ESCAT v2 atualiza avaliação de biomarcadores no câncer | Newslab

ESCAT v2 refina a avaliação de biomarcadores que orientam o tratamento do câncer

Atualização da ESMO detalha a certeza das evidências e incorpora uma escala de resistência, com repercussões para a interpretação de exames e a discussão de casos em oncologia

Encontrar uma alteração molecular no tumor é apenas parte da investigação. Para orientar o tratamento, é necessário estabelecer a força da evidência que liga aquele achado ao benefício de uma terapia.

A Sociedade Europeia de Oncologia Médica, ESMO, atualizou seu referencial para essa avaliação com a publicação da ESCAT v2, disponibilizada em 21 de outubro de 2026 no periódico Annals of Oncology.

A revisão acompanha uma dificuldade cada vez mais presente na oncologia de precisão. O sequenciamento tumoral ampliou o volume de informações disponíveis, enquanto a interpretação passou a exigir critérios mais específicos para reconhecer oportunidades terapêuticas e sinais de resistência. Criada em 2018, a ESCAT organiza essas evidências em uma linguagem comum para os profissionais envolvidos no cuidado.

O que torna um biomarcador acionável

Na prática clínica, a acionabilidade corresponde à possibilidade de utilizar um biomarcador para orientar uma conduta terapêutica sustentada por evidências. A identificação de uma variante, por si só, não estabelece essa possibilidade.

O National Cancer Institute, dos Estados Unidos, ressalta que exames moleculares podem revelar alterações sem utilidade para a escolha do tratamento. Variantes de significado incerto, por exemplo, não devem orientar decisões terapêuticas. Mesmo quando existe uma terapia associada ao biomarcador identificado, a resposta individual não está garantida.

É nessa avaliação da relevância terapêutica que a ESCAT v2 atua. A atualização preserva os princípios da classificação original, mas torna mais explícitas as diferenças de certeza entre as evidências que sustentam uma associação entre biomarcador e tratamento.

Mais precisão na leitura das evidências

Uma das principais mudanças está no nível I, agora organizado em três categorias, com evidência comprovada, inferida ou extrapolada. Elas mantêm a mesma orientação clínica de uso, embora expressem graus distintos de certeza científica.

Um ponto central da atualização

No nível I, a orientação clínica permanece a mesma. O detalhamento das categorias permite comunicar com maior precisão o grau de certeza que sustenta a associação entre o biomarcador e o tratamento.

O nível II passa a distinguir evidências provenientes de estudos prospectivos intervencionais, dados de mundo real de alta qualidade ou estudos não prospectivos e relatos de casos com resultados replicados.

A classificação também refina a leitura de resultados negativos. O nível X separa duas situações que precisam permanecer reconhecíveis na interpretação científica.

Categoria X-A

O biomarcador foi avaliado e não demonstrou capacidade preditiva.

Categoria X-B

A terapia não apresentou atividade relevante na população definida pelo biomarcador.

Critérios para terapias agnósticas ao tumor

A ESCAT v2 incorpora critérios formais do ESMO Tumour-Agnostic Classifier and Screener, ETAC-S, para avaliar terapias agnósticas ao tumor.

Nesse modelo terapêutico, a seleção considera uma característica molecular compartilhada por diferentes tipos de câncer. O ETAC-S estabelece requisitos mínimos para examinar e sustentar esse potencial de atuação entre tumores distintos. Sua integração oferece uma base estruturada para avaliar quando as evidências permitem essa abrangência.

Resistência ganha uma escala própria

A atualização introduz uma classificação paralela de resistência com quatro níveis. Ela abrange desde evidência clínica validada, associada à contraindicação terapêutica, até achados pré-clínicos ou computacionais destinados exclusivamente à pesquisa.

Desenvolvida independentemente das aprovações regulatórias, essa escala organiza a força das evidências de resistência e complementa a avaliação dos biomarcadores associados à sensibilidade ao tratamento.

Relevância para o laboratório e a discussão clínica

Para os serviços de diagnóstico molecular, a ESCAT oferece um referencial para comunicar a relevância terapêutica dos achados. A classificação já integra discussões de comitês moleculares de tumores, e a ESMO prevê a adoção da versão atualizada nas próximas revisões de suas diretrizes específicas por doença.

O perfil molecular tem contexto e tempo

Segundo o National Cancer Institute, diferentes células de um mesmo câncer podem apresentar biomarcadores distintos, e o perfil molecular pode mudar ao longo do tempo. Um resultado anterior, portanto, pode não representar integralmente a doença em um momento posterior.

A contribuição da ESCAT v2 está em tornar mais clara a passagem entre o achado laboratorial e sua relevância clínica. Ao explicitar a certeza das evidências e classificar a resistência, o referencial ajuda a comunicar o que sustenta uma opção terapêutica e quais incertezas ainda precisam acompanhar essa decisão.