Doença de Fabry, diagnóstico laboratorial e desafios clínicos | Newslab

Doença de Fabry: entre o subdiagnóstico e o avanço terapêutico, o desafio de reconhecer uma condição rara e sistêmica

28 de abril marca o Dia Nacional da Conscientização sobre a Doença de Fabry, uma condição genética rara, progressiva e frequentemente subdiagnosticada, que exige maior atenção clínica e laboratorial

A Doença de Fabry integra o grupo das doenças de depósito lisossômico e decorre de mutações no gene GLA, responsáveis pela deficiência da enzima alfa-galactosidase A (α-Gal A). Essa deficiência leva ao acúmulo progressivo de glicoesfingolipídios, especialmente a globotriaosilceramida (Gb3), em múltiplos tecidos, comprometendo funções essenciais em diferentes órgãos.

Uma doença rara, mas possivelmente subestimada

Tradicionalmente, a prevalência da Doença de Fabry é estimada em cerca de 1 para cada 40.000 a 80.000 nascidos vivos, classificando-a como uma doença rara.

No entanto, programas de triagem neonatal têm sugerido que essa frequência pode ser significativamente maior, sobretudo devido às formas de início tardio e à subnotificação de casos.

Esse cenário reforça um ponto crítico, a doença não é apenas rara, ela é também frequentemente subdiagnosticada, especialmente em pacientes com manifestações atípicas.

Fisiopatologia e impacto multissistêmico

A deficiência de α-Gal A impede a degradação adequada de glicolipídios, levando ao acúmulo progressivo dessas substâncias em células endoteliais, renais, cardíacas e neuronais.

Esse processo desencadeia uma doença multissistêmica e progressiva, com manifestações que incluem:

  • Dor neuropática (acroparestesias), geralmente na infância
  • Angioqueratomas cutâneos
  • Disfunção renal progressiva, podendo evoluir para insuficiência renal terminal
  • Comprometimento cardíaco, como hipertrofia ventricular e arritmias
  • Eventos cerebrovasculares precoces, incluindo AVC

A evolução natural da doença está associada à redução significativa da expectativa de vida, principalmente por complicações cardiovasculares e renais.

Diagnóstico: o papel central do laboratório

Do ponto de vista analítico e clínico, o diagnóstico da Doença de Fabry representa um desafio relevante.

Nos homens, a identificação da atividade reduzida da α-Gal A em plasma, leucócitos ou fibroblastos é considerada um método confiável. Já nas mulheres, devido à inativação do cromossomo X, a atividade enzimática pode ser normal, exigindo testes genéticos para confirmação diagnóstica.

Esse aspecto destaca a importância de uma abordagem integrada entre clínica, laboratório e genética molecular.

Além disso, biomarcadores como o Gb3 e o lyso-Gb3 têm sido utilizados para monitoramento da doença e resposta terapêutica, ampliando o papel da medicina laboratorial no manejo desses pacientes.

Desafios clínicos: diagnóstico tardio e variabilidade fenotípica

Um dos principais obstáculos no manejo da Doença de Fabry é a heterogeneidade clínica.

A forma clássica tende a se manifestar na infância, com sintomas mais evidentes, enquanto as formas tardias podem surgir apenas na vida adulta, muitas vezes simulando doenças cardíacas ou renais comuns.

Esse espectro clínico contribui para atrasos diagnósticos que podem ultrapassar uma década, comprometendo o início precoce do tratamento.

Avanços terapêuticos e perspectivas

O tratamento da Doença de Fabry evoluiu significativamente nas últimas décadas.

A terapia de reposição enzimática (TRE) permanece como abordagem padrão, com evidências de que pode estabilizar ou retardar a progressão da doença quando iniciada precocemente.

Além disso, terapias mais recentes, como chaperonas farmacológicas e abordagens baseadas em terapia gênica, vêm sendo investigadas, ampliando as perspectivas terapêuticas para diferentes perfis de pacientes.

Conscientização como estratégia de diagnóstico precoce

O Dia Nacional da Conscientização sobre a Doença de Fabry cumpre um papel estratégico ao destacar a necessidade de maior suspeição clínica e integração diagnóstica.

Para a medicina laboratorial, o tema reforça três pontos centrais:

  • Ampliação do conhecimento sobre doenças raras
  • Incorporação de testes específicos e biomarcadores
  • Integração com diagnóstico molecular

Em um contexto onde o diagnóstico precoce impacta diretamente o prognóstico, reconhecer a Doença de Fabry deixa de ser uma questão de raridade e passa a ser uma questão de precisão diagnóstica e oportunidade terapêutica.