Câncer de mama em homens exige atenção ao diagnóstico | Newslab

Câncer de mama em homens exige atenção ao diagnóstico tardio

Levantamento com registros hospitalares brasileiros aponta maior proporção de doença metastática no público masculino e reforça a importância da investigação clínica, da avaliação anatomopatológica e do aconselhamento genético

O câncer de mama em homens permanece um desafio para o reconhecimento precoce da doença. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Radioterapia, SBRT, com dados dos Registros Hospitalares de Câncer do Instituto Nacional de Câncer (INCA), identificou que 29,95% dos casos masculinos com estadiamento informado estavam no estádio IV, caracterizado pela presença de metástases a distância. Entre as mulheres, a proporção foi de 26,42%. O resultado, divulgado durante o Outubro Rosa, chama a atenção para a investigação de alterações mamárias nesse público.
[1]

Para os serviços de saúde e diagnóstico, o tema envolve uma sequência de decisões. Reconhecer uma alteração suspeita, encaminhar para avaliação por imagem, confirmar a natureza da lesão e caracterizar o tumor são etapas que orientam o cuidado.

O que os registros mostram

A análise da SBRT reuniu mais de 163 mil registros de câncer de mama entre 2020 e 2023, incluindo 2.126 em homens. Quando considerados conjuntamente os estádios III e IV, os percentuais foram próximos, 62,29% no público masculino e 61,57% no feminino. A diferença mais evidente apareceu na doença metastática. Já o estádio I correspondeu a 3,41% dos casos masculinos e 5,45% dos femininos com essa informação disponível.
[1]

Doença metastática nos registros analisados

29,95%
Homens
26,42%
Mulheres

Percentuais referentes aos casos com estadiamento informado no levantamento da SBRT, com dados dos registros hospitalares de 2020 a 2023.
[1]

Esses números precisam ser interpretados de acordo com a natureza da base. Os registros hospitalares descrevem pacientes atendidos nas instituições participantes e permitem acompanhar a assistência oncológica. Conforme ressalta o INCA, seus dados não devem ser utilizados para calcular incidência populacional. Assim, os percentuais apresentados se referem ao conjunto analisado, sem representar uma estimativa da frequência da doença em todos os homens brasileiros.
[2]

Alterações mamárias precisam de investigação

Nódulos ou espessamentos na mama, retração do mamilo, secreção mamilar, especialmente sanguinolenta, e alterações na pele estão entre os sinais que justificam avaliação médica. Linfonodos aumentados na axila também podem integrar a apresentação clínica. O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, NCI, ressalta que alterações mamárias masculinas podem decorrer de condições benignas, mas devem ser examinadas para esclarecer sua origem.
[3]

Uma distinção essencial

A distinção entre rastreamento e investigação diagnóstica é fundamental. O rastreamento procura identificar a doença em pessoas sem sintomas. A investigação parte de uma alteração já percebida ou identificada no exame clínico. A presença de um sinal suspeito exige avaliação própria, independentemente de uma rotina de exames preventivos.

Segundo o NCI, a avaliação pode incluir exame físico, levantamento dos antecedentes pessoais e familiares, mamografia, ultrassonografia e biópsia. A escolha dos procedimentos depende dos achados clínicos.
[3]

Da biópsia aos biomarcadores

Achados suspeitos devem ser esclarecidos por avaliação tecidual, geralmente com biópsia por agulha grossa. O carcinoma ductal invasivo é o tipo histológico predominante em homens, enquanto o carcinoma lobular invasivo é raro. Confirmada a malignidade, a caracterização inclui os receptores de estrogênio e progesterona e o status de HER2, informações que ajudam a orientar o tratamento.
[4]

Nesse processo, a qualidade laboratorial tem consequência clínica direta. As diretrizes da American Society of Clinical Oncology e do College of American Pathologists contemplam validação dos ensaios, fixação das amostras, avaliação de desempenho e critérios padronizados de interpretação dos biomarcadores. Para HER2, resultados imuno-histoquímicos classificados como 2+, equívocos para superexpressão, requerem investigação complementar por hibridização in situ, conforme o algoritmo recomendado.
[5]

O laudo anatomopatológico participa da definição terapêutica ao reunir o diagnóstico morfológico e características relevantes da neoplasia.

Avaliação genética tem implicações para a família

A predisposição hereditária merece atenção específica. Variantes patogênicas em BRCA1 e BRCA2 estão associadas ao aumento do risco de câncer de mama masculino, com associação mais expressiva para BRCA2, segundo o NCI.
[4]

Recomendação da ASCO

A diretriz da American Society of Clinical Oncology publicada no Journal of Clinical Oncology recomenda oferecer aconselhamento genético e testes germinativos de genes de predisposição ao câncer a todos os homens diagnosticados com câncer de mama. A recomendação não fica restrita aos pacientes com histórico familiar conhecido.
[6]

A identificação de uma variante hereditária pode influenciar decisões terapêuticas e trazer informações relevantes para familiares. Por isso, a interpretação do resultado deve integrar o contexto clínico e o aconselhamento genético.
[3]

Tratamento orientado pela extensão e pelo perfil tumoral

O tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia e terapias sistêmicas, conforme a extensão da doença e suas características biológicas. Muitos princípios utilizados no cuidado das mulheres se aplicam aos homens, embora a raridade do câncer de mama masculino limite a disponibilidade de estudos randomizados específicos.
[4]

Para homens com tumores positivos para receptores hormonais e indicação de terapia endócrina adjuvante, a diretriz da ASCO recomenda tamoxifeno por um período inicial de cinco anos. A definição da conduta exige avaliação individual das indicações e contraindicações.
[6]

O levantamento brasileiro reforça uma necessidade concreta na assistência. Alterações mamárias em homens precisam ser reconhecidas, investigadas e encaminhadas com atenção. Entre a primeira suspeita e a escolha do tratamento, a integração entre avaliação clínica, imagem, anatomia patológica e genética fornece as informações necessárias para conduzir cada caso.

Referências

  1. Levantamento da Sociedade Brasileira de Radioterapia com dados dos Registros Hospitalares de Câncer, de 2020 a 2023. Informações divulgadas em 13 de outubro de 2026.
    Consultar publicação.
  2. Instituto Nacional de Câncer. Registros Hospitalares de Câncer e orientações do Integrador RHC sobre a utilização dos dados.
    Consultar informações institucionais.
    Consultar tabulador.
  3. National Cancer Institute, Estados Unidos. Male Breast Cancer.
    Consultar conteúdo.
  4. National Cancer Institute, Estados Unidos. Male Breast Cancer Treatment, PDQ. Health Professional Version.
    Consultar conteúdo técnico.
  5. College of American Pathologists e American Society of Clinical Oncology. HER2 Testing in Breast Cancer. Guideline Update, 2023.
    Consultar diretriz.
  6. Hassett MJ e colaboradores. Management of Male Breast Cancer. ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology, 2020. DOI 10.1200/JCO.19.03120.
    Consultar artigo.