Alzheimer em 2026: diagnóstico, exames e tratamentos | Newslab

Alzheimer em 2026: o sangue muda a rota do diagnóstico

Biomarcadores plasmáticos chegam à prática clínica, enquanto terapias antiamiloide ampliam as opções para pacientes selecionados e impõem novas exigências de segurança

Em 21 de setembro, data que reúne o Dia Mundial da Doença de Alzheimer e o Dia Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer, instituído pela Lei nº 11.736/2008, o debate científico ocorre em um cenário substancialmente diferente daquele observado há poucos anos. Ensaios sanguíneos capazes de estimar a presença de patologia amiloide começam a ingressar em fluxos diagnósticos regulados, enquanto anticorpos monoclonais dirigidos à beta-amiloide chegam ao Brasil para um grupo restrito de pacientes.

Os avanços são relevantes, mas exigem precisão. O exame de sangue não constitui diagnóstico isolado de demência. Os novos medicamentos tampouco interrompem ou revertem a doença. O que se consolida em 2026 é uma abordagem mais biológica e estratificada do Alzheimer, com participação crescente dos laboratórios clínicos e maior necessidade de integração entre neurologia, geriatria, genética, medicina laboratorial e diagnóstico por imagem.

O avanço central de 2026 está na precisão diagnóstica. A doença começa a ser investigada por uma combinação de manifestações clínicas, biomarcadores, genética e imagem, com decisões terapêuticas condicionadas ao estágio da doença e ao perfil individual de risco.

A dimensão do problema permanece expressiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 57 milhões de pessoas viviam com demência em 2021, com quase 10 milhões de novos casos estimados a cada ano. A doença de Alzheimer responde por cerca de 60% a 70% desses quadros.

Da avaliação clínica à confirmação biológica

Durante décadas, o diagnóstico do Alzheimer foi predominantemente clínico, fundamentado na história do paciente, no relato de familiares, na avaliação cognitiva, no comprometimento funcional e na exclusão de causas potencialmente tratáveis. Exames laboratoriais convencionais e neuroimagem estrutural continuam indispensáveis nesse processo, inclusive para investigar distúrbios metabólicos, deficiências nutricionais, alterações tireoidianas, efeitos de medicamentos e outras doenças neurológicas.

O que mudou foi a possibilidade de identificar, em vida, processos biológicos característicos da doença.

Os critérios revisados da Alzheimer’s Association, publicados em 2024 no periódico Alzheimer’s & Dementia, definem o Alzheimer como um processo biológico associado à deposição de beta-amiloide e à patologia tau. Entre os chamados biomarcadores centrais estão a tomografia por emissão de pósitrons para amiloide, marcadores no líquido cefalorraquidiano e ensaios plasmáticos de desempenho adequado, com destaque para a tau fosforilada na treonina 217, ou p-tau217. A proposta aproxima o diagnóstico do Alzheimer de outras áreas da medicina nas quais alterações moleculares antecedem manifestações clínicas evidentes. Os critérios revisados podem ser consultados no PubMed.

Distinção essencial

A identificação de patologia amiloide não equivale, isoladamente, ao diagnóstico de demência. Uma pessoa pode apresentar biomarcadores alterados antes de desenvolver sintomas, enquanto o declínio cognitivo pode decorrer de outras doenças ou de patologias concomitantes.

O resultado laboratorial precisa ser interpretado à luz do fenótipo clínico, do estágio funcional, das comorbidades e da probabilidade pré-teste. Essa distinção torna-se especialmente importante diante da oferta crescente de exames diretamente ao consumidor e do interesse em testar pessoas sem comprometimento cognitivo objetivo, uma aplicação ainda sem utilidade clínica estabelecida.

p-tau217 leva o laboratório ao centro da investigação

A p-tau217 plasmática tornou-se um dos marcadores mais estudados para estimar a presença de alterações amiloides cerebrais. Seu avanço deriva da maior concordância observada, em ensaios adequadamente validados, com métodos de referência como PET amiloide e biomarcadores do líquido cefalorraquidiano.

Em maio de 2025, a Food and Drug Administration autorizou nos Estados Unidos o primeiro teste sanguíneo destinado a auxiliar o diagnóstico da doença de Alzheimer. O ensaio calcula a razão entre p-tau217 e beta-amiloide 1-42 no plasma e foi indicado para pessoas com 55 anos ou mais que apresentem sinais ou sintomas de comprometimento cognitivo.

91,7% de concordância entre resultados positivos e a presença de placas amiloides

Entre os resultados negativos, a concordância com a ausência de patologia amiloide foi de 97,3%. O FDA ressalta que o ensaio não deve ser utilizado como rastreamento populacional ou ferramenta diagnóstica independente.

Os dados fazem parte da avaliação apresentada ao FDA para a autorização do teste.

