Diabetes e saúde ocular
A retina pode apresentar lesões enquanto a visão ainda parece normal.
Essa evolução silenciosa torna o rastreamento oftalmológico uma etapa essencial do acompanhamento de pessoas com diabetes.
Enxergar bem não exclui a presença de retinopatia diabética. Nas fases iniciais, alterações nos pequenos vasos sanguíneos da retina podem se instalar sem provocar sintomas perceptíveis. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, a complicação afeta aproximadamente uma em cada três pessoas com diabetes.
O dado reforça a necessidade de associar o acompanhamento laboratorial do controle metabólico à avaliação periódica do fundo do olho. Cada abordagem fornece informações próprias sobre a condição do paciente e contribui para decisões clínicas em momentos diferentes do cuidado.
Mobilização em novembro
A campanha 24 Dias pelo Diabetes, organizada pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia para novembro de 2026, prevê conteúdos educativos e mutirões em diferentes regiões do país. A iniciativa busca ampliar a informação e incentivar o cuidado ocular antes que a dificuldade para enxergar apareça.
O que a hiperglicemia provoca na retina
A exposição prolongada a níveis elevados de glicose danifica a microvasculatura retiniana. Os vasos podem apresentar dilatações, perder sua integridade e permitir o extravasamento de líquido. Com a progressão da doença, a obstrução vascular favorece o aparecimento de novos vasos, frágeis e sujeitos a sangramentos, processo que caracteriza a retinopatia diabética proliferativa.
Outra complicação é o edema macular diabético, provocado pelo acúmulo de líquido na mácula, região da retina necessária à visão central de detalhes. Seu comprometimento pode dificultar atividades como ler, dirigir e reconhecer rostos. Nas formas avançadas, hemorragias e tecido cicatricial representam ameaças adicionais à visão.
O tempo de convivência com o diabetes aumenta o risco de alterações oculares. A evolução, entretanto, depende de outros fatores. O controle da glicemia, da pressão arterial e dos lipídios integra a prevenção e o manejo dessas complicações, conforme orientações dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.
O rastreamento começa antes dos sintomas
A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes estabelece momentos distintos para iniciar a investigação, de acordo com o tipo de diabetes e as características do paciente.
Crianças, adolescentes e mulheres com diabetes preexistente que planejam engravidar ou estão grávidas precisam de protocolos específicos. Em todos esses contextos, a ausência de queixas visuais não deve adiar a avaliação indicada. O exame com dilatação das pupilas permite investigar alterações que ainda não interferem de maneira perceptível na visão.
O que o laboratório informa e o que o exame ocular revela
A hemoglobina glicada, HbA1c, ocupa um lugar importante no acompanhamento do diabetes. O exame informa a exposição glicêmica média dos últimos três meses e ajuda a equipe assistencial a avaliar o tratamento. Segundo o National Eye Institute, atingir as metas individualizadas de HbA1c contribui para prevenir ou controlar a retinopatia.
Controle metabólico e avaliação da retina respondem a perguntas clínicas diferentes.
A HbA1c auxilia na avaliação do controle glicêmico. A identificação das lesões retinianas exige exame ocular. Os resultados precisam ser considerados em conjunto no acompanhamento do paciente.
Para a avaliação inicial, a Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda exame com pupilas dilatadas, utilizando recursos como retinografia ou mapeamento de retina e biomicroscopia de fundo.
Quando há suspeita de edema macular, a tomografia de coerência óptica permite avaliar a espessura e a estrutura da retina. O protocolo do Ministério da Saúde destaca sua aplicação no diagnóstico do edema que acomete o centro da mácula e no apoio às decisões de tratamento e retratamento.
A conduta acompanha a gravidade das lesões
O diagnóstico de retinopatia não implica a mesma conduta para todos os pacientes. Nas fases iniciais, o acompanhamento oftalmológico e o controle dos fatores metabólicos podem orientar o cuidado. Conforme a gravidade e as complicações, o tratamento pode incluir medicamentos intraoculares, fotocoagulação a laser ou vitrectomia, cirurgia empregada em situações como sangramentos importantes e formação de tecido cicatricial.
A escolha depende dos achados do exame, do comprometimento visual e da avaliação especializada. Reconhecer as alterações em tempo oportuno permite estabelecer a conduta antes que a doença cause danos mais extensos.
Um cuidado que precisa entrar na rotina
Para quem acompanha pessoas com diabetes, a avaliação oftalmológica deve fazer parte do cuidado mesmo quando o paciente lê, trabalha e dirige sem perceber alterações. Esperar pela dificuldade visual pode significar encontrar uma lesão que já avançou.