Por que algumas pessoas não mudam de opinião nem perante provas? Estudo mapeia as regiões do cérebro responsáveis pela rigidez cognitiva | Newslab

Por que algumas pessoas não mudam de opinião nem perante provas? Estudo mapeia as regiões do cérebro responsáveis pela rigidez cognitiva

Estudo publicado na International Journal of Health Science (ISSN 2764-0159), da Atena Editora, assinado por investigadores do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH)

Discutir com alguém que se recusa a mudar de opinião, mesmo perante factos claros, é uma experiência comum, em casa, no trabalho ou nas redes sociais. Um estudo do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), com investigadores em Portugal e no Brasil, publicado na International Journal of Health Science (ISSN 2764-0159), da Atena Editora, uma das maiores editoras académicas do Brasil, mapeia as regiões cerebrais e os neurotransmissores que explicam por que isto acontece, e em que situações se torna um sinal de alerta clínico.

Segundo o estudo, a chamada “rigidez cognitiva” depende de um processo em cadeia que envolve o córtex cingulado anterior, responsável por detetar erros e inconsistências, o córtex pré-frontal dorsolateral, que faz a análise racional da nova informação, a ínsula anterior e a amígdala, que avaliam o impacto emocional de mudar de ideias, e o hipocampo, que atualiza a memória com a nova informação aceite.

Para o autor principal do estudo, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Pós-Doutor em Neurociências e Especialista em Genómica, qualquer falha numa destas etapas pode bloquear o processo todo. “Se o córtex cingulado anterior não funciona bem, a pessoa nem chega a perceber que existe um erro nas suas crenças. Se for o córtex pré-frontal dorsolateral, a pessoa não consegue avaliar logicamente a nova informação. E se for a amígdala, a pessoa pode até perceber racionalmente que está errada, mas reage emocionalmente como se estivesse a ser atacada”, explica.

O estudo associa este tipo de rigidez a várias condições, entre elas o transtorno paranoide, o transtorno obsessivo-compulsivo, o transtorno do espectro do autismo, a depressão major, demências como a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson, a esquizofrenia, e perturbações de personalidade narcísica e histriónica. Os autores sublinham, no entanto, que ter um QI elevado não protege automaticamente contra este fenómeno.

“Há um dado que acho particularmente importante de comunicar neste momento de tanta polarização: pessoas muito inteligentes podem, na verdade, ser mais eficazes a defender crenças erradas, porque conseguem justificá-las de forma mais elaborada. A isto chama-se ‘enviesamento motivado’. Inteligência facilita a flexibilidade cognitiva, mas quando uma crença está ligada à identidade da pessoa, mesmo alguém com alta capacidade analítica pode resistir à mudança”, afirma Fabiano de Abreu.

O estudo identifica também os neurotransmissores envolvidos neste processo, entre eles a dopamina, ligada à motivação e à flexibilidade cognitiva, o glutamato, ligado à aprendizagem e à atualização de crenças, a serotonina, ligada ao controlo emocional, e a acetilcolina, ligada à consolidação da memória. Segundo os autores, um desequilíbrio em qualquer um destes sistemas pode, por si só, ser suficiente para tornar uma pessoa mais resistente à mudança, mesmo perante provas claras.

O artigo foi assinado também por Isabella Hadassah Bat Yehudah Ibn Yahya Xavier Carvalho da Silva Florentino Teixeira, Especialista pela Universidade de Brasília (UnB); por Marco Brocolli Lima, Especialista em Neurociência e Genómica pelo CPAH; por Mirian Coden, Doutora em Educação, do Nortus Scientific Center; e por Gilberto Silva de Souza, Especialista em Desenvolvimento de Gestão e Marketing, com pós-graduação em Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização, coautor do livro Organizações Autoorganizáveis.

O CPAH é um centro de pesquisa sem fins lucrativos, com investigadores em Portugal e no Brasil, criado para dar estrutura a investigadores afastados do meio académico e a autodidatas.