Em agosto de 2026, outro ensaio plasmático, baseado exclusivamente em p-tau217, recebeu autorização do FDA para auxiliar a avaliação de pessoas com 55 anos ou mais que apresentem queixas, sinais ou sintomas de declínio cognitivo. O teste fornece resultados classificados como positivos, intermediários ou negativos para a probabilidade de patologia amiloide. A autorização, anunciada pela fabricante Roche, amplia a possibilidade de inserção do biomarcador em plataformas laboratoriais automatizadas.

A incorporação clínica requer cautela. Diretriz publicada em 2025 pela Alzheimer’s Association recomenda que, em serviços especializados, ensaios com sensibilidade mínima de 90% e especificidade de pelo menos 75% possam ser empregados na triagem. Para substituir PET amiloide ou análise do líquido cefalorraquidiano, o documento propõe desempenho mínimo de 90% tanto para sensibilidade quanto para especificidade.

A mesma diretriz adverte que muitos testes comercialmente disponíveis não atingem esses limiares. Ensaios que medem o mesmo analito podem apresentar desempenhos distintos em razão da plataforma, dos anticorpos utilizados, dos calibradores, dos pontos de corte e das características da população avaliada. A diretriz clínica está disponível no periódico Alzheimer’s & Dementia.

O que muda para o laboratório clínico

  • Validação analítica compatível com a finalidade clínica do ensaio.
  • Controle rigoroso das condições pré-analíticas e da estabilidade da amostra.
  • Definição de pontos de corte e faixas intermediárias adequados à plataforma utilizada.
  • Conhecimento da população em que o desempenho diagnóstico foi estabelecido.
  • Laudos que comuniquem o significado clínico, as limitações e a necessidade de correlação com outros achados.

Resultados intermediários merecem atenção particular. Em estratégias com dois pontos de corte, essa faixa sinaliza incerteza diagnóstica e pode demandar confirmação por PET ou líquido cefalorraquidiano. Os valores preditivos variam conforme a prevalência da patologia na população examinada. Um teste aplicado indiscriminadamente a pessoas assintomáticas produz consequências clínicas diferentes daquelas observadas em pacientes com comprometimento cognitivo objetivo avaliados por especialistas.

Antiamiloides chegam ao Brasil com indicações restritas

A confirmação biológica ganhou importância adicional com a chegada das terapias antiamiloide. Em abril de 2025, a Anvisa concedeu registro ao donanemabe, comercializado como Kisunla. Em dezembro do mesmo ano, a agência registrou o lecanemabe, comercializado como Leqembi.

Ambos são anticorpos monoclonais destinados às fases iniciais da doença, que compreendem o comprometimento cognitivo leve e a demência leve associados ao Alzheimer. A presença de patologia amiloide deve ser confirmada antes do início do tratamento. No Brasil, as indicações aprovadas foram restringidas a pessoas que não possuem o alelo APOE ε4 ou apresentam apenas uma cópia desse alelo. Pacientes homozigotos, com duas cópias, possuem risco mais elevado de alterações radiológicas relacionadas à amiloide.

A indicação é restrita. Esses medicamentos não foram aprovados para demência moderada ou avançada, nem para pessoas assintomáticas que apresentem apenas um biomarcador alterado.

O donanemabe é administrado por infusão intravenosa a cada quatro semanas. O lecanemabe, na apresentação inicialmente registrada, requer infusões a cada duas semanas.

No estudo Clarity AD, que incluiu 1.795 participantes com Alzheimer inicial, a variação média em 18 meses na escala Clinical Dementia Rating Sum of Boxes foi de 1,21 ponto no grupo lecanemabe e de 1,66 ponto no grupo placebo. A diferença absoluta foi de 0,45 ponto em uma escala de 18 pontos, equivalente a uma redução relativa de 27% na progressão medida pelo instrumento.

Reações infusionais ocorreram em 26,4% dos participantes que receberam o medicamento. Edema ou efusão cerebral identificados por imagem, classificados como ARIA-E, foram registrados em 12,6%. Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine e podem ser consultados no PubMed.

O donanemabe também reduziu a progressão em medidas cognitivas e funcionais no ensaio TRAILBLAZER-ALZ 2, publicado no JAMA. O estudo incluiu 1.736 pessoas com Alzheimer sintomático inicial e presença confirmada de amiloide e tau. O ensaio clínico está disponível no PubMed.

Benefício estatístico exige interpretação clínica

Os ensaios demonstram efeito sobre a progressão da doença em grupos selecionados. A magnitude média do benefício, contudo, é modesta e sua relevância para cada paciente permanece sujeita a debate. A redução relativa de 27% observada com o lecanemabe, frequentemente reproduzida em manchetes, precisa ser analisada junto à diferença absoluta de 0,45 ponto na escala clínica utilizada.

