*Amanda Navarro
Biomédica e mestranda em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP.
O desastre de Brumadinho aconteceu em 25 de janeiro de 2019. Desde então, a situação de saúde tem se agravado para todas as comunidades afetas e em regiões próximas. Surtos de doenças infecciosas como dengue e febre amarela, e de doenças crônicas como ansiedade e diabetes. Quais os desafios para os setores privados e públicos da saúde neste momento?
O desastre socioambiental de Brumadinho ocorreu a cerca de 4 meses e algumas pesquisas já indicam futuras consequências que serão colhidas por todos os afetados. Pesquisadores de todo país se unificam em busca de caminhos para auxiliar no manejo do desastre. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizou um estudo que avaliou os impactos à curto prazo do desastre da mineradora Vale em Brumadinho. Os estudos foram apresentados no evento “Impactos sobre a saúde e desafios para a gestão de riscos”, que ocorreu em fevereiro deste ano.
Os dados coletados pelos grupos de pesquisa da Fiocruz indicam um cenário que, mesmo a curto prazo, irá requerer toda força social para intervir no sentido de amenizar os impactos. O Centro de Pesquisa em Emergências e Desastres em Saúde, conformado com o objetivo de mobilizar conhecimentos informações voltadas para desastres, publicou recentemente um guia de preparação e resposta do setor de Saúde para desastres.
Segundo os pesquisadores, é importante demarcar que, após o desastre da Samarco em Mariana, houve uma melhora na organização dos diferentes níveis de saúde. Mariano Andrade da Silva, pesquisador do CEPED-Fiocruz, mostrou esse avanço exemplificando através da experiência prática de como os agentes de saúde, em nível estadual e municipal, não ficaram sabendo do desastre por vias formais, como de órgãos da Defesa Civil ou de sua hierarquia do setor de saúde. O fato de não saberem imediatamente para intervir de forma ágil e concisa, o que foi feito no desastre em Brumadinho, mostra que esforços estão conseguindo impor uma melhor dinâmica e organização desde Mariana.

Brumadinho, Minas Gerais: visão aérea da região afetada pela lama de rejeitos. (André Penner/AP)
Brumadinho: considerações à nível socioambiental
É importante demarcar a situação socioambiental da região atingida pela avalanche de lama de rejeitos da barragem da Vale S.A. para se analisar todos os possíveis danos a curto, médio e longo prazo. Os desastres com barragens de mineradoras podem gerar inúmeros problemas, para além das destruições imediatas, como por exemplo: inundações, crise hídrica, epidemia de febre amarela e dengue. De imediato, os dados coletados pelos pesquisadores mostram que se observa, em um primeiro momento, alta letalidade e baixa morbidade do desastre. Abaixo, tem-se um gráfico compilado a partir das informações divulgadas no evento da Fiocruz:
Gráfico 1. Situação dos óbitos no desastre da Vale S.A em Brumadinho, 2019

Fonte: Centro de Estudos e Pesquisas de Emergências e Desastres em Saúde (CEPEDES) / FIOCRUZ / MS
Em relação à lama de rejeitos, estima-se que o rompimento da barragem tenha liberado em torno de x milhões de m³ de rejeitos de minério. As pesquisas em relação à composição físico-química da lama ainda estão em andamento, contudo é possível presumir que, considerando o quadrilátero ferroso da região, possa ocorrer reações físico-químicas que podem vir causar doenças à longo prazo. Até o presente momento, sabe se que é o maior desastre ambiental do Brasil, em termos de óbitos de extensão de danos ambientais. Sobre os danos ambientais pode afirmar que são extensos, atingindo não só no Córrego do Feijão, mas também há possibilidade de o desastre chegar até a bacia hidrográfica do Paraopeba, o que significa que atingiria o rio São Francisco, além de 510 municípios que poderiam ser afetos.
As mudanças das condições de vida também impactam em relação à população e aos danos da barragem: assim como o desastre da Samarco, no Rio Doce, provocou modificações das condições de vida e formas tradicionais já inseridas nesse território, acredita-se que o mesmo se repetirá com Brumadinho. Como desdobramentos ambientais do desastre, os pesquisadores contabilizam 147 hectares de perda de mata atlântica e possibilidade de deposição de rejeitos em partes do rio, que virão a secar e se tornar poeira, expondo a população do entorno ao contaminantes.
É importante demarcar também que os problemas de saúde não eram nulos antes do desastre, entretanto agora nota-se uma condição maior de risco. Assim, faz-se necessário a maior organização do setor de saúde, para que possa ser possível uma resposta adequada em melhores condições aos eventos que virão.
