A queda de uma curva epidemiológica costuma ser interpretada como sinal de progresso. No caso da leishmaniose visceral, essa leitura exige cautela. O Brasil registrou redução expressiva no número de casos novos nos últimos anos, porém a doença permanece distribuída pelas cinco regiões do país, alcança áreas urbanas e conserva elevado potencial de gravidade quando o diagnóstico e o tratamento não ocorrem em tempo oportuno.
Entre 2015 e 2024, foram registrados 24.454 casos de leishmaniose visceral no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, o Sinan. Aproximadamente metade ocorreu na Região Nordeste. Em 2024, o número de casos novos foi 69,7% menor que o observado em 2017, ano com maior registro no período. O coeficiente médio de incidência na década analisada foi de 1,22 caso por 100 mil habitantes, segundo a segunda edição do Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral, publicada pelo Ministério da Saúde em julho de 2026.
A redução da incidência, entretanto, convive com outro indicador preocupante. O mais recente Relatório Epidemiológico das Leishmanioses nas Américas, elaborado pela Organização Pan-Americana da Saúde, aponta que os casos de leishmaniose visceral e tegumentar continuaram em declínio na região em 2024. No mesmo período, houve aumento da letalidade da forma visceral e da proporção de pacientes coinfectados pelo vírus da imunodeficiência humana, o HIV.
O contraste ajuda a definir um dos principais desafios atuais: reduzir o número de pessoas infectadas não resolve, por si, as falhas que podem existir entre a suspeita clínica, a confirmação laboratorial, o encaminhamento e o início do tratamento.
Uma semana voltada à prevenção e ao conhecimento científico
A Semana Nacional de Controle e Combate à Leishmaniose é celebrada anualmente na semana que inclui o dia 10 de agosto. Instituída pela Lei nº 12.604/2012, a mobilização tem entre seus objetivos estimular ações educativas e preventivas, promover o debate sobre políticas públicas de vigilância e difundir avanços técnico-científicos relacionados ao enfrentamento da doença.
Em 2026, a data ocorre poucas semanas após a publicação da nova edição do manual nacional de vigilância. O documento atualiza conceitos, indicadores e estratégias relacionadas ao diagnóstico, à vigilância epidemiológica, ao controle do vetor, aos reservatórios e à organização das ações nos territórios.
A atualização é relevante porque a leishmaniose visceral deixou de ser uma zoonose associada predominantemente ao meio rural. A expansão urbana, iniciada de forma mais evidente na década de 1990, levou o agente etiológico e o vetor a cidades de diferentes portes. Em 2024, Fortaleza, Teresina, Belo Horizonte e São Luís estiveram entre os municípios brasileiros com maior registro de casos, ao lado de cidades das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Mudanças ambientais, urbanização desordenada, vulnerabilidade socioeconômica, migrações e alterações nas condições climáticas podem modificar a presença do vetor e a dinâmica de transmissão. A ocorrência da doença depende da interação entre o parasito, os flebotomíneos, os reservatórios animais e o ambiente.
Leishmaniose visceral e tegumentar exigem abordagens distintas
O termo leishmaniose reúne apresentações clínicas diferentes. A forma visceral é uma doença sistêmica causada, nas Américas, principalmente por Leishmania infantum. Febre prolongada, aumento do fígado e do baço, perda de peso, fraqueza e anemia estão entre suas manifestações mais características. Sem tratamento, a letalidade pode alcançar 95%, conforme o novo manual do Ministério da Saúde.
A leishmaniose tegumentar apresenta maior frequência e compromete a pele ou as mucosas. As lesões podem ser confundidas com outras doenças infecciosas e dermatológicas, entre elas hanseníase, sífilis e tuberculose. A confirmação laboratorial é, portanto, fundamental para estabelecer o diagnóstico diferencial e orientar a conduta.
