Câncer de pulmão: Brasil terá 35 mil novos casos por ano | Newslab

Câncer de pulmão: o diagnóstico que precisa chegar antes da doença avançada

No Dia Mundial de Combate ao Câncer de Pulmão, dados atualizados reforçam a urgência da prevenção, do rastreamento bem indicado e do acesso oportuno à caracterização anatomopatológica e molecular dos tumores

Celebrado em 1º de agosto, o Dia Mundial de Combate ao Câncer de Pulmão chama a atenção para uma doença que permanece no centro da mortalidade oncológica. A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2022, foram diagnosticados 2,5 milhões de casos e registradas 1,8 milhão de mortes em todo o mundo. Nenhum outro tipo de câncer causou tantos óbitos naquele ano.

No Brasil, a edição mais recente da estimativa nacional dimensiona a pressão que a doença continuará exercendo sobre os serviços de saúde. O Instituto Nacional de Câncer projeta 35.380 novos casos anuais de cânceres de traqueia, brônquio e pulmão entre 2026 e 2028, com risco estimado de 16,51 casos por 100 mil habitantes. Desse total, 18.730 deverão ocorrer entre homens e 16.650 entre mulheres. Excluídos os tumores de pele não melanoma, esse grupo ocupa a quarta posição entre os cânceres mais incidentes no país.

Os números brasileiros de mortalidade também exigem atenção. Em 2023, foram registrados 31.237 óbitos por cânceres de traqueia, brônquio e pulmão, segundo o INCA. Como os dados de incidência e mortalidade correspondem a períodos distintos, eles não devem ser comparados diretamente. Ainda assim, revelam a dimensão do problema e a necessidade de reduzir o intervalo entre suspeita clínica, confirmação diagnóstica e início do tratamento.

Prevenção ainda concentra o maior potencial de impacto

O tabagismo continua sendo o principal fator de risco. Em atualização publicada em abril de 2026, a OMS atribui de 60% a 70% dos casos evitáveis ao consumo de tabaco. A exposição passiva à fumaça, a poluição atmosférica e os agentes ocupacionais aparecem entre os demais determinantes relevantes.

A prevenção, portanto, depende de políticas consistentes de controle do tabaco, apoio à cessação, proteção contra o fumo passivo e vigilância das exposições ambientais e profissionais. Amianto, sílica, gases de escape de motores a diesel e radônio figuram entre os carcinógenos associados à doença. A susceptibilidade genética e algumas condições pulmonares crônicas também podem modificar o risco individual.

Esse conjunto de fatores ajuda a corrigir uma percepção ainda frequente. Embora o histórico de tabagismo represente o elemento epidemiológico mais importante, o câncer de pulmão também ocorre em pessoas que nunca fumaram. Atribuir a doença exclusivamente ao comportamento individual favorece o estigma e pode atrasar a investigação de sintomas em pacientes sem exposição conhecida ao tabaco.

Rastreamento exige definição precisa do público

A tomografia computadorizada de baixa dose ocupa posição estabelecida no rastreamento de pessoas com risco elevado. Os ensaios randomizados NLST e NELSON demonstraram redução da mortalidade específica por câncer de pulmão em populações selecionadas, formadas principalmente por fumantes ou ex-fumantes com exposição acumulada relevante.

Isso não significa que o exame deva ser aplicado indiscriminadamente. O INCA informa que a tomografia de baixa dose pode ser considerada para pessoas de 50 a 80 anos com histórico de pelo menos 20 maços-ano, que ainda fumam ou interromperam o consumo há menos de 15 anos. A decisão deve envolver avaliação clínica, discussão dos benefícios e riscos e acesso a uma linha de cuidado capaz de conduzir os achados.

O rastreamento da população geral não é recomendado. Nódulos benignos, resultados falso-positivos, exposição repetida à radiação, sobrediagnóstico e procedimentos invasivos desnecessários integram os possíveis danos. O benefício depende da seleção adequada, de protocolos padronizados para manejo de nódulos e de seguimento organizado.

Também é importante distinguir rastreamento de diagnóstico precoce. O rastreamento se dirige a pessoas assintomáticas com risco elevado. Tosse persistente, dor torácica, falta de ar, hemoptise, perda de peso sem causa conhecida e infecções respiratórias recorrentes exigem investigação clínica, independentemente da elegibilidade para programas de rastreamento.

A confirmação começa no tecido

A imagem identifica a lesão suspeita, mas não define isoladamente a natureza do tumor. A confirmação depende da avaliação citológica ou histopatológica de material obtido por broncoscopia, biópsia transtorácica, procedimento cirúrgico ou amostragem de sítios metastáticos, conforme a apresentação clínica.

A distinção inicial separa o câncer de pulmão de pequenas células do grupo de carcinomas de não pequenas células. Segundo a OMS, os tumores de não pequenas células representam cerca de 85% dos casos. Dentro desse grupo, a classificação histológica precisa orienta a investigação molecular e influencia diretamente a escolha terapêutica.