Saúde: perspectivas de morbidade para Brumadinho e região
A perspectiva oferecida pelos pesquisadores da área da saúde em relação aos impactos na região de Brumadinho, advém em grande parte das experiências com desastres anteriores. Neste sentido, o desastre da Samarco em Marina (MG) serviu como um grande aprendizado. Em nível de destruição socioambiental, a lama de rejeitos liberada pela barragem da Samarco afetou uma área de 750 km, 38 municípios e 2 Estados, afetando cerca de 3 milhões de habitantes. Em comparação com Brumadinho, considerando apenas o Rio Paraopeba, foram afetados 48 municípios e cerca de 1,3 milhões de habitantes foram expostos aos rejeitos, comprometendo o consumo de água e irrigação, flora e fauna.
Em Barra Longa, município mais afetado pelo desastre da Samarco, atingiu 5 mil habitantes, um cenário similar ao que se observa em Brumadinho. Um estudo realizado pelo CEPEDES sobre o desastre da Samarco em Mariana (MG), comparou os dados de saúde relativos à morbidade nos anos de 2014 e 2015, depois da tragédia. Notou-se um aumento substancial na prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e infecciosas neste período.
A prevalência ou diagnóstico de ansiedade em Barra Longa (MG) foi 5 vezes maior após o desastre da Samarco em Mariana. Para dermatites o aumento foi de 7 vezes, para diabetes foi de 11 vezes e hipertensão foi de 15 vezes. Para doenças infecciosas, observa-se um aumento de 11 vezes para gastroenterites, em decorrência da falta de acesso à água tratada. O caso mais escandaloso é em relação à dengue: não havia registro de diagnóstico ou prevalência anterior de dengue, que saltou 123 casos após o desastre.
Outro estudo realizado, via questionário espontâneo, no mesmo período pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, notificou um aumento das doenças do aparelho respiratório, transtornos mentais, doenças do aparelho digestivo, entre outros. O Isolamento das comunidades, afetadas pela lama, também impõe um fator limitante no cuidado e atenção à saúde, uma vez que dificulta o acesso para os serviços de saúde.
Em Brumadinho, o quadro prévio de morbidade da população pode ser um indicativo do nível de problemas de saúde que surgirão após o desastre. Estudos anteriores apontam que Brumadinho e o vale do Rio Paraopeba, são zonas de transmissão de esquistossomose. Assim, o risco pode agravar diante da debilidade em termos de saneamento básico. Estudos anteriores também indicaram também surtos de febre amarela em 2016 e 2017 na região de Mariana, regiões do Vale do Rio doce e na região metropolitana de Belo Horizonte, chegando até Brumadinho. Assim, é necessário um alerta, principalmente no verão que pode propiciar a proliferação dos mosquitos, sobre um possível surto de febre amarela.
A dengue, Chikungunya, Zika e febre amarela, configuram um problema nacional de saúde pública, que tendem à se agravar diante de desastres socioambientais. É imprescindível que não faltem ferramentas para reestabelecer as condições de saúde, reforçando aparelhos de saúde, exames e diagnósticos, bem como o tratamento da população afetada. Políticas de prevenção devem sempre estar aliadas às políticas de assistencialismo, de forma que juntas possam garantir uma atenção ainda mais integral. As ações devem integrar desde o combate aos vetores, até a garantia de exames capazes de diagnosticar tais doenças infecciosas, buscando rapidez e eficácia, para tratar e proteger a população mineira que enfrenta maiores riscos.
Bibliografia:
- ROMÃO, A. ; FROES, C.; BARCELLOS, C.; SILVA, DX.; SALDANHA, D.; GRACIE, R.; PASCOAL, V. Avaliação preliminar dos impactos sobre a saúde do desastre da mineração da Vale (Brumadinho,MG). Disponível em: < https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/32268/2/Avalia%C3%A7ao_preliminar_saude_Brumadinho2019.pdf> Acessado em: 29 de abril de 2019.
- DA SILVA, MA.; FREITAS, CM.; Desastre da Vale S.A: Barragem I da mina do Córrego do Feijão. Disponível em: <https://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/CEPEDES_Desastre%20da%20Vale%202019.pdf> Acessado em: 29 de abril de 2019
- FIOCRUZ. Desastre da Vale S.A. em Brumadinho – Impactos sobre a saúde e desafios para a gestão de riscos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2vEFcaUj4Uk> Acessado em: 20 de abril de 2019