Entre 2021 e 2024, o Brasil registrou 56.448 casos de leishmaniose tegumentar. Desse total, 50.621 foram classificados como casos novos, com média anual de 12.655 e coeficiente médio de detecção de 6,09 casos por 100 mil habitantes. As regiões Norte e Nordeste concentraram, respectivamente, 44,1% e 21,9% dos casos novos. A apresentação cutânea correspondeu a 94,2% dos registros, enquanto a forma mucosa representou 5,8%, segundo o Boletim Epidemiológico nº 17 de 2025.
Na forma tegumentar, os métodos parasitológicos confirmam a presença do parasito. A identificação da espécie circulante também produz informação epidemiológica relevante, pois diferentes espécies de Leishmania apresentam distribuição geográfica e comportamento clínico distintos.
O teste rápido e a descentralização do diagnóstico
No diagnóstico da leishmaniose visceral humana, a principal mudança recente está relacionada à ampliação do uso do teste imunocromatográfico na Atenção Primária à Saúde.
A Nota Técnica Conjunta nº 146/2024, do Ministério da Saúde, orienta a utilização do teste rápido em amostras de sangue total, plasma ou soro. O método detecta anticorpos contra antígenos de Leishmania, oferece resultado em poucos minutos e pode ser executado sem infraestrutura laboratorial complexa.
Em áreas com transmissão, o teste é indicado para pessoas que apresentem febre e esplenomegalia, condição caracterizada pelo aumento do baço. Em locais sem registro de transmissão, a indicação considera o mesmo quadro clínico após a exclusão dos diagnósticos diferenciais mais frequentes na região.
A descentralização pode reduzir o intervalo entre a suspeita e a confirmação, especialmente em localidades distantes dos laboratórios de referência. Seu impacto, contudo, depende da existência de profissionais capacitados, condições adequadas de armazenamento, registro dos procedimentos e fluxo definido para encaminhar rapidamente os casos reagentes.
O resultado positivo também deve ser interpretado no contexto clínico. Anticorpos podem permanecer detectáveis por longo período após o tratamento. Dessa forma, uma reação positiva em pessoa sem manifestações compatíveis não autoriza, isoladamente, o início da terapia.
Quando o resultado negativo não encerra a investigação
Os testes rápidos ampliam o acesso ao diagnóstico, mas apresentam limitações em grupos específicos.
Um estudo brasileiro publicado em 2025 na revista PLOS Neglected Tropical Diseases avaliou três testes imunocromatográficos em um painel de 300 amostras de pacientes com suspeita de leishmaniose visceral provenientes de diferentes regiões do Brasil. Os pesquisadores identificaram menor sensibilidade em crianças com menos de três anos e em pessoas com HIV, quando comparadas a pacientes acima dessa idade sem coinfecção.
Os resultados são coerentes com a orientação do Ministério da Saúde. Diante de suspeita clínica persistente e teste rápido negativo em crianças menores de três anos ou pacientes imunossuprimidos, a investigação deve prosseguir por outras estratégias. Entre as opções previstas estão a pesquisa parasitológica direta em aspirado de medula óssea e a reação em cadeia da polimerase, PCR, em amostras de medula óssea ou sangue periférico, de acordo com a estrutura disponível.
O exame parasitológico demonstra formas amastigotas do parasito e permanece como método de confirmação. A coleta de medula óssea é preferida em relação à punção esplênica por apresentar maior segurança, embora seja um procedimento invasivo e dependente de profissionais treinados.
A relação entre leishmaniose visceral e HIV também passou a integrar formalmente o fluxo diagnóstico. O Ministério da Saúde recomenda que todos os casos suspeitos recebam oferta de teste rápido para HIV. A medida é particularmente relevante porque a imunossupressão pode modificar a apresentação clínica, reduzir o desempenho dos testes baseados em anticorpos e aumentar a complexidade do acompanhamento.
