Diagnóstico do câncer de cabeça e pescoço avança com biomarcadores | Newslab

Diagnóstico preciso muda a abordagem do câncer de cabeça e pescoço

No Dia Mundial do Câncer de Cabeça e Pescoço, dados recentes reforçam a necessidade de reduzir o intervalo entre os primeiros sinais, a obtenção da amostra e a caracterização laboratorial do tumor

Celebrado em 27 de julho, o Dia Mundial do Câncer de Cabeça e Pescoço chama a atenção para um conjunto heterogêneo de neoplasias que acometem estruturas diretamente relacionadas à respiração, à fala, à deglutição e à alimentação. Instituída pela International Federation of Head and Neck Oncologic Societies, a data busca ampliar a prevenção, o reconhecimento dos sinais suspeitos e o acesso oportuno ao diagnóstico.

As estimativas mais recentes mostram a dimensão do problema. Segundo o GLOBOCAN 2024, divulgado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, IARC, os tumores de lábio e cavidade oral responderam por aproximadamente 452 mil novos casos e 194 mil mortes no mundo em 2024. Esses números representam somente uma parte dos cânceres classificados dentro da região da cabeça e do pescoço.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima 17.190 novos casos anuais de câncer da cavidade oral para cada ano do triênio 2026 a 2028. A projeção inclui 12.260 diagnósticos em homens e 4.930 em mulheres. Para o câncer de laringe, são esperados 8.510 novos casos por ano, dos quais 7.310 devem ocorrer no sexo masculino.

Tumores distintos sob uma mesma denominação

A expressão câncer de cabeça e pescoço reúne neoplasias da cavidade oral, orofaringe, nasofaringe, hipofaringe, laringe, cavidade nasal, seios paranasais e glândulas salivares. A maioria dos tumores originados nas superfícies mucosas corresponde ao carcinoma de células escamosas, também denominado carcinoma espinocelular.

Embora compartilhem uma região anatômica, essas doenças apresentam etiologias, características moleculares, prognósticos e respostas terapêuticas diferentes. O sítio primário precisa ser definido com precisão, pois a localização influencia a classificação histopatológica, o estadiamento, a investigação viral e a escolha dos biomarcadores.

O tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas permanecem entre os principais fatores de risco para tumores da cavidade oral, hipofaringe e laringe. A infecção persistente por tipos oncogênicos do papilomavírus humano, especialmente o HPV 16, tem papel estabelecido nos carcinomas da orofaringe, sobretudo aqueles localizados nas amígdalas e na base da língua. O vírus Epstein-Barr apresenta associação reconhecida com o carcinoma de nasofaringe.

Essas diferenças impedem que um único algoritmo laboratorial seja aplicado indiscriminadamente a todos os tumores da região.

Sinais persistentes exigem investigação

Lesões na boca ou na garganta que não cicatrizam, nódulos cervicais, dificuldade para engolir, dor persistente, rouquidão prolongada e alterações inexplicadas da voz estão entre os sinais que justificam avaliação médica ou odontológica. Placas brancas ou avermelhadas na mucosa oral, sangramento incomum, mobilidade dentária sem causa evidente e dificuldade de adaptação de próteses também merecem investigação.

Ainda não existe um teste de rastreamento populacional padronizado para o conjunto dos cânceres de cabeça e pescoço. Na cavidade oral, o exame visual e clínico realizado por profissionais treinados pode favorecer a identificação de lesões suspeitas, especialmente em pessoas expostas a fatores de risco. A IARC destaca a avaliação clínica da boca em populações de maior risco entre as estratégias de detecção precoce.

Diante de uma alteração suspeita, o diagnóstico envolve exame clínico, endoscopia quando indicada, métodos de imagem e obtenção de material para análise citológica ou histopatológica. Nos nódulos cervicais, a punção aspirativa por agulha fina pode representar o primeiro contato do laboratório com a doença. Biópsias por agulha grossa ou procedimentos incisionais e excisionais são utilizados conforme a localização e as características da lesão.

Histopatologia permanece no centro do diagnóstico

A confirmação histopatológica continua sendo o eixo do diagnóstico. O laudo deve identificar o tipo tumoral, o grau de diferenciação quando aplicável, a profundidade de invasão em tumores da cavidade oral, o comprometimento de margens e a presença de invasão linfovascular ou perineural. Em peças cirúrgicas com linfonodos, o número de estruturas examinadas, o tamanho dos depósitos metastáticos e a extensão extranodal possuem relevância prognóstica.

A qualidade desse processo começa antes da leitura microscópica. Fixação inadequada, fragmentação excessiva, cauterização, baixa celularidade e escassez de tecido podem comprometer a morfologia e inviabilizar testes complementares. O planejamento da amostragem torna-se especialmente importante quando uma pequena biópsia precisa sustentar a confirmação diagnóstica, a investigação viral e a análise de biomarcadores.

