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AVC, reconhecer a causa é decisivo para prevenir e tratar

No dia 29 de outubro, a prevenção e o atendimento rápido ganham destaque diante de uma doença que pode resultar de obstrução ou ruptura vascular. Avanços terapêuticos ampliam as possibilidades de cuidado, com decisões apoiadas na avaliação clínica, na neuroimagem e nos exames laboratoriais

29 de outubro · Dia Mundial do AVC

O acidente vascular cerebral exige rapidez, mas o tratamento depende de uma distinção fundamental. Uma artéria obstruída e um vaso que se rompeu podem provocar manifestações neurológicas semelhantes, embora necessitem de condutas diferentes.

Neste 29 de outubro, Dia Mundial do AVC e Dia Nacional de Prevenção ao Acidente Vascular Cerebral, a conscientização passa por reconhecer os sinais, compreender os fatores de risco e garantir acesso ao diagnóstico adequado. A data brasileira foi instituída pela Lei nº 14.885/2024, que prevê o estímulo à pesquisa, à educação e ao cuidado integral.

A dimensão do problema permanece expressiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde, ocorreram 11,9 milhões de novos casos de AVC no mundo em 2021. Naquele ano, a doença ocupou a terceira posição entre as principais causas globais de morte e incapacidade. Os números reforçam a necessidade de atuar antes do evento e de organizar a assistência desde os primeiros sintomas até a reabilitação.

Obstrução e sangramento, mecanismos diferentes

O AVC pode decorrer da interrupção do fluxo em uma artéria ou de uma ruptura vascular. A distinção define a investigação e orienta as possibilidades de tratamento.

AVC isquêmico

A obstrução de uma artéria compromete o fluxo sanguíneo para uma região cerebral. Pode envolver um trombo formado no próprio vaso, um êmbolo proveniente de outro local ou alterações das pequenas artérias do cérebro. A aterosclerose e as fontes cardíacas de embolia fazem parte da investigação.

AVC hemorrágico

Decorre da ruptura de um vaso. O sangramento pode ocorrer dentro do tecido cerebral, caracterizando uma hemorragia intracerebral, ou no espaço subaracnóideo, ao redor do cérebro. A ruptura de aneurisma é uma das causas de hemorragia subaracnóidea.

Na fibrilação atrial, por exemplo, a alteração do ritmo cardíaco pode favorecer a formação de coágulos no coração. Quando alcançam a circulação cerebral, esses coágulos podem provocar um AVC isquêmico. Identificar essa origem tem consequências diretas para a prevenção de novos episódios.

A trombose explica parte dos eventos cerebrovasculares, mas não constitui a causa de todo AVC.

Prevenção começa pelo controle do risco

A hipertensão arterial ocupa posição central na prevenção. A OMS a reconhece como o principal fator de risco para AVC e destaca outros componentes modificáveis, como tabagismo, diabetes, colesterol elevado, inatividade física, excesso de peso e consumo prejudicial de álcool. O acompanhamento dessas condições precisa ocorrer de forma contínua.

A diretriz de prevenção primária da American Heart Association e da American Stroke Association, publicada em 2024, recomenda atividade física regular e redução do tempo sedentário. O documento sustenta a adoção de um padrão alimentar mediterrâneo, com evidências de redução do risco de AVC.

Para pessoas que precisam de tratamento medicamentoso da hipertensão, alcançar o controle pressórico frequentemente exige mais de um fármaco, sob acompanhamento profissional.

Após um AVC isquêmico ou ataque isquêmico transitório, a prevenção depende da investigação etiológica. Antiagregantes e anticoagulantes têm indicações distintas. Na presença de fibrilação atrial, a anticoagulação costuma ser recomendada quando não há contraindicações.

Conforme a diretriz de prevenção secundária da AHA/ASA, a associação de anticoagulante com antiagregante geralmente não está indicada para prevenir recorrências. A dupla antiagregação fica reservada a situações específicas, em geral por tempo limitado.

Sintomas súbitos exigem atendimento imediato

Assimetria facial, fraqueza ou dormência em um lado do corpo, dificuldade para falar ou compreender, perda visual e alteração súbita de equilíbrio são sinais de alerta. Dor de cabeça súbita e intensa também pode integrar a apresentação de um AVC.

Na suspeita de AVC, acione o SAMU pelo número 192.

Informe quando os sintomas começaram. Se esse momento não for conhecido, procure identificar quando a pessoa foi vista bem pela última vez. A melhora rápida dos sintomas também exige avaliação, pois pode representar um ataque isquêmico transitório.

Neuroimagem e laboratório cumprem funções complementares

A neuroimagem é indispensável para distinguir sangramento de isquemia e orientar o tratamento. A tomografia de crânio integra a avaliação inicial, enquanto exames vasculares e técnicas adicionais podem ser necessários para localizar obstruções e selecionar intervenções.

O laboratório fornece informações sobre condições que podem simular ou agravar o quadro e sobre a segurança das condutas. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas brasileiro inclui glicemia, hemograma com contagem de plaquetas, tempo de protrombina com razão normalizada internacional, tempo de tromboplastina parcial ativada, eletrólitos, ureia, creatinina e troponina.

