Uma revisão científica conduzida por pesquisadores do curso de enfermagem do Centro Universitário das Faculdades Integradas de Ourinhos, no interior paulista, mapeou o papel decisivo da equipe de enfermagem em todas as etapas desse tratamento, da coleta de células até o acompanhamento a longo prazo.
Uma engenharia celular contra o câncer
A terapia CAR T consiste em coletar linfócitos T do próprio paciente e modificar geneticamente essas células em laboratório, para que passem a reconhecer e atacar células tumorais. Depois de expandidas, elas são reinfundidas no paciente, iniciando uma resposta imunológica direcionada contra o câncer.
Segundo o estudo, assinado por Maria Clara Martins Hernandes, Laurielle de Souza Andrade, Catiane Maria Nogueira Berbel, Juliano Rodrigues Coimbra e Douglas Fernandes da Silva, os receptores quiméricos de antígeno, conhecidos pela sigla CAR, funcionam como uma espécie de mira genética: eles direcionam os linfócitos para reconhecer proteínas específicas na superfície das células tumorais, de forma independente do complexo principal de histocompatibilidade, o que representa um avanço em relação aos mecanismos naturais de defesa do organismo.
- Coleta do sangue do paciente por meio de leucaférese
- Modificação genética dos linfócitos T em laboratório
- Expansão celular por uma ou duas semanas
- Preparação do organismo por meio da linfodepleção
- Reinfusão das células modificadas no paciente
Resultados que chamam atenção da comunidade científica
Os pesquisadores reuniram uma série de estudos internacionais com resultados expressivos no tratamento de leucemias e linfomas. Em pacientes com leucemia linfoblástica aguda, por exemplo, foram observadas taxas de remissão completa que variam de quarenta e dois a cem por cento, segundo dados citados no levantamento. Outro estudo apontou remissão completa em até noventa por cento dos casos após uma única infusão da terapia.
Apesar dos resultados favoráveis em cânceres do sangue, a aplicação da terapia em tumores sólidos ainda enfrenta barreiras relacionadas à dificuldade das células modificadas em localizar e se manter ativas dentro do tumor, além do risco de efeitos tóxicos quando o alvo terapêutico também está presente em tecidos saudáveis.
O papel decisivo da enfermagem em cada etapa
De acordo com a pesquisa, a atuação da enfermagem começa antes mesmo da infusão, na avaliação clínica do paciente, na orientação sobre riscos e benefícios do tratamento e na garantia de acesso venoso adequado para a coleta de células. Durante a infusão, cabe à equipe monitorar continuamente os sinais vitais e identificar precocemente qualquer reação adversa.
Os principais desafios clínicos apontados pelo estudo são a síndrome de liberação de citocinas e a neurotoxicidade associada às células efetoras imunológicas, conhecida pela sigla em inglês ICANS. Ambas resultam da ativação intensa do sistema imunológico e podem evoluir de sintomas leves, como febre, a quadros graves, com queda de pressão, confusão mental e convulsões.
- Febre e fadiga nos quadros mais leves de liberação de citocinas
- Queda de pressão e baixa oxigenação em casos graves
- Alterações cognitivas e de linguagem na neurotoxicidade
- Convulsões e redução do nível de consciência em casos extremos
O reconhecimento precoce desses sinais pela equipe de enfermagem, aponta o estudo, é determinante para reduzir o risco de complicações graves e garantir a segurança do paciente ao longo de todo o tratamento.
Custo elevado e futuro da terapia
Entre os desafios apontados pelos autores está o custo elevado da terapia CAR T, fator que afeta o acesso tanto na rede pública quanto na privada e que já gerou disputas judiciais no Brasil pela cobertura do tratamento. O estudo também cita avanços promissores no horizonte, como o uso da tecnologia CRISPR para edição genética mais precisa e o desenvolvimento de terapias alogênicas, produzidas a partir de doadores e prontas para uso imediato.
De acordo com uma investigação partilhada pela revista Qualis A Open Minds, propriedade do CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena, o estudo reforça que a qualificação contínua da enfermagem é condição essencial para o avanço seguro dessa tecnologia no país.