HPV exige um algoritmo orientado pela localização

A atualização publicada em 2025 pelo College of American Pathologists recomenda a pesquisa de HPV de alto risco em todos os carcinomas de células escamosas da orofaringe recém-diagnosticados. O teste pode ser realizado no tumor primário ou em uma metástase linfonodal cervical quando os achados clínicos e radiológicos indicarem origem orofaríngea.

Em amostras teciduais, a imunohistoquímica para p16 é utilizada como marcador substituto da atividade oncogênica do HPV em contextos apropriados. Sua ampla disponibilidade, o desempenho em amostras pequenas e a reprodutibilidade contribuíram para sua incorporação aos algoritmos diagnósticos.

A positividade para p16, entretanto, não deve ser interpretada fora do contexto anatômico e morfológico. O CAP recomenda testes específicos para o HPV em situações de discordância entre a morfologia e a imunomarcação, em determinados cenários epidemiológicos e em materiais citológicos selecionados. A diretriz também passou a recomendar a investigação rotineira de HPV de alto risco nos carcinomas escamosos sinonasais. Para carcinomas da cavidade oral, laringe, hipofaringe e nasofaringe, a testagem rotineira não é indicada da mesma forma.

Outro ponto relevante para os laboratórios é a abrangência analítica do ensaio. Embora o HPV 16 seja predominante, uma parcela dos carcinomas orofaríngeos associados ao vírus envolve outros genótipos de alto risco. Testes moleculares com cobertura excessivamente restrita podem deixar de identificar casos clinicamente relevantes.

Biomarcadores aproximam diagnóstico e tratamento

A avaliação laboratorial passou a fornecer informações que ultrapassam a identificação do tumor. O status do HPV influencia o estadiamento dos carcinomas orofaríngeos e oferece informação prognóstica. Pacientes com tumores orofaríngeos associados ao HPV apresentam, em média, prognóstico mais favorável do que aqueles com doença HPV-negativa, embora fatores como tabagismo, extensão tumoral e condições clínicas continuem relevantes.

Nos carcinomas recorrentes ou metastáticos, a expressão de PD-L1, calculada pelo escore positivo combinado, CPS, participa da seleção de determinados esquemas de imunoterapia. O estudo de fase 3 KEYNOTE-048 demonstrou diferenças de benefício conforme a expressão de PD-L1 e consolidou a relevância desse marcador no cenário avançado.

A interpretação deve observar o clone utilizado, a plataforma, os controles do ensaio, a representatividade da amostra e os critérios específicos vinculados à indicação terapêutica. Resultados limítrofes ou obtidos em tecido escasso exigem cautela, pois a heterogeneidade tumoral pode interferir na classificação.

DNA tumoral circulante ainda está em avaliação

A análise de DNA do HPV circulante no plasma aparece entre as tecnologias mais estudadas para monitoramento de tumores orofaríngeos associados ao vírus. A proposta é utilizar fragmentos virais relacionados ao tumor como um indicador de resposta, doença residual ou recorrência.

Um estudo publicado em 2026 na Scientific Reports avaliou 59 pacientes com carcinoma de orofaringe ou tumor cervical de origem primária desconhecida. Entre os pacientes acompanhados após o tratamento, o aumento do DNA livre circulante do HPV precedeu a confirmação clínica da recorrência em dois casos, por períodos aproximados de três e oito meses. O número reduzido de participantes e de eventos impede a generalização dos resultados, mas reforça o potencial da metodologia para estudos prospectivos maiores.

O próprio CAP classifica a pesquisa de HPV livre circulante como uma tecnologia emergente. Neste momento, ela não substitui a avaliação clínica, os métodos de imagem, a endoscopia ou a confirmação histopatológica de uma suspeita de recorrência.

Precisão depende de integração

O avanço do diagnóstico do câncer de cabeça e pescoço não se resume à incorporação de novos testes. Ele depende da escolha correta do exame para cada localização anatômica, da preservação adequada da amostra e da comunicação entre patologistas, cirurgiões, oncologistas, radiologistas e profissionais do laboratório.

A principal contribuição dos serviços diagnósticos está na construção de fluxos consistentes. Isso inclui priorização de amostras, critérios claros para p16 e HPV, validação de ensaios moleculares, controle de qualidade da imunohistoquímica e emissão de laudos que relacionem os achados ao sítio tumoral.

No Dia Mundial do Câncer de Cabeça e Pescoço, a mensagem para o setor laboratorial é objetiva. Diagnósticos rápidos precisam ser acompanhados de precisão morfológica e molecular. Nos tumores em que poucos dias podem influenciar o início do tratamento, qualidade analítica e tempo de resposta fazem parte do mesmo compromisso assistencial.