Criogenia na pesquisa clínica, entrevista com a Thermo Fisher | Newslab

Thermo Fisher amplia infraestrutura para estudos clínicos complexos no Brasil

Maria Rodrigues explica o papel da criogenia, do controle de temperatura e da rastreabilidade no suporte às pesquisas com terapias celulares, em visita técnica da NewsLab

Preservar materiais biológicos sensíveis é uma etapa decisiva no caminho entre o desenvolvimento de uma terapia celular e sua utilização em estudos clínicos. Nesse percurso, armazenamento, transporte e entrega precisam atender às condições estabelecidas para cada material, com controle de temperatura e registros que permitam acompanhar sua movimentação.

Em 21 de outubro de 2026, a NewsLab visitou o Centro Logístico de Ensaios Clínicos da Thermo Fisher Scientific, no bairro Jaguaré, em São Paulo. A programação apresentou a nova capacidade criogênica da unidade e os processos envolvidos na conservação e na distribuição desses materiais. A visita foi tema de uma reportagem publicada no site da revista.

Nesta entrevista, Maria Rodrigues, gerente-geral de Serviços Clínicos da Thermo Fisher Scientific no Brasil, detalha a ampliação da infraestrutura, os desafios da logística criogênica e as perspectivas para apoiar estudos de maior complexidade no país.

Maria Rodrigues, gerente-geral de Serviços Clínicos da Thermo Fisher Scientific no Brasil.
Maria Rodrigues
Gerente-geral de Serviços Clínicos da Thermo Fisher Scientific no Brasil.

Confira a entrevista

1. A Thermo Fisher ampliou recentemente a capacidade criogênica de seu Centro Logístico de Ensaios Clínicos, em São Paulo. Qual é a importância dessa estrutura para a pesquisa clínica no Brasil?

A pesquisa clínica está se tornando cada vez mais complexa, especialmente com o avanço de terapias celulares e gênicas. São tratamentos que exigem cuidados muito específicos com os materiais biológicos utilizados nos estudos, desde o armazenamento até o transporte para os centros de pesquisa.

Com a nova capacidade criogênica, conseguimos oferecer no Brasil uma operação integrada para materiais que precisam ser mantidos em temperaturas extremamente baixas, que podem chegar a aproximadamente -196°C. Somos a primeira empresa no Brasil e na América Latina a oferecer, nessa escala, uma capacidade especializada de armazenamento criogênico associada a uma operação de ponta a ponta, que abrange desde o recebimento e armazenamento dos materiais até sua distribuição aos centros de pesquisa e a logística reversa dos equipamentos utilizados.

Isso representa um avanço importante porque a criogenia exige muito mais do que equipamentos capazes de atingir temperaturas extremamente baixas. É necessário garantir processos qualificados, controle e rastreabilidade ao longo de toda a operação.

2. Como a criogenia contribui para o desenvolvimento de terapias celulares, como as utilizadas em determinados tratamentos oncológicos?

Em algumas terapias celulares, trabalhamos com materiais biológicos extremamente sensíveis, que precisam ser preservados em condições rigorosamente controladas. Qualquer alteração nas condições exigidas para armazenamento ou transporte pode comprometer a integridade desses materiais.

Um exemplo são as terapias CAR-T, que envolvem a utilização de células do próprio paciente, modificadas para reconhecer e combater determinadas células cancerígenas. É um processo que exige uma cadeia logística altamente especializada, desde a movimentação do material biológico até o transporte do produto desenvolvido.

A criogenia permite conservar determinados materiais nessas condições de ultrabaixa temperatura. Aqui no Brasil, já apoiávamos etapas logísticas relacionadas a esse tipo de terapia. Agora, com a nova infraestrutura, também temos capacidade para armazenar materiais criogênicos, ampliando o suporte que podemos oferecer aos estudos clínicos.

3. Quais são os principais desafios para garantir a integridade desses materiais durante o armazenamento e a distribuição aos centros de pesquisa?

O principal desafio é manter as condições exigidas para cada material durante toda a operação. Estamos falando de produtos muito sensíveis, que precisam chegar ao centro de pesquisa dentro das especificações estabelecidas para o estudo.

Para isso, trabalhamos com equipamentos de transporte qualificados, conhecidos como shippers, preparados para manter as condições de temperatura exigidas durante o deslocamento. Utilizamos também registradores eletrônicos de temperatura, os chamados data loggers, que permitem acompanhar as condições às quais os materiais são submetidos. Dependendo dos requisitos do estudo, esse monitoramento pode ser realizado em tempo real, com recursos de rastreamento por GPS.

Também precisamos considerar as condições de recebimento nos centros de pesquisa, porque nem todos contam com infraestrutura própria para armazenar materiais em temperaturas criogênicas.

É uma operação que exige planejamento e acompanhamento constante. Não adianta garantir as condições adequadas de armazenamento aqui no Centro Logístico se não houver o mesmo rigor durante o transporte e a entrega. Por isso, nossa atuação envolve toda essa cadeia, incluindo a logística reversa dos equipamentos utilizados.

4. O Centro Logístico da Thermo Fisher já participa de mais de 850 estudos clínicos. Como a ampliação dessa infraestrutura pode contribuir para o avanço da pesquisa clínica no país?

O Brasil tem uma participação importante na pesquisa clínica global e vem avançando nesse cenário. Segundo levantamento da Interfarma em parceria com a IQVIA, o país passou da 18ª posição, em 2025, para a 12ª no ranking mundial de estudos clínicos iniciados em 2026, respondendo por 2,9% das pesquisas iniciadas globalmente. Esse avanço mostra o potencial brasileiro, mas também reforça a importância de contar com infraestrutura especializada para acompanhar a evolução dos estudos.

Nosso Centro Logístico opera no país há 18 anos e acompanhou essa evolução. Hoje, contamos com uma estrutura de 2,4 mil metros quadrados e cerca de 110 profissionais, além de diferentes condições de armazenamento para atender às necessidades dos estudos. Com a expansão da capacidade criogênica, incorporamos dois tanques de nitrogênio líquido, 18 racks com capacidade para aproximadamente 144 posições de armazenamento e 15 equipamentos qualificados para transporte de materiais criogênicos. Desde o início de 2026, essa estrutura já é utilizada em estudos clínicos envolvendo terapia celular.

Estamos trazendo para a operação brasileira uma experiência que a Thermo Fisher já acumulou globalmente ao longo de mais de 35 anos em cadeias de ultrabaixa temperatura e criogenia. O Brasil tem condições de ampliar sua participação em pesquisas inovadoras, e nosso papel é oferecer a infraestrutura necessária para que estudos cada vez mais complexos possam ser conduzidos a partir