A glicemia tem relevância imediata. A hipoglicemia pode produzir manifestações neurológicas semelhantes às de um AVC e precisa ser reconhecida durante a avaliação inicial.

A execução dos exames precisa acompanhar a urgência assistencial. As diretrizes de 2026 ressaltam a avaliação da glicemia antes da trombólise e a necessidade de evitar atrasos desnecessários no tratamento dos pacientes elegíveis. Os resultados laboratoriais integram a decisão clínica, sem substituir a avaliação neurológica e a imagem cerebral.

AVC isquêmico, novas evidências ampliam a reperfusão

Restabelecer o fluxo sanguíneo é uma das principais estratégias no tratamento do AVC isquêmico agudo. A diretriz de 2026 da AHA/ASA recomenda alteplase ou tenecteplase para trombólise intravenosa em adultos elegíveis dentro da janela de 4,5 horas. A indicação exige avaliação das contraindicações e exclusão de hemorragia.

O documento admite tratamento em janelas estendidas ou em situações de início desconhecido para pacientes selecionados por critérios de imagem avançada. Também amplia a elegibilidade para trombectomia mecânica em determinados grupos, incluindo alguns pacientes com áreas maiores de lesão isquêmica. O procedimento utiliza acesso endovascular para remover a obstrução.

No SUS, há previsão de trombectomia para pacientes selecionados em janela de até 24 horas, conforme os critérios aplicáveis. A indicação depende das características clínicas e da imagem.

As janelas terapêuticas não representam um prazo para procurar atendimento. A avaliação deve começar imediatamente diante dos sintomas.

AVC hemorrágico exige cuidado especializado

Na hemorragia intracerebral, o manejo pode envolver controle cuidadoso da pressão arterial, avaliação neurocirúrgica e tratamento de complicações. Quando o sangramento está associado ao uso de anticoagulantes, pode ser necessária a reversão rápida do efeito do medicamento, conforme o agente utilizado e a situação clínica.

A diretriz europeia de 2025, elaborada pela European Stroke Organisation e pela European Association of Neurosurgical Societies, reforça o atendimento em unidades organizadas de AVC e o controle pressórico na prevenção de recorrências. Intervenções cirúrgicas são consideradas em circunstâncias específicas, com seleção individualizada.

Na hemorragia subaracnóidea por ruptura de aneurisma, a diretriz da AHA/ASA recomenda identificar e tratar a lesão precocemente, preferencialmente nas primeiras 24 horas. A escolha entre abordagem endovascular e cirurgia depende das características do aneurisma e do paciente. O acompanhamento inclui vigilância para complicações, como isquemia cerebral tardia.

Trombose venosa cerebral merece investigação própria

Menos frequente, a trombose venosa cerebral compromete as veias e os seios venosos responsáveis pela drenagem do cérebro. Segundo declaração científica da American Heart Association publicada em 2024 no periódico Stroke, ela corresponde a aproximadamente 0,5% a 3% dos AVCs. Cefaleia, convulsões e déficits neurológicos podem fazer parte da apresentação.

A suspeita exige avaliação da circulação venosa por imagem apropriada. As recomendações canadenses de 2024 alertam que o dímero D não tem sensibilidade suficiente para excluir a condição com segurança e não deve determinar se a neuroimagem será realizada.

A anticoagulação é a base do tratamento inicial da trombose venosa cerebral sintomática. Nesse contexto específico, a presença de sangramento intracraniano associado não constitui, por si só, contraindicação à anticoagulação. A conduta exige avaliação especializada e não pode ser generalizada para outras formas de hemorragia cerebral.

Selecionar os exames faz parte da precisão diagnóstica

A pesquisa de trombofilias não deve ser automática após um AVC arterial. A British Society for Haematology não recomenda a investigação de trombofilias hereditárias nesse cenário, independentemente da idade, devido à limitada repercussão dos resultados sobre a conduta. Alterações identificadas na fase aguda podem dificultar a interpretação.

A investigação direcionada tem espaço em situações selecionadas. A sociedade recomenda considerar anticorpos antifosfolípides em pacientes com menos de 50 anos e ausência de fatores de risco cardiovascular identificáveis, pois o resultado pode modificar a estratégia antitrombótica. Para o laboratório, a utilidade clínica depende da hipótese investigada, do momento da coleta e da interpretação dos achados.

A recuperação continua após a emergência

Superar a fase aguda não encerra o cuidado. Alterações motoras, de linguagem, de deglutição e de cognição podem exigir reabilitação e acompanhamento multiprofissional. Segundo a OMS, o atendimento em unidades especializadas com serviços de reabilitação melhora os desfechos e reduz mortalidade e morbidade.

A mensagem de 29 de outubro se traduz em ações concretas. Controlar os fatores de risco, reconhecer manifestações súbitas e garantir uma investigação capaz de distinguir os mecanismos do AVC. É dessa precisão, associada ao acesso rápido ao cuidado, que dependem as escolhas terapêuticas e parte das possibilidades de recuperação.