Recusa familiar ainda é o maior obstáculo à doação de órgãos, mostra estudo em hospital mineiro | Newslab

Recusa familiar ainda é o maior obstáculo à doação de órgãos, mostra estudo em hospital mineiro

Levantamento com 38 casos de morte encefálica revela perfil dos doadores e aponta caminhos para aumentar transplantes no Brasil

Enquanto mais de 43 mil pessoas aguardavam por um transplante de órgão no Brasil em julho de 2024, um estudo realizado na Santa Casa de Misericórdia de Passos, em Minas Gerais, buscou entender por que nem todo paciente elegível chega a doar.

De acordo com uma investigação partilhada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do CPAH, sob gestão técnica da Editora Atena), a pesquisa analisou prontuários de 38 pacientes com diagnóstico confirmado de morte encefálica entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025.

Quem são os potenciais doadores

O estudo, conduzido por Mauricio Daniel dos Santos e sua equipe na Santa Casa de Passos, mostrou que os pacientes tinham entre 2 e 75 anos, com metade deles do sexo masculino e a maioria solteira ou casada. As principais causas de morte encefálica foram:

  • Traumatismo cranioencefálico, presente em 31,5% dos casos
  • Acidente vascular cerebral, responsável por 26,3% dos casos
  • Tumores, encefalopatia pós parada cardíaca e hemorragia subaracnóidea espontânea, em menor proporção

A maior parte dos protocolos de morte encefálica foi conduzida em Unidade de Terapia Intensiva ou em Unidade Coronariana, ambientes onde esses pacientes já recebiam cuidados intensivos.

Exame mais usado tem alta confiabilidade

Entre os exames complementares para confirmar a morte encefálica, o eletroencefalograma foi o mais utilizado, presente em 94,7% dos casos, por sua confiabilidade já reconhecida pela literatura médica.

Família decide o destino da doação

Depois da confirmação diagnóstica, 33 pacientes foram considerados elegíveis para doação. Ao final do processo, 25 famílias autorizaram a retirada de órgãos e tecidos. A recusa familiar respondeu por 15,7% dos casos de não doação, um índice bem abaixo da média nacional, estimada pelo Registro Brasileiro de Transplantes em 42%, e também inferior à média do estado de Minas Gerais, de 38%.

Segundo os autores, outros fatores impediram a doação em número menor de casos, como contraindicações clínicas relacionadas a dengue e HIV, além de idade avançada associada a sepse.

Rim e córnea lideram lista de órgãos doados

Ao todo, 100 órgãos foram disponibilizados pelos 25 doadores efetivos. O rim, órgão pareado que pode beneficiar mais de um paciente, liderou as doações, seguido pela córnea, pelo fígado e pelo coração.

Para os pesquisadores, o resultado reforça a importância de investir em comunicação clara com as famílias no momento da abordagem sobre doação, já que estudos mostram que parentes bem informados sobre o conceito de morte encefálica tendem a autorizar mais a doação. O reconhecimento precoce do potencial doador, a agilidade na aplicação do protocolo e a manutenção clínica adequada desses pacientes seguem sendo, segundo o estudo, fatores decisivos para o sucesso do processo de doação.