A retirada da imunofluorescência da rotina dos Lacen
Outra mudança estabelecida pela Nota Técnica nº 146/2024 foi a descontinuidade da distribuição, aos Laboratórios Centrais de Saúde Pública, de kits para reação de imunofluorescência indireta, conhecida pela sigla RIFI.
A decisão considerou estudos brasileiros que demonstraram desempenho inferior da imunofluorescência em comparação com exame direto, PCR, ELISA e imunocromatografia. A orientação mais recente substitui referências anteriores que ainda apresentavam a RIFI entre os exames sorológicos oferecidos pela rede pública.
A mudança ilustra como a atualização das recomendações laboratoriais depende da revisão contínua das evidências. Também reforça a necessidade de consultar notas técnicas e manuais vigentes, especialmente quando páginas institucionais mais antigas permanecem disponíveis na internet.
O diagnóstico começa antes da amostra e continua depois do laudo
A vigilância da leishmaniose visceral começa na definição do caso suspeito. A notificação compulsória deve ser realizada antes da execução do teste rápido, e as informações precisam ser inseridas no Sinan em até sete dias após a suspeição.
Nos estabelecimentos assistenciais, os testes realizados devem ser registrados no e-SUS APS por meio do código correspondente da tabela de procedimentos do SUS. Em laboratórios de saúde pública, hospitais e unidades com acesso ao Gerenciador de Ambiente Laboratorial, o GAL permite registrar resultados e emitir laudos.
Esses dados ajudam a dimensionar o consumo de testes, avaliar a capacidade diagnóstica dos serviços, identificar áreas com maior concentração de casos e orientar a distribuição de insumos. Também permitem acompanhar indicadores como confirmação laboratorial, cura clínica, recidiva, letalidade geral e letalidade em grupos específicos.
A proporção de casos confirmados em laboratório funciona, assim, como medida indireta da capacidade operacional da rede. Uma baixa proporção pode indicar dificuldades relacionadas ao acesso aos exames, à coleta de amostras, ao transporte, à disponibilidade de insumos ou à capacitação das equipes.
Uma doença urbana, ambiental e social
Na leishmaniose visceral, o cão atua como principal reservatório do parasito em áreas urbanas, mas não transmite diretamente a doença às pessoas. A infecção humana ocorre pela picada da fêmea do flebotomíneo infectado, popularmente chamado de mosquito-palha, birigui ou tatuquira.
Essa distinção é essencial para evitar informações imprecisas e respostas isoladas. O controle depende de vigilância de casos humanos e caninos, monitoramento entomológico, manejo ambiental, limpeza de quintais e abrigos de animais, destinação adequada de matéria orgânica e aplicação criteriosa das medidas recomendadas para cada situação epidemiológica.
A presença de casos em capitais e municípios de diferentes regiões confirma que a exposição não está restrita a ambientes rurais ou florestais. Áreas periféricas com acúmulo de matéria orgânica, umidade, presença do vetor e condições sociais desfavoráveis podem sustentar ciclos urbanos de transmissão.
A qualidade da resposta vai além da contagem de casos
Os dados recentes mostram uma redução importante da leishmaniose visceral no Brasil. O cenário, porém, não autoriza a diminuição da vigilância. A elevação regional da letalidade, o crescimento proporcional da coinfecção com HIV e as limitações diagnósticas em grupos vulneráveis demonstram que a gravidade da doença não pode ser avaliada apenas pelo número anual de notificações.
A qualidade da resposta deve considerar o tempo entre os primeiros sinais e a suspeita clínica, o acesso ao teste adequado, a capacidade de reconhecer resultados potencialmente falso-negativos, a confirmação por métodos complementares e o encaminhamento oportuno para tratamento.
Laboratórios clínicos, Lacen, serviços de Atenção Primária, hospitais e equipes de vigilância ocupam posições interdependentes. A redução da letalidade depende da capacidade dessa rede de transformar uma suspeita em diagnóstico, informação epidemiológica e cuidado efetivo antes que a doença evolua para formas graves.