Outubro Rosa, 2026
O Outubro Rosa começa em 2026 com uma mudança concreta no acesso ao diagnóstico. A partir deste 1º de outubro, a Agência Nacional de Saúde Suplementar, ANS, amplia a cobertura obrigatória da mamografia digital, retirando a restrição de idade e mantendo a avaliação clínica e a prescrição do médico assistente como critérios para sua realização. A medida alcança o rastreamento, a investigação diagnóstica e o acompanhamento do tratamento.
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Ao mesmo tempo, novas aprovações de medicamentos e resultados de estudos clínicos mostram como o tratamento vem sendo orientado pelas características de cada tumor. Uma das novidades brasileiras mais recentes permite modificar a terapia em uma situação específica de câncer avançado, quando surge uma alteração molecular associada à resistência, antes de aparecer progressão nos exames de imagem.
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A dimensão do desafio permanece elevada. O Instituto Nacional de Câncer, INCA, estima 78.610 novos casos de câncer de mama feminina por ano no Brasil para o triênio de 2026 a 2028. A doença representa 30% dos novos cânceres estimados em mulheres, excluídos os tumores de pele não melanoma. Esses números são projeções de incidência, e não uma contagem de diagnósticos já realizados.
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No cenário mundial, a Organização Mundial da Saúde, OMS, informa que aproximadamente 2,4 milhões de mulheres receberam o diagnóstico em 2024, ano em que foram estimadas 694 mil mortes pela doença. No Brasil, o INCA informa 20.849 mortes por câncer de mama em 2024, com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade.
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A campanha de outubro, que inclui o dia 19, conhecido como Dia Mundial de Combate ao Câncer de Mama, oferece uma oportunidade para esclarecer o que essas mudanças significam na prática.
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Mamografia, acesso e investigação de sintomas
A primeira distinção importante está entre rastreamento e investigação de sintomas. O rastreamento utiliza exames em pessoas sem sinais suspeitos, para identificar alterações antes de manifestações clínicas. Já um nódulo ou outra mudança na mama exige avaliação diagnóstica, independentemente da idade prevista para o rastreamento. O INCA recomenda prioridade na investigação das pessoas sintomáticas.
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No SUS, a orientação do Ministério da Saúde para o rastreamento mamográfico populacional é realizar o exame a cada dois anos em mulheres de 50 a 74 anos. A faixa foi ampliada em 2025, quando o limite superior passou de 69 para 74 anos. Mulheres entre 40 e 49 anos, assim como aquelas acima de 74 anos, podem acessar a mamografia de rastreamento por demanda, desde que recebam orientação profissional sobre benefícios e riscos.
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Isso significa que acesso ao exame e recomendação de rastreamento são decisões distintas. A retirada de uma barreira de cobertura, como ocorreu agora na saúde suplementar, mantém a necessidade de indicação clínica. No SUS, o acesso entre 40 e 49 anos convive com a recomendação populacional bienal dos 50 aos 74 anos.
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Entre os sinais que precisam ser investigados estão nódulo endurecido, fixo ou crescente, retração da pele, mudança no formato do mamilo, secreção espontânea e pele com aspecto de casca de laranja. Alterações nas axilas também merecem atenção.
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Conhecer as características habituais das próprias mamas ajuda a perceber mudanças. Essa observação cotidiana deve levar à procura de atendimento quando surgir algo suspeito. O autoexame feito segundo uma técnica e um calendário fixos não demonstrou reduzir a mortalidade nos ensaios clínicos citados pelo INCA.
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Inteligência artificial na leitura das mamografias
A tecnologia de imagem, por sua vez, está recebendo contribuições da inteligência artificial. Publicado em janeiro de 2026 no The Lancet, o estudo sueco MASAI distribuiu aleatoriamente mais de 105 mil mulheres entre rastreamento mamográfico com apoio de IA e leitura convencional por dois radiologistas. A ferramenta auxiliou a seleção dos exames para leitura simples ou dupla e a identificação de achados suspeitos.
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A sensibilidade, que expressa a capacidade de identificar os cânceres presentes, foi de 80,5% no grupo com IA e de 73,8% no grupo convencional. A especificidade foi de 98,5% em ambos. Para os cânceres de intervalo, diagnosticados entre rodadas de rastreamento, o resultado cumpriu o critério de não inferioridade. Embora a taxa tenha sido numericamente menor com IA, a diferença não demonstrou superioridade estatística. O estudo avaliou o desempenho do rastreamento, sem demonstrar redução da mortalidade.
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O diagnóstico que revela a biologia do tumor
Quando uma alteração suspeita é encontrada, a investigação precisa avançar até sua confirmação. Segundo o Ministério da Saúde, a biópsia obtém o material necessário ao diagnóstico definitivo, à classificação da neoplasia e à avaliação de parâmetros que orientam o tratamento.
