O intervalo até a análise e a temperatura de armazenamento podem modificar resultados bioquímicos e hematológicos. Um estudo publicado em 14 de outubro na Scientific Reports documentou essas alterações e mostrou que a refrigeração reduz parte delas, com efeitos diferentes entre os parâmetros avaliados.
O que mudou nas amostras
A pesquisa acompanhou amostras de soro e sangue total com EDTA de 32 voluntários saudáveis. Foram avaliados 27 parâmetros bioquímicos e 26 hematológicos, no momento basal e após quatro, oito e 24 horas, sob temperatura ambiente de 18 a 24 °C ou refrigeração a 4 °C.
Após 24 horas em temperatura ambiente
7,61%
de aumento no hematócrito.
7,51%
de crescimento no volume corpuscular médio.
15,95%
de elevação no RDW-SD.
7,11%
de queda na concentração de hemoglobina corpuscular média.
A refrigeração atenuou essas mudanças eritrocitárias. Já o volume plaquetário médio aumentou nas duas condições, 4,85% em temperatura ambiente e 6,85% a 4 °C. Triglicerídeos e capacidade total de ligação do ferro também apresentaram variações.
Diferença estatística exige interpretação
O estudo tem amostra pequena, composta por adultos saudáveis. Seus autores alertam que as diferenças estatísticas observadas não constituem limites formais de estabilidade analítica ou clínica.
Essa distinção é fundamental para transformar uma observação experimental em procedimento laboratorial. Em recomendações publicadas na Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, o grupo de trabalho de fase pré-analítica da European Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, EFLM, propõe avaliar a mudança ao longo do tempo em conjunto com uma especificação de erro máximo permissível, adequada ao uso pretendido.
O prazo aceitável depende, portanto, das condições investigadas e do critério de desempenho adotado. A recomendação orienta que os estudos considerem tubos, instrumentos, métodos e práticas locais de armazenamento. Também destaca a importância de incluir concentrações próximas dos limites de decisão clínica.
A estabilidade precisa representar a rotina
Para laboratórios que recebem material de unidades de coleta ou de serviços externos, a avaliação deve acompanhar o percurso da amostra. A EFLM recomenda considerar os intervalos habituais de transporte, processamento e análise, além da retenção para eventuais exames adicionais.
O documento diferencia situações que podem exigir investigações próprias, como sangue total mantido antes do processamento e amostras de soro ou plasma armazenadas posteriormente. Temperatura é uma variável relevante, mas seus efeitos não são uniformes entre analitos.
Na prática, isso exige cautela ao transferir um prazo de estabilidade publicado para outro sistema de coleta ou plataforma analítica. Mudanças relevantes nos dispositivos e no desempenho também devem motivar nova verificação, conforme a recomendação europeia.
Transporte e armazenamento precisam deixar registro
O Laboratory Quality Management System Handbook, elaborado pela Organização Mundial da Saúde com participação do CDC e do CLSI, trata o gerenciamento de amostras como parte essencial da confiabilidade dos exames.
O manual orienta estabelecer condições documentadas de armazenamento, controlar a temperatura durante o transporte, definir tempos aceitáveis e acompanhar seu cumprimento. Recomenda ainda um sistema de rastreamento que inclua identificação, data e horário da coleta e informações sobre os exames solicitados.
Esses registros dão ao laboratório elementos para avaliar desvios. Quando as condições de transporte ou conservação não correspondem ao procedimento estabelecido, a decisão sobre aceitar o material precisa seguir critérios documentados. O manual também prevê políticas de rejeição e registro de amostras inadequadas.
A questão central para a medicina laboratorial é preservar a relação entre a condição do paciente e o resultado entregue. Conhecer o desempenho do método é parte desse trabalho. Conhecer o que aconteceu com a amostra até a análise é igualmente necessário.
Referências
Yağan A. e colaboradores. Effects of storage temperature and delayed analysis on routine biochemical and haematological test results. Scientific Reports, 2026.
Acessar o estudo
Gomez-Rioja R. e colaboradores. Recommendation for the design of stability studies on clinical specimens. Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, 2023.
Acessar a publicação
World Health Organization. Laboratory Quality Management System Handbook. 2011.
Acessar o manual