Uma análise abrangente da produção científica brasileira mostra que as hepatites virais estão longe de formar um quadro epidemiológico homogêneo. As infecções pelos vírus A, B, C, D e E apresentam formas de transmissão, distribuição territorial, marcadores laboratoriais e populações mais afetadas bastante diferentes. Compreender essas particularidades será decisivo para qualificar a testagem, reduzir diagnósticos tardios e aproximar o país da meta de eliminação até 2030.
O estudo, conduzido por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, Proadi-SUS, reuniu 200 trabalhos publicados entre 2013 e 2024. Em conjunto, as pesquisas analisaram dados de mais de 14,5 milhões de pessoas. Os resultados foram publicados em julho de 2026 na revista científica PLOS ONE.
A revisão oferece um mapa da evidência produzida no país. Seu principal achado, porém, não está em uma estimativa nacional isolada. Está na amplitude das diferenças encontradas entre regiões, grupos populacionais e desenhos de pesquisa.
Um panorama amplo, porém desigual
A hepatite B foi o tema mais frequente, presente em 115 publicações. A hepatite C apareceu em 91 trabalhos, seguida pelas hepatites E, A e D, com 30, 25 e 16 estudos, respectivamente.
Essa distribuição acompanha, em parte, a carga clínica das infecções crônicas pelos vírus B e C. Ambas podem evoluir silenciosamente durante anos e causar fibrose hepática, cirrose e carcinoma hepatocelular. A concentração da pesquisa nesses dois agentes também reflete a maior disponibilidade de métodos diagnósticos e de programas assistenciais estruturados.
A produção científica, contudo, não correspondeu necessariamente aos territórios de maior carga epidemiológica. A maior parte dos trabalhos teve alcance regional, com predomínio de estudos realizados no Sudeste. Apenas 13 apresentaram cobertura nacional. Para algumas hepatites, regiões historicamente afetadas aparecem sub-representadas na literatura.
Segundo a revisão publicada na PLOS ONE, 181 dos 200 estudos incluídos eram transversais. Embora esse desenho seja útil para estimar prevalências em determinado momento, ele não permite reconstruir adequadamente cadeias de transmissão ou estabelecer relações causais. Amostras de conveniência, recrutadas em serviços especializados, também podem produzir estimativas superiores às observadas na população geral.
Por essa razão, os percentuais apresentados no trabalho não devem ser interpretados como uma prevalência única para o Brasil.
O significado dos marcadores importa
Na população geral, a soroprevalência de anticorpos contra o vírus da hepatite A variou de 33,3% a 67,8%. Entre populações em situação de vulnerabilidade, os maiores percentuais apareceram em pessoas privadas de liberdade, imigrantes e pessoas transgênero.
Esses números exigem leitura laboratorial cuidadosa. A presença de anti-HAV IgG ou de anticorpos totais indica contato prévio com o vírus ou resposta à vacinação. Ela não demonstra, por si, uma infecção aguda. Para essa finalidade, o marcador de referência é o anti-HAV IgM, interpretado em conjunto com o quadro clínico e epidemiológico.
Na hepatite B, a prevalência de HBsAg variou de zero a 7,5% na população geral, com o maior valor registrado em área endêmica da Amazônia. O HBsAg está associado à presença de infecção pelo HBV, enquanto outros marcadores, como anti-HBc total, anti-HBc IgM, anti-HBs, HBeAg e anti-HBe, ajudam a diferenciar exposição anterior, fase aguda, imunidade e perfil de replicação. A detecção do HBV-DNA acrescenta informação sobre atividade viral e participa da avaliação clínica e terapêutica.
Para a hepatite C, a soroprevalência de anti-HCV oscilou entre 0,04% e 2,2% na população geral. Entre pessoas que usam drogas, algumas amostras apresentaram percentuais de até 36,9%. Um resultado reagente para anti-HCV demonstra exposição ao vírus, mas não confirma viremia atual. A confirmação da infecção ativa depende da detecção do HCV-RNA.
Essa distinção é central para a assistência. Parte das pessoas expostas elimina espontaneamente o vírus, mantendo os anticorpos detectáveis. Sem a etapa molecular, há risco de classificar como infectado um indivíduo sem viremia ou de interromper a jornada diagnóstica antes da definição clínica.
Hepatite A muda de perfil no país
O novo mapa científico ganha relevância diante da alteração recente no padrão da hepatite A. O Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2026, do Ministério da Saúde, registrou 4.639 casos em 2025, crescimento de 26,1% em comparação com os 3.680 casos notificados em 2024.
A incidência nacional passou de 0,4 caso por 100 mil habitantes em 2022 para 2,2 em 2025. A maior concentração recente ocorreu nas regiões Sudeste e Sul, com predominância masculina e maior incidência entre adultos de 25 a 34 anos.
O cenário atual difere do perfil histórico, no qual grande parte dos registros ocorria em crianças e em áreas com problemas de saneamento. A transmissão fecal-oral por água ou alimentos contaminados continua relevante. Práticas sexuais que favorecem contato oral com material fecal também passaram a integrar a investigação epidemiológica, especialmente em surtos entre adultos.
