Datroway para câncer de pulmão é aprovado pela Anvisa | Newslab

Anvisa amplia indicação do Datroway para câncer de pulmão com mutação em EGFR

Medicamento passa a ser indicado para adultos com CPNPC avançado ou metastático, previamente tratados com terapia direcionada ao EGFR e quimioterapia à base de platina

A nova indicação contempla pacientes adultos com câncer de pulmão de não pequenas células localmente avançado ou metastático, após tratamento com terapia direcionada ao EGFR e quimioterapia à base de platina. A decisão reforça o papel do diagnóstico molecular na definição da jornada terapêutica.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou uma nova indicação terapêutica para o Datroway, nome comercial do datopotamabe deruxtecana. O medicamento poderá ser utilizado no tratamento de adultos com câncer de pulmão de não pequenas células, CPNPC, localmente avançado ou metastático, cujos tumores apresentem mutação no gene EGFR.

A indicação é restrita a pacientes que já tenham recebido terapia direcionada ao EGFR e quimioterapia à base de platina. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União em 27 de julho de 2026, por meio da Resolução RE nº 2.871. O medicamento, registrado no Brasil pela Daiichi Sankyo Brasil Farmacêutica, já possuía indicação para câncer de mama.

Embora tenha sido divulgado como um novo medicamento para câncer de pulmão, o ato regulatório corresponde tecnicamente à ampliação do uso de um produto já registrado no país, segundo confirmação pela Anvisa.

Indicação para um cenário de resistência terapêutica

As mutações ativadoras do EGFR definem um dos principais subgrupos moleculares do adenocarcinoma pulmonar. Essas alterações mantêm ativa uma via de sinalização associada à proliferação e à sobrevivência das células tumorais, permitindo o emprego de inibidores de tirosina quinase direcionados ao receptor.

Esses medicamentos modificaram o tratamento do CPNPC avançado com mutação em EGFR. Ainda assim, a progressão da doença permanece frequente após determinado período de exposição. Quando o tumor avança depois da terapia dirigida e da quimioterapia com platina, o número de alternativas tende a diminuir.

É nesse cenário que o datopotamabe deruxtecana passa a integrar o arsenal terapêutico brasileiro. A indicação não contempla o tratamento inicial da doença. Seu uso foi autorizado para uma população previamente tratada, com doença avançada e necessidade clínica ainda pouco atendida.

Um conjugado dirigido à proteína TROP2

O datopotamabe deruxtecana pertence à classe dos anticorpos-fármacos conjugados, conhecidos pela sigla ADC. A molécula combina um anticorpo monoclonal dirigido à proteína TROP2 com um agente citotóxico derivado de um inibidor da topoisomerase I.

Após se ligar à TROP2 presente na superfície celular, o conjugado é internalizado. A clivagem do ligante libera a carga citotóxica no interior da célula, onde ocorre a inibição da topoisomerase I, com consequente dano ao DNA e morte celular.

Uma distinção é relevante. A mutação em EGFR identifica a população contemplada pela nova indicação, porém o alvo direto do medicamento é a TROP2. Nas informações regulatórias consultadas, a seleção dos pacientes depende da presença de mutação em EGFR e do histórico de tratamentos anteriores. Não foi estabelecida a exigência de teste de expressão de TROP2.

Evidências clínicas em pacientes previamente tratados

O estudo de fase II TROPION-Lung05, publicado no Journal of Clinical Oncology, avaliou o datopotamabe deruxtecana em 137 pacientes com CPNPC avançado ou metastático e alterações genômicas acionáveis. Todos apresentavam progressão após terapia-alvo e quimioterapia à base de platina. Mutações em EGFR estavam presentes em 56,9% dos participantes.

Na população total do estudo, a taxa de resposta objetiva confirmada foi de 35,8%. Entre os pacientes com mutação em EGFR, o índice chegou a 43,6%. A duração mediana da resposta na população estudada foi de sete meses. Os resultados precisam ser interpretados considerando o desenho aberto, de braço único, e o perfil intensamente pré-tratado dos participantes. O trabalho foi publicado por Sands e colaboradores no Journal of Clinical Oncology.

