A noite que vira dia: Como o mau funcionamento do fígado sabota o relógio biológico | Newslab

A noite que vira dia: Como o mau funcionamento do fígado sabota o relógio biológico

A insónia persistente à noite combinada com uma sonolência avassaladora durante o dia é frequentemente associada ao stresse ou ao uso excessivo de ecrãs. Contudo, a medicina alerta que esta inversão do ciclo do sono pode ser o primeiro sinal oculto de que o fígado está em sofrimento grave. O fenómeno clínico, conhecido como inversão do ciclo sono vigília, serve como um aviso importante para uma condição neurológica chamada encefalopatia hepática.

O cérebro sob o efeito de toxinas

O fígado funciona como a grande central de desintoxicação do corpo humano. Quando este órgão sofre de lesões avançadas provocadas por doenças crónicas como a cirrose, ele perde a capacidade de filtrar elementos nocivos do sangue. A amónia, uma substância gerada naturalmente no processo de digestão das proteínas, acaba por acumular se na corrente sanguínea e consegue ultrapassar a barreira que protege o cérebro.

Uma vez no sistema nervoso central, a amónia atua como uma neurotoxina potente. Ela causa pequenas inflamações nas células cerebrais e desregula por completo a produção e a metabolização da melatonina, a hormona responsável por avisar o corpo que está na hora de dormir. O resultado direto desta falha química é um relógio biológico totalmente desregulado. O paciente passa a sentir uma agitação invulgar durante a madrugada e uma fadiga extrema nas horas de sol.

Sinais discretos que exigem atenção

Especialistas explicam que a encefalopatia hepática evolui por etapas. Nas fases iniciais, as mudanças no comportamento podem ser subtis e facilmente confundidas com outras situações do quotidiano. A pessoa pode apresentar uma ligeira irritabilidade, episódios de esquecimento, lentidão para responder a perguntas simples ou dificuldade em manter a concentração em tarefas básicas do dia a dia.

Com o avançar do problema, surgem manifestações físicas características. O tremor nas mãos, apelidado na medicina de asterixis, faz com que o paciente execute movimentos involuntários semelhantes ao bater de asas de uma ave quando tenta esticar os braços. Sinais como a coloração amarelada na pele e nos olhos, o inchaço na zona abdominal e a urina com uma cor muito escura também reforçam a necessidade de uma avaliação médica urgente.

O perigo oculto da automedicação

O maior erro diante deste cenário é tentar resolver o problema com o uso de calmantes ou indutores do sono tradicionais. Medicamentos sedativos e ansiolíticos dependem diretamente do fígado para serem processados e eliminados do organismo.

Numa pessoa com insuficiência hepática, estas substâncias permanecem ativas no corpo por muito mais tempo, o que agrava dramaticamente a toxicidade no cérebro. O uso incorreto destes fármacos pode acelerar a piora do quadro clínico, empurrando o paciente para um estado de confusão mental profunda ou mesmo para o coma.

O tratamento correto da inversão do sono nestes casos envolve a recuperação da função do fígado e a redução dos níveis de amónia no sangue através de terapêuticas específicas orientadas por um hepatologista ou gastrenterologista. Ajustes na dieta e o uso de laxantes específicos que ajudam a eliminar as toxinas pelo intestino são algumas das abordagens comuns. Identificar a troca do dia pela noite como um sintoma físico e não apenas como um hábito desregulado é o passo crucial para salvar a saúde do paciente.