A resposta exige comunicação precisa. Associar a infecção a uma identidade específica pode reforçar estigmas e afastar pessoas da vacinação e do diagnóstico. A vigilância deve se orientar pelas formas de exposição, pelos territórios e pela existência de grupos suscetíveis.
Hepatite D permanece concentrada e pouco investigada
A hepatite D foi a menos estudada entre as formas crônicas analisadas. As estimativas encontradas variaram de zero a 23,9%, com forte concentração na Amazônia. O dado não representa a população brasileira, pois grande parte das pesquisas foi realizada em comunidades ou grupos selecionados de áreas endêmicas.
O vírus D depende da presença do HBV para se replicar. A infecção pode ocorrer simultaneamente à hepatite B ou atingir alguém que já vive com HBV crônico. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a coinfecção está associada a progressão mais rápida para cirrose, carcinoma hepatocelular e morte relacionada à doença hepática.
A vacinação contra a hepatite B previne a infecção pelo HDV em pessoas que ainda não adquiriram o HBV. Para quem apresenta HBsAg reagente, sobretudo em regiões endêmicas ou diante de fatores epidemiológicos compatíveis, a investigação deve considerar a pesquisa de anticorpos anti-HDV e a detecção do HDV-RNA para demonstrar infecção ativa.
A baixa disponibilidade de testes moleculares e a dificuldade de acesso a comunidades ribeirinhas e indígenas ajudam a explicar por que a hepatite D permanece subdiagnosticada. Nesse contexto, a ausência de registros pode traduzir baixa capacidade de detecção, e não ausência de circulação viral.
Hepatite E amplia a perspectiva de Saúde Única
Os estudos sobre hepatite E apresentaram a maior variação de soroprevalência na população geral, de 0,9% a 59,4%, com o valor mais alto registrado no Sul. A heterogeneidade dos ensaios, das populações e dos critérios laboratoriais impede a comparação direta entre todas as estimativas.
No Brasil, as evidências apontam para a circulação de genótipos com reservatórios animais, especialmente suínos. A investigação do HEV, portanto, aproxima vigilância humana, produção de alimentos, sanidade animal e monitoramento ambiental.
A infecção costuma ser aguda e autolimitada, mas não deve ser tratada como invariavelmente benigna. A OMS alerta para o risco de insuficiência hepática aguda em gestantes e para a possibilidade rara de infecção crônica em pessoas imunossuprimidas, sobretudo receptores de transplantes.
A pesquisa de anti-HEV IgM auxilia o diagnóstico da infecção recente. A detecção do HEV-RNA pode ser necessária em situações incomuns, em pacientes imunossuprimidos ou quando a confirmação exige maior especificidade.
O laboratório no centro da estratégia de eliminação
Entre 2000 e 2025, o Brasil notificou 863.097 casos confirmados de hepatites virais no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, Sinan. A hepatite C respondeu por 41,9% dos registros, a hepatite B por 36,5%, a hepatite A por 20,8%, a hepatite D por 0,6% e a hepatite E por 0,2%.
No mesmo período, o Sistema de Informações sobre Mortalidade registrou 98.941 óbitos nos quais as hepatites A, B, C ou D figuraram como causa básica ou associada. A hepatite C concentrou 75,1% dessas mortes, segundo o boletim de 2026.
Os dados reforçam que disponibilizar um teste de triagem é apenas o começo. O impacto clínico depende da conclusão do algoritmo diagnóstico, da comunicação ágil do resultado, da notificação correta e da vinculação do paciente ao cuidado.
Para a hepatite C, a triagem por anti-HCV precisa ser seguida pela pesquisa de HCV-RNA quando o resultado for reagente. Para a hepatite B, a interpretação conjunta dos marcadores sorológicos e moleculares evita classificações incompletas. Nos casos de hepatite D e E, ampliar a capacidade diagnóstica em territórios prioritários pode revelar uma carga atualmente invisível aos sistemas de vigilância.
A automação de fluxos reflexos, nos quais a amostra reagente segue para a etapa confirmatória sem nova coleta sempre que tecnicamente possível, pode reduzir perdas entre triagem e confirmação. A integração dos sistemas laboratoriais com a vigilância também favorece a qualidade dos registros e a identificação precoce de surtos.
Uma meta que depende de enxergar quem permanece fora dos dados
A hepatite C dispõe de antivirais de ação direta capazes de curar mais de 95% das pessoas tratadas, conforme a OMS. A hepatite B conta com vacina eficaz e terapias capazes de suprimir a replicação viral e reduzir o risco de complicações. Ainda assim, diagnóstico tardio, desigualdade territorial e dificuldade de acesso mantêm pessoas infectadas fora do cuidado.
O mérito da revisão brasileira está em organizar o conhecimento disponível e mostrar seus vazios. Os resultados descrevem um país no qual o agente viral, o território, a vulnerabilidade social e a infraestrutura diagnóstica determinam cenários bastante distintos.
Cumprir a meta de 2030 dependerá de estratégias sensíveis a essas diferenças. Testagem orientada pelo risco, vacinação, confirmação molecular, vigilância qualificada e vinculação rápida ao tratamento precisam funcionar como partes de uma mesma linha de cuidado. Quando uma delas falha, a infecção permanece silenciosa e a oportunidade de prevenção se perde.