Em amostras pequenas, o laboratório enfrenta um equilíbrio delicado. É necessário estabelecer o diagnóstico e preservar material suficiente para os testes preditivos. As recomendações da International Association for the Study of Lung Cancer indicam o emprego racional da imuno-histoquímica, com marcadores como TTF-1 e p40 em situações selecionadas, evitando painéis extensos que possam consumir tecido sem acrescentar informação clinicamente útil.

A fase pré-analítica assume importância particular nesse cenário. Tempo e condições de fixação, celularidade tumoral, presença de necrose, método de obtenção da amostra e escolha do bloco interferem na qualidade dos ácidos nucleicos e no desempenho dos ensaios. O patologista precisa avaliar a fração de células neoplásicas e indicar, quando necessária, a macrodissecção da área tumoral.

O diagnóstico tornou-se molecular

A classificação morfológica continua indispensável, porém já não encerra o diagnóstico. No carcinoma de não pequenas células, especialmente em doença avançada, a investigação de biomarcadores pode revelar alterações associadas a terapias-alvo ou orientar o uso de imunoterapia.

Entre os alvos clinicamente relevantes estão alterações em EGFR, ALK, ROS1, BRAF, KRAS, MET, RET, NTRK e HER2, além da avaliação da expressão de PD-L1. A indicação de cada teste depende da histologia, do estágio, do perfil clínico, das diretrizes adotadas e dos tratamentos disponíveis. Revisão publicada no Journal of the National Comprehensive Cancer Network ressalta que a ampliação do número de alterações acionáveis tornou a caracterização molecular parte central do cuidado no câncer de pulmão avançado.

Painéis multiplexados por sequenciamento de nova geração podem analisar diferentes classes de variantes em uma única estratégia, reduzindo o consumo sucessivo da amostra. Para que esse benefício se concretize, o ensaio precisa contemplar controles de qualidade, limite de detecção adequado, cobertura de variantes relevantes, validação da bioinformática e interpretação clínica atualizada.

A agilidade também interfere no valor do resultado. Em levantamento internacional realizado pela IASLC com 1.677 profissionais de 90 países, 43% dos participantes relataram que pacientes ainda iniciavam tratamento antes da disponibilidade dos biomarcadores. Custo, tempo de liberação e qualidade das amostras apareceram entre os principais obstáculos. A pesquisa é global e não permite estimar isoladamente a realidade brasileira, porém evidencia uma dificuldade operacional comum a diferentes sistemas de saúde.

Biópsia líquida amplia possibilidades, com limites definidos

A análise de DNA tumoral circulante pode contribuir para a identificação de alterações terapêuticas quando o tecido é insuficiente, a obtenção de uma nova biópsia envolve risco elevado ou se busca investigar mecanismos de resistência. Entretanto, a ausência de uma alteração no plasma não exclui sua presença no tumor. A liberação de DNA tumoral varia conforme carga, localização e características biológicas da doença.

Na detecção precoce, a biópsia líquida permanece em investigação. Um estudo do programa TRACERx, publicado na Nature Medicine, avaliou uma plataforma ultrassensível em 171 pacientes com adenocarcinoma pulmonar inicial. O DNA tumoral circulante foi identificado antes da cirurgia em 81% dos participantes e em 53% daqueles com doença em estágio patológico I. Os próprios autores destacam a necessidade de validação prospectiva antes da incorporação ampla dessa estratégia à prática clínica.

O resultado é promissor, porém não autoriza substituir a tomografia de baixa dose ou a avaliação histopatológica por testes sanguíneos de rastreamento. Sensibilidade nos estágios iniciais, especificidade, custo, padronização e impacto real sobre a mortalidade ainda precisam ser definidos em estudos desenhados para essa finalidade.

Precisão diagnóstica precisa chegar a tempo

Os avanços terapêuticos ampliaram as possibilidades de tratamento, mas dependem de uma sequência diagnóstica bem coordenada. A suspeita radiológica precisa conduzir rapidamente à obtenção de material adequado. O laboratório deve integrar morfologia, imuno-histoquímica e perfil molecular, com resultados claros e clinicamente interpretáveis. A equipe assistencial, por sua vez, precisa receber essas informações antes de definir a estratégia terapêutica sempre que a condição do paciente permitir.

No Dia Mundial de Combate ao Câncer de Pulmão, a mensagem mais consistente combina prevenção, seleção criteriosa para rastreamento e acesso qualificado ao diagnóstico. A tecnologia disponível já permite caracterizar os tumores com uma precisão antes inalcançável. O desafio agora é fazer com que essa precisão chegue ao paciente no momento em que ainda pode modificar sua trajetória clínica.

Referências principais

  1. INCA, Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil
  2. Organização Mundial da Saúde, Lung cancer, atualização de 2026
  3. INCA, câncer de pulmão para profissionais de saúde
  4. NELSON Trial, New England Journal of Medicine
  5. NLST, New England Journal of Medicine
  6. IASLC, diretriz de testes moleculares em câncer de pulmão
  7. IASLC, levantamento global sobre testes de biomarcadores
  8. TRACERx, DNA tumoral circulante no câncer de pulmão inicial, Nature Medicine