Por José de Souza Andrade-Filho*
Estomatologia é ramo da medicina que tem por objetivo o estudo das doenças da boca. O odontólogo/dentista é o profissional com grande conhecimento das condições patológicas da cavidade oral, o mesmo ocorrendo com o médico estomatologista. Os constituintes da boca manifestam suas próprias doenças, bem como outras secundárias a distúrbios em outros órgãos.
Um processo patológico relacionado às glândulas salivares e caracterizado por um cisto de retenção de saliva pode ocorrer debaixo da língua. Apresenta-se como uma tumefação às vezes azulada, flutuante, de superfície lisa e com a forma de cúpula, localizada no soalho da boca (Fig. 1A). É doença muito conhecida dos médicos especialistas em cirurgia de cabeça e pescoço e dos cirurgiões-dentistas.

Fig. 1B
Essa condição patológica recebeu a denominação de rânula (pequena rã). O termo origina-se do Latim rana: rã com o diminutivo ula. A analogia, de autor desconhecido em nossa pesquisa, surgiu pela semelhança do aspecto anatomoclínico da lesão com o sáculo laríngeo de uma rã ao coaxar (Fig. 1B) ou, segundo outros, com o seu ventre translúcido e tumefeito. Outra hipótese para o vocábulo rânula, menos aceita, baseou-se na voz grossa e áspera (voz de rã) que os pacientes apresentam com tal afecção.
A rânula pode representar um cisto de retenção ou um extravasamento de saliva, associados, sobretudo, aos ductos das glândulas salivares sublinguais e, menos comumente, das glândulas submandibulares. Pode ser causada por trauma mecânico do ducto excretor glandular ou da obstrução do fluxo salivar por um cálculo denominado sialólito (=cálculo salivar).
A rânula ocorre também em cães, bovinos e equinos.
Quatro autores chineses publicaram um trabalho científico, em 2004, intitulado Clinical review of 580 ranulas. Zhao YF, Jia Y, Chen XM, Zhang WF. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod. Sep; 98(3):281-7. O propósito do artigo foi comparar aspectos clínicos entre os três padrões de rânula e as taxas de recidiva de cada um, quando tratados por diferentes métodos cirúrgicos. Os autores fizeram estudo retrospectivo dos 580 casos, classificados em três tipos, de acordo com os locais da tumefação primária: oral, mergulhante e mista. Os dados avaliados incluiam idade de apresentação, sexo, história prévia, locais da tumefação, métodos cirúrgicos, achados histológicos e seguimento após tratamento. A conclusão foi de que os três padrões de rânula têm achados clínicos e histopatológicos semelhantes, com pequenas diferenças para a rânula mergulhante.

Fig. 1A
O tratamento da rânula consiste na remoção e/ou marsupialização da glândula sublingual. A marsupialização (tipo de operação em algumas lesões císticas) requer a remoção do teto da lesão intra-oral, permitindo que o ducto da glândula restabeleça a comunicação com a cavidade oral. Contudo, este procedimento nem sempre é bem sucedido, segundo muitos especialistas. Outros profissionais, como se verifica em trabalhos publicados, preferem a marsupialização.
Fonte: Texto baseado parcialmente em artigos de autores nacionais e internacionais de medicina e de odontologia.
Sobre o autor:
José de Souza Andrade-Filho, Patologista no Hospital Felício Rocho-BH; Professor de Patologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e Membro da Academia Mineira de Medicina.