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É nessa etapa que o laboratório assume um papel decisivo. A análise do tecido verifica características como receptores de estrogênio e progesterona e o estado de HER2, proteína relacionada ao crescimento celular. Esses resultados ajudam a definir quais tratamentos podem funcionar. Tumores com receptores hormonais podem responder à terapia endócrina. A classificação HER2 orienta o uso de medicamentos dirigidos a esse alvo.
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A avaliação genética tem outra finalidade. Variantes hereditárias patogênicas em genes como BRCA1 e BRCA2 podem modificar o risco e orientar estratégias de acompanhamento. O National Cancer Institute, dos Estados Unidos, recomenda discutir a indicação dos testes com profissionais qualificados. Uma alteração encontrada no tumor pode exigir investigação adicional para determinar se foi herdada ou surgiu durante o desenvolvimento do câncer.
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Biópsia líquida e novas terapias endócrinas
Uma das mudanças mais relevantes de 2026 conecta justamente o exame molecular à escolha do medicamento. Em 21 de setembro, a Anvisa aprovou o camizestranto para adultos com câncer de mama localmente avançado ou metastático, positivo para receptor de estrogênio e negativo para HER2, após o surgimento de mutação ESR1 durante a primeira linha de terapia endócrina associada a um inibidor de CDK4/6 por pelo menos seis meses, sem progressão clínica ou radiológica.
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O medicamento é um degradador seletivo do receptor de estrogênio, que bloqueia sua atividade e promove sua degradação. A indicação contempla uma situação em que a mudança molecular permite orientar a troca de tratamento antes de uma piora identificável clinicamente ou por imagem.
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No estudo SERENA-6, publicado no New England Journal of Medicine em 2025, as participantes foram monitoradas para mutações ESR1 no DNA tumoral circulante, analisado no sangue, uma abordagem de biópsia líquida. Entre as 315 pacientes elegíveis e randomizadas, a troca do inibidor de aromatase por camizestranto, mantendo o inibidor de CDK4/6, resultou em mediana de sobrevida livre de progressão de 16 meses, contra 9,2 meses com a manutenção do esquema anterior.
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O resultado corresponde ao tempo até progressão ou morte no contexto daquele estudo. Não equivale a uma demonstração de aumento da sobrevida global. A estratégia foi avaliada em pacientes com doença avançada e critérios definidos, sem estabelecer um exame de sangue para rastreamento da população.
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Outra aprovação brasileira ocorreu em junho, com o inlunestranto. A Anvisa autorizou seu uso oral, em monoterapia, para adultos com câncer de mama localmente avançado ou metastático, positivo para receptor de estrogênio, negativo para HER2 e com mutação ESR1, previamente tratados com terapia endócrina. Os critérios são diferentes daqueles definidos para o camizestranto.
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Anticorpos conjugados ampliam as possibilidades de tratamento
Os conjugados anticorpo-fármaco também avançaram. Esses medicamentos unem um anticorpo a uma substância citotóxica, para direcionar sua entrega às células que apresentam o alvo reconhecido. O trastuzumabe deruxtecana é um exemplo dessa classe.
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Em maio de 2026, a Anvisa ampliou sua indicação no Brasil. Associado ao pertuzumabe, passou a ser autorizado em primeira linha para adultos com câncer de mama HER2-positivo irressecável ou metastático, com positividade definida por imuno-histoquímica 3+ ou hibridização in situ positiva. A decisão foi fundamentada em melhora clinicamente relevante e estatisticamente significativa da sobrevida livre de progressão.
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Nos Estados Unidos, a FDA aprovou, também em maio, usos do trastuzumabe deruxtecana em situações de doença HER2-positiva inicial. Uma das indicações contempla pacientes com doença invasiva residual após tratamento antes da cirurgia com trastuzumabe, com ou sem pertuzumabe, e quimioterapia baseada em taxanos.
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No estudo DESTINY-Breast05, que avaliou esse cenário, a taxa de sobrevida livre de doença invasiva em três anos foi de 92,4% com trastuzumabe deruxtecana e de 83,7% com trastuzumabe entansina. O desfecho reúne eventos como recorrência invasiva e morte, e não representa uma taxa de cura definitiva. A informação é referente à aprovação norte-americana descrita pela FDA.
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Novas opções para o câncer de mama triplo-negativo
Para o câncer de mama triplo-negativo, novas decisões internacionais ampliaram as opções em doença avançada. Em maio, a FDA aprovou o datopotamabe deruxtecana para adultos com doença irressecável ou metastática que não são candidatos à terapia com inibidores de PD-1 ou PD-L1.
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O estudo TROPION-Breast02, com 644 participantes sem tratamento sistêmico prévio para a doença avançada, registrou mediana de sobrevida livre de progressão de 10,8 meses com o medicamento e de 5,6 meses com quimioterapia. A mediana de sobrevida global foi de 23,7 e 18,7 meses, respectivamente. São resultados da população estudada, que não permitem prever quanto viverá uma paciente individualmente.