A avaliação regulatória norte-americana reuniu dados de 114 pacientes com CPNPC EGFR-mutado tratados nos estudos TROPION-Lung05 e TROPION-Lung01. Segundo a Food and Drug Administration, FDA, a taxa de resposta objetiva foi de 45%, com intervalo de confiança de 95% entre 35% e 54%. A duração mediana da resposta foi de 6,5 meses.

Esses dados documentam atividade antitumoral em uma população com opções limitadas. Contudo, resposta objetiva e duração da resposta não demonstram, isoladamente, ganho de sobrevida global. Nos Estados Unidos, a indicação recebeu aprovação acelerada e permanece vinculada à confirmação do benefício clínico em estudo randomizado.

Diagnóstico molecular define a elegibilidade

A ampliação da indicação coloca o laboratório no centro da decisão terapêutica. Sem a identificação adequada da mutação em EGFR, o paciente não pode ser corretamente enquadrado na população prevista no registro.

A atualização de 2026 das recomendações da American Society of Clinical Oncology orienta, quando possível, a utilização de painéis amplos de sequenciamento de nova geração no CPNPC avançado. A estratégia permite investigar simultaneamente diferentes alterações com relevância terapêutica, preservando material biológico e reduzindo a fragmentação da análise molecular.

A escolha do método deve considerar o tipo e a qualidade da amostra, a fração tumoral, a cobertura analítica, o limite de detecção e as variantes contempladas pelo ensaio. O laudo precisa apresentar a alteração identificada de maneira inequívoca, com nomenclatura padronizada, interpretação clínica compatível com o contexto da doença e descrição das limitações do teste.

O tecido tumoral permanece uma fonte central para o perfil molecular. A análise de DNA tumoral circulante pode ser empregada em situações selecionadas, sobretudo quando a obtenção de tecido é inviável ou insuficiente. Resultados plasmáticos negativos exigem cautela, pois a baixa liberação de DNA tumoral na circulação pode produzir resultados falso-negativos. Quando clinicamente possível, a investigação em tecido ajuda a esclarecer esses casos.

A nova indicação também destaca a importância da rastreabilidade dos resultados. Laboratórios e serviços de patologia precisam manter acesso aos dados moleculares produzidos ao longo do tratamento, incluindo metodologia, variante detectada, sensibilidade analítica e características da amostra. Essas informações podem ser decisivas anos depois do diagnóstico inicial.

Segurança exige acompanhamento específico

O perfil de segurança dos conjugados que contêm deruxtecana requer atenção. A documentação internacional do produto inclui advertências para doença pulmonar intersticial ou pneumonite, reações oculares, estomatite e toxicidade embriofetal.

No TROPION-Lung05, os eventos adversos mais frequentes incluíram estomatite, náusea e alopecia. Eventos relacionados ao tratamento de grau 3 ou superior foram observados em 28,5% dos participantes. A ocorrência de doença pulmonar intersticial reforça a necessidade de reconhecimento precoce de sintomas respiratórios, avaliação clínica e acompanhamento por equipe experiente.

A definição do tratamento deve considerar o benefício esperado, as condições clínicas do paciente, as terapias já utilizadas e o risco individual de toxicidade.

Carga elevada da doença

O câncer de pulmão continua entre os maiores desafios da oncologia. A Organização Mundial da Saúde estima que tenham ocorrido cerca de 2,5 milhões de novos casos e 1,8 milhão de mortes pela doença em 2022. O CPNPC corresponde a aproximadamente 85% dos diagnósticos. A própria OMS inclui a avaliação molecular entre os recursos necessários para orientar a escolha terapêutica.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima 35.380 novos casos anuais de tumores de traqueia, brônquios e pulmões entre 2026 e 2028. São previstos 18.730 casos entre homens e 16.650 entre mulheres. Esse grupo representa 6,8% das neoplasias estimadas no país quando excluídos os tumores de pele não melanoma, conforme a Estimativa 2026 do INCA.

A chegada de uma opção para pacientes com CPNPC EGFR-mutado após terapias anteriores amplia as possibilidades de manejo em uma etapa particularmente difícil da doença. Seu alcance clínico dependerá da seleção molecular correta, do acesso ao tratamento e da consolidação de evidências sobre resultados de longo prazo. Para os laboratórios, a decisão regulatória reafirma uma realidade já estabelecida na oncologia de precisão: a qualidade do diagnóstico molecular interfere diretamente nas oportunidades terapêuticas disponíveis para cada paciente.