Um adulto produtivo, articulado, com responsabilidades profissionais elevadas, que ao mesmo tempo sente, há meses, que nada do que conquista lhe traz qualquer satisfação. Nenhum teste psicológico convencional assinala isto como depressão, porque nenhum teste foi desenhado para detetar sofrimento que coexiste com desempenho elevado. É a partir deste retrato clínico que uma equipa do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), com investigadores em Portugal e no Brasil, propõe um novo conceito: a “depressão funcional em superdotados profundos”.
O estudo, publicado na International Journal of Health Science (ISSN 2764-0159), da Atena Editora, uma das maiores editoras académicas do Brasil em volume de publicações, integra quatro construções teóricas: a “neurodivergência evolutiva”, que enquadra a sobredotação profunda, QI igual ou superior a 145, menos de uma pessoa em mil, como uma vantagem adaptativa e não como um défice; o “savantismo estrutural compensado”, que propõe que pessoas sobredotadas partilham uma base genómica com o savantismo clássico, mas com uma diferença crucial, possuem também uma função executiva de elite que organiza essa base a favor da pessoa; a “depressão funcional”, já referida; e a “inteligência DWRI”, um estilo de processamento cognitivo demasiado amplo e associativo para ser captado pelos testes de QI tradicionais.
Segundo o autor principal do estudo, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Diretor Científico do CPAH, Pós-Doutor em Neurociências e Professor convidado na UNIFRANZ e na PUCRS, os dados recolhidos através do projeto interno Gifted Debate, que reuniu 512 pessoas sobredotadas confirmadas de 20 países, são particularmente preocupantes. “Oitenta por cento das pessoas que participaram no inquérito relataram episódios consistentes com depressão oscilante, e quase metade nunca recebeu um diagnóstico formal, apesar de ter procurado ajuda profissional. Isto significa que há um número significativo de pessoas a sofrer de forma real, sem que o sistema de saúde tenha as ferramentas para reconhecer esse sofrimento”, afirma.
O estudo recorre ainda à imagem de um “Ferrari sem volante” para descrever a diferença entre um savant clássico e uma pessoa com savantismo estrutural compensado. “O savant clássico tem o motor, mas não tem a direção. A pessoa sobredotada com compensação estrutural tem as duas coisas. O savant clássico não é uma versão corrigida da pessoa sobredotada, é uma pessoa sobredotada cuja compensação frontal nunca chegou a desenvolver-se”, explica Fabiano de Abreu.
Os investigadores assumem que o modelo tem limitações importantes, entre elas o facto de a amostra do Gifted Debate ser maioritariamente masculina e com mais de 35 anos, recrutada através de redes internacionais de sociedades de QI elevado, e defendem que são necessários estudos de réplica feitos por outras equipas. Mesmo assim, consideram que o trabalho pode ajudar a explicar por que tantas pessoas com desempenho profissional elevado relatam, em consulta, uma sensação persistente de vazio que nenhum diagnóstico até agora conseguiu nomear.
O artigo foi assinado também por Luiz Felipe Chaves Carvalho, Cirurgião Ortopédico e Traumatologista, Especialista em Cirurgia da Coluna e Mestre em Neurociências, certificado pela American Academy of Regenerative Medicine; e por Flávio Henrique dos Santos Nascimento, Médico Psiquiatra e Especialista em Neurociências.
O CPAH é um centro de pesquisa sem fins lucrativos, com investigadores em Portugal e no Brasil, sustentado por parceiros e investimento próprio, criado para dar estrutura a investigadores afastados do meio académico e a autodidatas, e que reúne atualmente a maior concentração de pessoas sobredotadas entre os seus membros.