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Em junho, a FDA aprovou o sacituzumabe govitecana associado ao pembrolizumabe em primeira linha para doença triplo-negativa localmente avançada irressecável ou metastática com expressão de PD-L1, definida por CPS igual ou superior a 10. No estudo ASCENT-04, a mediana de sobrevida livre de progressão foi de 11,2 meses, contra 7,8 meses com quimioterapia associada ao pembrolizumabe. Os dados de sobrevida global ainda eram imaturos na análise apresentada pela agência.
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Segurança, acesso e continuidade do cuidado
Esses avanços exigem seleção cuidadosa e acompanhamento. A FDA destaca riscos de doença pulmonar intersticial e pneumonite com trastuzumabe deruxtecana e datopotamabe deruxtecana. Para sacituzumabe govitecana, há advertências importantes sobre diarreia e neutropenia, redução de células de defesa do sangue. Benefícios e toxicidades precisam ser avaliados em conjunto.
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O registro sanitário também precisa ser distinguido da oferta pelo sistema de saúde. A aprovação da Anvisa autoriza uma indicação no Brasil. A incorporação de tecnologias ao SUS envolve outro processo, com avaliação pela Conitec. Por isso, uma aprovação brasileira ou internacional, isoladamente, não comprova disponibilidade na rede pública.
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Apesar da atenção aos novos medicamentos, cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapias dirigidas continuam compondo o cuidado. A escolha depende do estágio, das características biológicas do tumor e das condições e preferências da paciente. Quando a doença é diagnosticada no início, o tratamento tem maior potencial curativo. Na doença metastática, busca prolongar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida.
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Prevenção e atenção durante todo o ano
A prevenção permanece relevante. O INCA orienta a prática de atividade física, a manutenção do peso adequado e evitar o consumo de álcool, e reconhece a amamentação como fator de proteção. Esses cuidados reduzem riscos, sem eliminar a possibilidade de adoecer. A OMS ressalta que a maioria das mulheres diagnosticadas não apresenta história familiar conhecida de câncer de mama.
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O cuidado precisa acompanhar a pessoa ao longo de todo esse percurso. A OMS recomenda acesso a equipes multidisciplinares, reabilitação, apoio à saúde mental e cuidados paliativos quando necessários. O câncer de mama também ocorre em homens, que representam aproximadamente 0,5% a 1% dos casos e devem procurar avaliação diante de alterações suspeitas.
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Neste Outubro Rosa, a informação mais útil é aquela que ajuda a tomar decisões no momento certo. Reconhecer um sinal, concluir a investigação, obter um diagnóstico que caracterize o tumor e acessar o tratamento indicado são etapas inseparáveis de um cuidado que precisa continuar durante todo o ano.
Informações verificadas até 1º de outubro de 2026.
Referências e fontes consultadas
- ANS. ANS aprova mamografia digital sem restrição de idade.
- INCA. Brasil, estimativa dos casos novos para 2026.
- OMS. Breast cancer. Atualização de 3 de julho de 2026.
- INCA. Câncer de mama, versão para população.
- Cofen. Dia de Combate ao Câncer de Mama alerta sobre a prevenção e diagnóstico precoce.
- INCA. Detecção precoce.
- INCA. Ministério da Saúde padroniza informações para acesso ao exame de mamografia no SUS. 29 de setembro de 2025.
- INCA. Sinais e sintomas.
- Anvisa. Anvisa aprova novo medicamento para câncer de mama. 21 de setembro de 2026.
- Gommers J et al. Interval cancer, sensitivity, and specificity comparing AI-supported mammography screening with standard double reading without AI in the MASAI study. The Lancet. 2026;407:505-514. DOI 10.1016/S0140-6736(25)02464-X.
- Ministério da Saúde. Câncer de mama.
- NCI. Tests for Breast Cancer Biomarkers.
- NCI. BRCA Gene Changes, Cancer Risk and Genetic Testing Fact Sheet.
- Bidard FC et al. First-Line Camizestrant for Emerging ESR1-Mutated Advanced Breast Cancer. N Engl J Med. 2025;393:569-580. DOI 10.1056/NEJMoa2502929.
- Anvisa. Anvisa aprova novo medicamento oral para câncer de mama. 22 de junho de 2026.
- NCI. Trastuzumab Deruxtecan and Lovastatin for the Treatment of HER2 Positive Metastatic Breast Cancer.
- Anvisa. Anvisa aprova nova opção de tratamento para câncer de mama. 18 de maio de 2026.
- FDA. FDA approves two separate indications for fam-trastuzumab deruxtecan-nxki in HER2-positive early-stage breast cancer. 15 de maio de 2026.
- FDA. FDA approves datopotamab deruxtecan-dlnk for unresectable or metastatic triple-negative breast cancer. 22 de maio de 2026.
- FDA. FDA approves sacituzumab govitecan-hziy as monotherapy and in combination with pembrolizumab for first-line treatment of triple-negative breast cancer. 24 de junho de 2026.
- Conitec. Perguntas frequentes.