crescimento da incidência entre adultos mais jovens em diferentes países, embora a maior parte dos casos continue ocorrendo após os 50 anos.
Atenção clínica
Sinais que justificam investigação
A avaliação clínica adequada continua importante diante de manifestações como:
- Sangramento intestinal.
- Alterações persistentes do hábito intestinal.
- Perda de peso inexplicada.
- Anemia ferropriva.
Esses achados devem ser avaliados conforme o contexto clínico, mesmo em pacientes fora da faixa etária habitual de rastreamento.
Os resultados da pesquisa, contudo, não estabelecem novas recomendações para antecipação indiscriminada de exames de rastreamento. Alterações nos protocolos assistenciais dependem de avaliações específicas sobre benefícios, riscos e características da população.
Prevenção continua essencial, mesmo diante de novas hipóteses
A busca por fatores ainda desconhecidos não reduz a importância das estratégias tradicionais de prevenção.
Em análise divulgada em fevereiro de 2026, a OMS e a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) estimaram que aproximadamente 37% dos novos casos de câncer registrados mundialmente em 2022 estavam associados a causas potencialmente evitáveis.
Dos novos casos de câncer no mundo em 2022 foram associados a causas potencialmente evitáveis.
Estimativa OMS/IARC divulgada em fevereiro de 2026.
A avaliação contemplou 30 fatores de risco, incluindo tabagismo, consumo de álcool, IMC elevado, inatividade física, poluição atmosférica, radiação ultravioleta e infecções carcinogênicas.
Essas evidências demonstram que intervenções sobre fatores modificáveis continuam fundamentais para reduzir a carga global da doença, mesmo quando os mecanismos relacionados a determinadas tendências epidemiológicas ainda não são completamente compreendidos.
Uma questão científica que ultrapassa os 50 anos
Embora o crescimento da incidência entre adultos jovens desperte preocupação, o estudo destaca uma distinção essencial para a interpretação dos resultados: a carga absoluta de câncer permanece substancialmente maior nas faixas etárias mais avançadas.
A investigação também apresenta limitações metodológicas. Trata-se de uma análise observacional baseada em registros populacionais e levantamentos de fatores de risco, sem capacidade de demonstrar relações diretas de causa e efeito.
A disponibilidade desigual de séries históricas, possíveis imprecisões nos dados autorreferidos e a adoção de um intervalo presumido de dez anos entre exposição e diagnóstico restringem algumas interpretações. Além disso, os resultados se referem especificamente à população inglesa e não podem ser automaticamente extrapolados para outros países.
Ainda assim, a pesquisa oferece uma contribuição importante ao demonstrar que as mudanças epidemiológicas do câncer dificilmente podem ser atribuídas a um único fator.
Para os autores, compreender o fenômeno exige investigar a interação entre exposições ambientais, características metabólicas, suscetibilidades individuais e experiências acumuladas ao longo da vida.
Perspectiva científica
A questão deixa de ser apenas por que determinados cânceres estão aumentando entre adultos jovens. Torna-se necessário compreender quais exposições, em quais períodos da vida e por quais mecanismos biológicos contribuem para essa mudança.
Responder a essas perguntas será decisivo para aprimorar a prevenção, qualificar a vigilância epidemiológica e orientar futuras estratégias de diagnóstico oncológico.
Referências
Estudo original: Garcia-Closas M, Richards Z, Frost R, Gunter MJ, Berrington de Gonzalez A. Temporal trends in behavioural risk factors for cancers with rising incidence in younger adults: an analysis of population-based data in England. BMJ Oncology. 2026;5:e000966.
DOI: 10.1136/bmjonc-2025-000966.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Colorectal cancer.
Consultar documento.
OMS e Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). Four in ten cancer cases could be prevented globally. Fevereiro de 2026.
Consultar publicação.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Cancer. Julho de 2026.
Consultar documento.