Alterações no perfil de anticorpos do sangue podem ser identificadas até dez anos antes do diagnóstico de doença de Crohn e retocolite ulcerativa. A pesquisa, publicada na revista Gut e apresentada na UEG Week 2026, em Barcelona, amplia o conhecimento sobre a fase pré-clínica das doenças inflamatórias intestinais e aponta possibilidades para a investigação de biomarcadores de risco.
Para a medicina laboratorial, o interesse está em reconhecer padrões de resposta imunológica anteriores ao diagnóstico. A investigação foi conduzida por pesquisadores da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em colaboração com a Universidade Médica de Viena. Embora os achados sejam promissores, a abordagem ainda precisa de validação antes de ser utilizada no rastreamento clínico.
Uma década de registros no soro
Os pesquisadores analisaram 2.000 amostras de soro de 500 participantes de uma coorte de militares dos Estados Unidos. Desse total, 200 desenvolveram doença de Crohn, 200 receberam diagnóstico de retocolite ulcerativa e 100 integraram o grupo de controles saudáveis pareados por idade e sexo.
O material armazenado permitiu examinar respostas imunológicas em diferentes momentos, alcançando aproximadamente dez anos antes do diagnóstico. Assim, a equipe pôde investigar como o repertório de anticorpos se modificava ao longo do período anterior ao reconhecimento clínico dessas doenças.
A análise utilizou a técnica PhIP-Seq, que combina imunoprecipitação de peptídeos apresentados em bacteriófagos com sequenciamento. O painel contemplou cerca de 357 mil peptídeos associados a microrganismos, vírus, alimentos e componentes do sistema imune, permitindo caracterizar respostas contra um amplo conjunto de alvos.
Crohn e retocolite apresentam padrões distintos
Entre os participantes que posteriormente desenvolveram doença de Crohn, destacaram-se respostas aumentadas contra herpesvírus, especialmente o Epstein-Barr, e contra flagelinas bacterianas. Essas assinaturas estavam presentes anos antes do diagnóstico e foram particularmente evidentes nos indivíduos que desenvolveram doença complicada ou com acometimento ileal.
Segundo a comunicação institucional do Mount Sinai, os achados ajudam a investigar as relações entre exposição microbiana, microbiota intestinal e atividade imunológica nas etapas iniciais da doença.
Na retocolite ulcerativa, os pesquisadores observaram uma combinação de respostas antimicrobianas, antivirais e de autoanticorpos. Entre os alvos identificados estava a proteína MADD, relacionada à ativação de MAP quinases. O trabalho descreve ainda respostas progressivamente menores contra bactérias encapsuladas à medida que o diagnóstico se aproximava.
Associação não estabelece causalidade. Os resultados caracterizam trajetórias imunológicas anteriores ao diagnóstico, mas não demonstram que um vírus ou uma bactéria seja, isoladamente, responsável pelo desenvolvimento dessas doenças.
O que os modelos conseguiram distinguir
Ao integrar as assinaturas de anticorpos a modelos de aprendizado de máquina, os pesquisadores distinguiram futuros casos de Crohn dos controles com área sob a curva ROC, ou AUC, de 0,90. Para retocolite ulcerativa, o valor foi de 0,84.
Os perfis também diferenciaram Crohn complicado de não complicado, aproximadamente dez anos antes do diagnóstico, com AUC de 0,85. Esses resultados constam de resumo publicado no Journal of Crohn’s and Colitis e foram divulgados pela United European Gastroenterology na apresentação da pesquisa.
O caminho até um exame clínico
A etapa seguinte será testar as assinaturas em populações independentes, mais diversas e acompanhadas prospectivamente. Conforme a United European Gastroenterology, os pesquisadores precisam verificar o benefício adicional desses perfis em relação a informações genéticas, dados clínicos e outros marcadores sanguíneos.
A aplicação laboratorial também dependerá do desenvolvimento de um ensaio direcionado, reprodutível e economicamente acessível. Para Arno Bourgonje, primeiro autor do estudo, será necessário demonstrar que o uso do teste melhora os desfechos dos pacientes.
Por enquanto, a contribuição está em compreender melhor o período anterior ao diagnóstico das doenças inflamatórias intestinais. Os sinais encontrados no soro oferecem uma base para investigar quando essas alterações começam, como evoluem e em que condições poderão contribuir para o cuidado.
Referências
- Bourgonje AR et al. Deciphering the prodrome of inflammatory bowel disease up to 10 years before disease onset by massively parallel serology. Gut, 2026.
Acessar o artigo. - Systemic antibody responses predict the onset of Inflammatory Bowel Disease up to 10 years before diagnosis. Journal of Crohn’s and Colitis, 2025, suplemento 1.
Acessar o resumo científico. - United European Gastroenterology. Immune changes could signal inflammatory bowel disease up to 10 years before diagnosis. Comunicação da UEG Week 2026, publicada em 19 de outubro de 2026.
Acessar a publicação. - Icahn School of Medicine at Mount Sinai. Mount Sinai Study Detects Immune Changes Up to 10 Years Before Inflammatory Bowel Disease Is Diagnosed. Comunicado institucional, publicado em 22 de julho de 2026.
Acessar o comunicado.