Controlar o colesterol LDL é uma medida central na prevenção cardiovascular. Ainda assim, um resultado dentro da meta não encerra a avaliação do risco. A lipoproteína(a), conhecida como Lp(a), pode acrescentar uma informação relevante sobre a predisposição hereditária à doença aterosclerótica. Em 2026, a nova diretriz do American College of Cardiology e da American Heart Association reforçou essa abordagem ao recomendar sua dosagem pelo menos uma vez na vida adulta.
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Neste 29 de setembro, Dia Mundial do Coração, o tema aproxima a conscientização sobre prevenção de uma questão concreta para a medicina laboratorial. Como identificar um componente do risco que pode permanecer desconhecido durante anos, inclusive em pessoas sem sintomas.
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Um componente hereditário que o perfil lipídico não mede
A Lp(a) é uma partícula semelhante à LDL, com uma característica estrutural própria. Sua apolipoproteína B está ligada à apolipoproteína(a). Essa composição confere propriedades que participam dos processos ateroscleróticos e inflamatórios. A associação com a calcificação da valva aórtica acrescenta outra dimensão à sua relevância cardiovascular.
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As concentrações são predominantemente determinadas pela genética. O consenso da European Atherosclerosis Society, publicado no European Heart Journal, reúne evidências epidemiológicas e genéticas que sustentam a relação entre Lp(a) elevada e doença cardiovascular aterosclerótica. O documento destaca que essa associação permanece mesmo quando o LDL está em concentrações muito baixas.
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Segundo a American Heart Association, aproximadamente uma em cada cinco pessoas no mundo apresenta Lp(a) elevada. A alteração geralmente não causa sintomas, e sua identificação depende de uma dosagem específica. O perfil lipídico convencional, composto por colesterol total, LDL, HDL e triglicérides, não inclui esse exame.
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Por que medir ao menos uma vez na vida adulta
Divulgada em 13 de março de 2026, a diretriz norte-americana incorpora a Lp(a) à avaliação de fatores que podem ampliar o risco cardiovascular estimado. Como suas concentrações tendem a permanecer relativamente estáveis, a dosagem ao menos uma vez na vida adulta permite reconhecer pessoas com valores elevados e orientar uma prevenção mais individualizada.
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A recomendação encontra correspondência no Brasil. Publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 orienta medir a Lp(a) uma vez na vida, quando disponível, para auxiliar na estratificação do risco e nas decisões terapêuticas.
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A história familiar ganha uma informação objetiva
A investigação merece atenção especial diante de antecedentes pessoais ou familiares de doença cardiovascular precoce, hipercolesterolemia familiar ou Lp(a) elevada. Segundo a American Heart Association, identificar uma concentração aumentada pode justificar a avaliação de familiares próximos, como pais, irmãos e filhos, em uma investigação em cascata.
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Método e unidade fazem diferença no laudo
Para os laboratórios, a Lp(a) apresenta um desafio analítico importante. A apolipoproteína(a) varia de tamanho entre indivíduos, e essa diversidade de isoformas pode interferir no desempenho dos ensaios.
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A diretriz brasileira recomenda preferencialmente métodos independentes da isoforma, com resultados em nmol/L, que expressam a concentração molar de partículas. Quando essa opção não está disponível, aceita a dosagem em mg/dL, expressa em massa. O documento desaconselha fórmulas de conversão entre essas unidades, porque elas não corrigem as diferenças entre os métodos.
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A unidade, por si só, também não descreve todas as características do ensaio. O consenso europeu recomenda métodos pouco sensíveis à variação das isoformas e rastreáveis a materiais de referência. Orienta ainda informar o nome do ensaio no laudo, facilitando a análise de resultados discrepantes ao longo do acompanhamento.
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Um valor elevado precisa de contexto clínico
A diretriz norte-americana de 2026 considera a Lp(a) a partir de 125 nmol/L, ou de 50 mg/dL em ensaios que utilizam essa unidade, um fator que agrava o risco cardiovascular. Esses limiares devem ser aplicados conforme o método e a unidade original do resultado, sem conversão automática.
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O risco não começa abruptamente em um único número. O consenso europeu descreve uma associação contínua entre concentração de Lp(a) e eventos cardiovasculares. Os pontos de corte ajudam na decisão clínica, mas precisam ser interpretados com os demais fatores de risco.
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O que o resultado de setembro acrescenta à discussão
A pesquisa terapêutica trouxe uma atualização relevante neste mês. Em 4 de setembro de 2026, a Novartis anunciou os resultados iniciais do Lp(a)HORIZON, estudo de fase 3 que avaliou pelacarsen em 8.323 pacientes com Lp(a) elevada e doença cardiovascular estabelecida. Segundo a empresa, o tratamento reduziu a concentração do marcador, mas não atingiu o desfecho primário de redução de eventos cardiovasculares em comparação com placebo.
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O desfecho reunia morte cardiovascular, infarto não fatal, acidente vascular cerebral não fatal e revascularização coronária urgente com hospitalização. Os participantes recebiam tratamento conforme as diretrizes, incluindo terapias para controle dos lipídios e da pressão arterial. O anúncio apresentou resultados iniciais, com previsão de divulgação dos dados completos em congresso médico.
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Em posicionamento publicado em 14 de setembro, a National Lipid Association esclareceu que a Lp(a) permanece um fator de risco independente e que sua dosagem deve continuar. A entidade destacou que a avaliação dos dados completos poderá trazer informações adicionais sobre o efeito do tratamento e lembrou que outros estudos investigam estratégias dirigidas à Lp(a).
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O resultado reforça a necessidade de distinguir a redução de um marcador laboratorial da demonstração de benefício clínico. Neste ensaio, diminuir a Lp(a) com pelacarsen não demonstrou o benefício esperado no desfecho principal.
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Prevenção orientada pelo conjunto dos fatores de risco
Mudanças de hábitos têm pouco efeito sobre a concentração de Lp(a), mas continuam relevantes para a saúde cardiovascular. A American Heart Association recomenda controlar colesterol, pressão arterial e diabetes, manter atividade física, adotar uma alimentação saudável e evitar o tabaco.
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A National Lipid Association reforçou essa orientação após o anúncio do Lp(a)HORIZON, defendendo o manejo intensivo dos fatores modificáveis e o alcance das metas de LDL e colesterol não HDL em pessoas com Lp(a) elevada.
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Um resultado aumentado não determina que a pessoa terá um infarto. Ele acrescenta uma informação à avaliação clínica e pode orientar a intensidade da prevenção. Para a medicina laboratorial, o cuidado envolve produzir uma medição confiável, informar adequadamente o método e permitir que o resultado seja interpretado dentro do risco cardiovascular de cada paciente.
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Referências
- American College of Cardiology. ACC/AHA Issue Updated Guideline for Managing Lipids, Cholesterol. 13 de março de 2026.
- World Heart Federation. World Heart Day 2026.
- American Heart Association. Lipoprotein(a).
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. DOI 10.36660/abc.20250640.
- European Atherosclerosis Society. Lipoprotein(a) in atherosclerotic cardiovascular disease and aortic stenosis. European Heart Journal. 2022. DOI 10.1093/eurheartj/ehac361.
- Novartis. Resultados iniciais do estudo Lp(a)HORIZON. 4 de setembro de 2026.
- National Lipid Association. Top Line Results from the Phase 3 Lp(a)HORIZON Trial. 14 de setembro de 2026.