Alterações epigenéticas detectadas no sangue podem ajudar a reconhecer pessoas com maior risco de desenvolver câncer de mama ou próstata anos antes do diagnóstico clínico. Uma pesquisa publicada na Cell Genomics investigou amostras coletadas antes da identificação dessas doenças e encontrou assinaturas moleculares associadas ao seu aparecimento posterior.
O estudo, publicado em 21 de setembro de 2026, reuniu pesquisadores do Ontario Institute for Cancer Research, da Universidade de Toronto e da Universidade de Oxford. Os resultados ampliam as possibilidades de investigação da biópsia líquida e da estratificação de risco oncológico, com achados mais consistentes para o câncer de próstata.
O ponto central
A pesquisa identificou assinaturas associadas ao risco futuro de câncer até oito anos antes do diagnóstico. A abordagem ainda depende de validação clínica para orientar seu uso no rastreamento e no acompanhamento de pessoas assintomáticas.
Amostras anteriores ao diagnóstico revelam uma janela de investigação
Os pesquisadores utilizaram material armazenado do Ontario Health Study, uma coorte populacional canadense que acompanha a saúde dos participantes ao longo do tempo. Segundo a Universidade de Oxford, a análise envolveu 491 participantes sem diagnóstico de câncer no momento da coleta. Parte desenvolveu câncer de mama ou próstata posteriormente, enquanto outros permaneceram sem a doença durante o acompanhamento.
A combinação de amostras preservadas em biobanco com informações clínicas permitiu comparar os perfis moleculares anteriores ao diagnóstico com os desfechos registrados nos anos seguintes. Esse desenho ofereceu aos cientistas a possibilidade de investigar alterações que antecederam a identificação clínica do câncer.
Dois intervalos, significados diferentes
Até nove anos. É a antecedência de coleta de algumas amostras incluídas no conjunto estudado.
Até oito anos. É o intervalo destacado pelos pesquisadores para a identificação de assinaturas associadas ao risco antes do diagnóstico clínico.
A informação está nos padrões de metilação
A abordagem examinou a metilação do DNA livre circulante, ou cfDNA, presente no plasma. Essas modificações químicas participam da regulação da atividade gênica e podem fornecer informações sobre processos biológicos associados ao desenvolvimento do câncer.
O trabalho integra uma linha de pesquisa baseada em imunoprecipitação de DNA livre circulante metilado seguida de sequenciamento, técnica conhecida como cfMeDIP-seq.
As regiões com diferenças de metilação estavam concentradas em elementos regulatórios e repetitivos do genoma. Os padrões encontrados refletiam características associadas a tecidos tumorais e a células imunes, indicando que a informação obtida no plasma pode abranger diferentes componentes biológicos relacionados à doença.
Próstata apresenta o sinal preditivo mais consistente
No câncer de próstata, os resultados mais robustos envolveram regiões regulatórias chamadas silencers, que participam da repressão da expressão gênica. Modelos de regressão logística identificaram um grupo classificado como de alto risco para o desenvolvimento posterior da doença.
3,55
Hazard ratio para o desenvolvimento de câncer de próstata no grupo classificado como de alto risco.
O indicador expressa uma associação relativa ao longo do acompanhamento. Seu valor não corresponde à probabilidade individual de receber um diagnóstico.
Segundo a divulgação da Universidade de Oxford, as assinaturas permitiram distinguir grupos de risco entre cinco e oito anos antes do diagnóstico de câncer de próstata.
No câncer de mama, o desempenho foi mais limitado
Para o câncer de mama, os pesquisadores observaram sinais em regiões chamadas enhancers, envolvidas na ativação da expressão gênica. A capacidade de prever casos futuros foi mais modesta, embora essas alterações distinguissem com maior intensidade cânceres de mama já estabelecidos em estágio avançado.
A Universidade de Toronto destaca uma possível aplicação como ferramenta complementar de avaliação de risco. O desempenho observado, entretanto, foi considerado insuficiente para sustentar o rastreamento populacional do câncer de mama com essa abordagem.
A diferença entre os resultados de mama e próstata precisa ser preservada na interpretação. O desempenho encontrado para um tipo de câncer não pode ser automaticamente atribuído ao outro.
Da associação molecular ao benefício clínico
Os pesquisadores planejam um ensaio clínico prospectivo para validar os achados em outros contextos. Também investigam tecnologias que possam melhorar a precisão, reduzir o tempo de análise e tornar o procedimento mais acessível.
Para a medicina laboratorial, o estudo reforça o interesse pelos biomarcadores epigenéticos na avaliação de risco oncológico. Sua aplicação assistencial exige demonstrar como os resultados devem orientar condutas e quais benefícios oferecem aos pacientes.
Ao discutir testes sanguíneos para detecção de múltiplos cânceres, o National Cancer Institute, dos Estados Unidos, ressalta a necessidade de estudos prospectivos que esclareçam o desempenho em pessoas assintomáticas, a investigação após um resultado positivo e os riscos de sobrediagnóstico e tratamento desnecessário.
Essas questões definem o próximo passo da pesquisa. Reconhecer uma assinatura molecular anos antes do diagnóstico abre uma oportunidade de investigação. Estabelecer quando agir e demonstrar que essa intervenção melhora os desfechos dos pacientes são etapas essenciais para sua incorporação ao cuidado.