Uma revisão Cochrane publicada em 2026 reuniu 17 ensaios clínicos randomizados, com 20.342 participantes, e concluiu que os anticorpos dirigidos à beta-amiloide, considerados como classe, produzem benefícios médios pequenos e aumentam a incidência de eventos adversos. A análise incluiu moléculas mais antigas, sem eficácia confirmada, e medicamentos mais recentes, o que gerou discussão sobre a heterogeneidade do conjunto avaliado.

A revisão não invalida os resultados individuais que fundamentaram as aprovações regulatórias. Seus achados reforçam a necessidade de apresentar expectativas realistas, considerar a carga assistencial do tratamento e conduzir uma decisão compartilhada com o paciente e seus familiares. A revisão sistemática pode ser consultada no PubMed.

ARIA exige monitoramento rigoroso

As anormalidades de imagem relacionadas à amiloide podem se apresentar como edema ou efusão, classificados como ARIA-E, e como micro-hemorragias, hemorragias superficiais ou siderose, agrupadas como ARIA-H. Muitos episódios são assintomáticos, mas há registros de cefaleia, confusão, alterações visuais, convulsões e eventos graves.

A seleção dos pacientes inclui ressonância magnética antes do tratamento e exames seriados durante sua realização. O uso de anticoagulantes, sinais de angiopatia amiloide cerebral, micro-hemorragias prévias e o genótipo APOE ε4 integram a avaliação de risco. Em 2025, o FDA determinou a realização de uma ressonância adicional antes da terceira infusão de lecanemabe após identificar eventos graves precoces. O comunicado de segurança está disponível no portal da agência.

A genotipagem de APOE assume uma finalidade que ultrapassa a estimativa de suscetibilidade genética. No contexto terapêutico, ela auxilia a estratificação de segurança. O resultado exige aconselhamento apropriado, consentimento informado e proteção dos dados genéticos.

O tratamento continua sendo multimodal

Os anticorpos antiamiloide não substituem as intervenções já incorporadas ao cuidado. Inibidores da acetilcolinesterase, como donepezila, rivastigmina e galantamina, e o antagonista NMDA memantina continuam indicados para controle sintomático em situações clínicas específicas. Esses fármacos podem produzir melhora ou estabilização temporária da cognição e do funcionamento, mas não eliminam a patologia subjacente.

Atividade física, tratamento de sintomas neuropsiquiátricos, correção de déficits sensoriais, revisão de medicamentos, adequação do sono, suporte nutricional, adaptação do ambiente e orientação aos cuidadores também integram o manejo. A investigação de delirium, depressão, apneia do sono, dor, infecções e alterações metabólicas é particularmente importante diante de piora cognitiva abrupta.

Na prevenção, a Comissão Lancet sobre demência identificou 14 fatores potencialmente modificáveis e estimou que sua abordagem ao longo da vida poderia prevenir ou adiar cerca de 45% dos casos de demência em nível populacional.

Fatores modificáveis associados à demência

Baixa escolaridade, perda auditiva, colesterol LDL elevado, hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, sedentarismo, consumo excessivo de álcool, depressão, isolamento social, traumatismo craniano, poluição atmosférica e perda visual não tratada.

A estimativa de 45% não significa que essa proporção dos casos individuais seja evitável, nem constitui garantia de prevenção do Alzheimer. Trata-se de uma projeção populacional que destaca o potencial de políticas públicas e intervenções distribuídas ao longo da vida. O relatório da Comissão Lancet pode ser consultado no PubMed.

Uma agenda científica além da amiloide

A pesquisa farmacológica continua mais ampla do que os medicamentos atualmente aprovados. O levantamento do pipeline de 2026 identificou 158 fármacos em 192 ensaios clínicos ativos, dos quais 36 estavam na fase 3. Aproximadamente 73% dos candidatos tinham como objetivo interferir na progressão da doença.

Os alvos incluem tau, neuroinflamação, disfunção sináptica, metabolismo energético, mecanismos vasculares, receptores de neurotransmissores e vias relacionadas a APOE e lipídios. O número de estudos indica atividade científica intensa, mas não antecipa eficácia. A maior parte dos candidatos investigados em doenças neurodegenerativas não chega à prática clínica.

O pipeline de desenvolvimento de medicamentos para Alzheimer em 2026 mostra ainda que biomarcadores estão presentes em grande parte dos ensaios, seja para selecionar participantes, acompanhar respostas farmacodinâmicas ou documentar o efeito do tratamento sobre processos biológicos específicos.

A mudança mais concreta de 2026 está menos na ideia de cura e mais na precisão. Para os laboratórios clínicos, essa transição abre uma área de alta complexidade, na qual desempenho analítico, contexto clínico e qualidade da interpretação terão peso equivalente ao resultado numérico.


Referências