Uma segunda rodada de rastreamento molecular no pré-natal identificou 46 gestantes com clamídia, gonorreia ou tricomoníase entre as 499 que retornaram para a coleta. Vinte e uma delas haviam testado negativo na avaliação inicial. No mesmo ensaio clínico, realizado na África do Sul, o grupo com duas rodadas de testagem e tratamento teve menos partos prematuros que o grupo que recebeu o atendimento habitual. A diferença apareceu em um desfecho secundário. O resultado principal, que combinou prematuridade e baixo peso ao nascer, permaneceu inconclusivo.
Publicado na revista Clinical Infectious Diseases, o ensaio randomizado Philani Ndiphile incluiu 2.247 gestantes adultas, recrutadas antes da 27ª semana em quatro unidades públicas de saúde. O estudo comparou três estratégias para investigar e tratar infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) durante a gestação. O momento da coleta e a forma de identificar as infecções foram as principais diferenças entre elas.
Três estratégias de rastreamento e cuidado
- Uma rodada de rastreamento. As participantes fizeram a testagem na entrada do estudo. Aquelas com resultado positivo receberam tratamento e foram orientadas a retornar para o teste de cura.
- Duas rodadas de rastreamento. A equipe testou as gestantes na entrada do estudo e programou uma segunda coleta entre a 30ª e a 34ª semana. As infecções detectadas em cada rodada foram tratadas.
- Atendimento habitual. A conduta seguiu o manejo sindrômico, com avaliação e tratamento orientados por sinais e sintomas.
Nos grupos de rastreamento, a equipe usou testes de amplificação de ácidos nucleicos no ponto de atendimento para detectar Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae e Trichomonas vaginalis. As gestantes com resultado positivo receberam tratamento na mesma visita ou foram chamadas de volta em até uma semana.
A maioria das infecções detectadas era assintomática
Na avaliação inicial, cerca de 27% das participantes tinham pelo menos uma das três infecções. Entre as gestantes com confirmação laboratorial, aproximadamente 80% estavam assintomáticas. Essa proporção ajuda a explicar por que, na população estudada, uma estratégia guiada por manifestações clínicas deixaria parte expressiva das infecções sem identificação.
No terceiro trimestre, a positividade entre as gestantes que retornaram para a segunda coleta foi de 9,2%. Houve resultados positivos entre participantes que já haviam testado positivo e entre aquelas cujo primeiro exame foi negativo. A segunda amostra, portanto, captou infecções que uma única avaliação, feita no início do acompanhamento, deixaria de identificar naquele momento da gestação.
O que mudou na frequência de partos prematuros
Na análise de 1.910 nascidos vivos, a frequência de parto antes de 37 semanas foi de 14,5% no grupo com duas rodadas de rastreamento, de 18,9% no grupo com uma rodada e de 18,8% no atendimento habitual.
4,3 pontos percentuais
Foi a diferença na frequência de prematuridade entre o grupo com duas rodadas de rastreamento e o atendimento habitual. O risco relativo foi de 0,77, com intervalo de confiança de 95% de 0,60 a 0,99.
O desfecho principal considerou a ocorrência de parto prematuro, baixo peso ao nascer ou ambos. Pelo menos um desses eventos ocorreu em 20,6% dos casos no grupo com duas rodadas, em 22,9% no grupo com uma rodada e em 23,2% no atendimento habitual. As diferenças entre as estratégias de rastreamento e o atendimento habitual não atingiram significância estatística. Quando analisado separadamente, o baixo peso ao nascer, definido como menos de 2.500 gramas, também apresentou frequências semelhantes entre os grupos.
A prematuridade isolada era um desfecho secundário. A diferença observada merece investigação em outras populações, especialmente porque as quatro unidades participantes estavam na mesma região e atendiam uma população com alta frequência das infecções estudadas.
Onde a evidência encontra a rotina do pré-natal
No Brasil, o protocolo do Ministério da Saúde para prevenção da transmissão vertical prevê a testagem para clamídia e gonorreia na primeira consulta de pré-natal de gestantes de até 30 anos, quando os testes estão disponíveis. Em diretriz publicada em 2025, a Organização Mundial da Saúde sugere rastrear essas infecções em gestantes assintomáticas em contextos de alta prevalência, desde que o serviço tenha capacidade diagnóstica e ofereça acesso ao tratamento. A recomendação é condicional e se baseia em evidências de baixa certeza.
No ensaio sul-africano, 68% das participantes do grupo com duas rodadas retornaram para a coleta no terceiro trimestre. Esse dado põe em perspectiva o papel do laboratório e da equipe de pré-natal. Para que a segunda testagem se traduza em cuidado, é preciso realizar a coleta na janela prevista, liberar o resultado a tempo e viabilizar o tratamento. O estudo mostrou que essa janela permite identificar infecções em uma população de alta prevalência. O benefício sobre a prematuridade ainda precisa ser confirmado antes de embasar mudanças amplas nos protocolos.