Em 21 de setembro, data que reúne o Dia Mundial da Doença de Alzheimer e o Dia Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer, instituído pela Lei nº 11.736/2008, a discussão científica já não se limita a reconhecer sintomas de perda de memória. O desafio atual é identificar com precisão quem apresenta a biologia da doença, em que estágio ela se encontra e quando essa informação pode modificar a conduta clínica.
A situação chama atenção. A Organização Mundial da Saúde estima que 57 milhões de pessoas viviam com demência em 2021 e que quase 10 milhões de novos casos surgem a cada ano. A doença de Alzheimer responde por cerca de 60% a 70% dos quadros. Em 2026, o avanço dos biomarcadores no sangue, no líquor e na urina, somado à evolução da neuroimagem e das terapias antiamiloide, ampliou as possibilidades diagnósticas. Também tornou indispensável separar disponibilidade comercial, desempenho analítico, validade clínica e utilidade para o paciente.
Até onde os exames já conseguem enxergar o Alzheimer?
Eles podem revelar alterações biológicas antes da demência instalada. Nenhum resultado isolado, porém, informa com certeza se uma pessoa assintomática desenvolverá demência, em quanto tempo isso ocorrerá ou qual será a trajetória individual.
A doença biológica e a síndrome clínica
A revisão dos critérios da Alzheimer’s Association, publicada em 2024, consolidou uma definição biológica baseada em alterações características, principalmente beta-amiloide e tau. Essa formulação aproxima o Alzheimer de outras áreas da medicina nas quais marcadores objetivos ajudam a caracterizar a doença. Ela não elimina a avaliação clínica. Ter um biomarcador positivo não equivale, por si, a ter demência. Pessoas cognitivamente preservadas podem apresentar amiloidose cerebral, enquanto queixas de memória podem decorrer de depressão, distúrbios do sono, medicamentos, alterações metabólicas, doenças vasculares ou outras condições neurológicas.
O diagnóstico responsável começa pela história clínica, pelo relato de familiares quando pertinente, pela avaliação cognitiva e funcional e pelo exame neurológico. Exames laboratoriais gerais ajudam a investigar causas tratáveis ou agravantes, entre elas disfunção tireoidiana, deficiência de vitamina B12, distúrbios metabólicos e alterações hematológicas. A ressonância magnética, ou a tomografia quando a ressonância não é possível, procura padrões de atrofia, doença cerebrovascular, tumores, hidrocefalia e outras explicações estruturais. Biomarcadores específicos entram depois, orientados pela probabilidade clínica e pela pergunta que precisa ser respondida.
O que cada exame acrescenta
| Método | Principal contribuição | Limite essencial |
|---|---|---|
| Avaliação clínica e cognitiva | Demonstra sintomas, perda funcional e padrão de comprometimento. | Não define sozinha a etiologia biológica. |
| Ressonância ou tomografia | Avalia atrofia, lesões vasculares e diagnósticos alternativos. | Achados podem ser inespecíficos, sobretudo nas fases iniciais. |
| PET amiloide ou tau | Mostra a distribuição cerebral da patologia-alvo. | Custo, disponibilidade e exposição à radiação limitam o uso amplo. |
| Líquor | Mede combinações de beta-amiloide e tau com elevada capacidade diagnóstica. | Exige punção lombar e protocolos laboratoriais bem controlados. |
| Sangue | p-tau217, outros analitos tau e razões amiloides podem estimar patologia cerebral. | O desempenho varia por ensaio, plataforma, ponto de corte e população. |
| Urina | Oferece coleta simples e potencial para triagem de baixo custo. | A utilidade clínica e a previsão longitudinal ainda precisam de validação independente. |
| Genética | Identifica variantes causais raras ou estima predisposição. | APOE não confirma diagnóstico e exige aconselhamento apropriado. |
Biomarcadores sanguíneos chegam à prática clínica
Entre os exames de sangue, a tau fosforilada na treonina 217, a p-tau217, tornou-se um dos marcadores mais consistentes da patologia de Alzheimer. Ensaios que medem p-tau217, porcentagem de p-tau217 ou combinações com beta-amiloide podem reduzir a necessidade de PET e punção lombar em pacientes selecionados. A expressão “exame de sangue para Alzheimer”, contudo, abrange produtos com desempenhos muito diferentes.
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 avaliou 49 estudos e 31 testes sanguíneos. A sensibilidade agrupada variou de 49,3% a 91,4%, e a especificidade, de 61,5% a 96,7%. A certeza da evidência oscilou de moderada a muito baixa, com risco de viés frequente. O dado central para laboratórios é claro: resultado de uma plataforma não pode ser transferido automaticamente para outra, e pontos de corte precisam ser validados no contexto de uso pretendido.
A diretriz clínica da Alzheimer’s Association publicada em 2025 propôs critérios mínimos de desempenho em serviços especializados. Testes com sensibilidade igual ou superior a 90% e especificidade de pelo menos 75% podem funcionar como triagem. Para substituir PET amiloide ou biomarcadores do líquor, a recomendação exige sensibilidade e especificidade de pelo menos 90%. O documento se aplica a pessoas com comprometimento cognitivo objetivo e suspeita de Alzheimer em avaliação especializada. Não respalda rastreamento indiscriminado de assintomáticos.
Em 2025, a Food and Drug Administration dos Estados Unidos autorizou o primeiro teste sanguíneo destinado a auxiliar o diagnóstico, baseado na razão plasmática p-tau217/beta-amiloide 1-42. A indicação contempla adultos a partir de 55 anos com sinais ou sintomas de declínio cognitivo. A própria agência ressalta que o ensaio não é teste de rastreamento e não deve ser usado isoladamente.
Exame de urina existe, mas sua posição clínica ainda está em construção
Testes urinários voltados à triagem de risco de demência já são comercializados no Brasil e em outros mercados, inclusive em formato rápido. Essa disponibilidade merece ser registrada. Ela não resolve, sozinha, a questão científica. Há diferentes tecnologias urinárias, com analitos, anticorpos, métodos e finalidades que não devem ser tratados como equivalentes.
Uma das linhas mais antigas investiga a proteína neuronal associada ao Alzheimer AD7c-NTP. Estudos indexados no PubMed identificaram concentrações aumentadas em alguns grupos com Alzheimer ou comprometimento cognitivo leve. Os resultados não foram uniformes. Em um estudo com 297 participantes, o marcador não se mostrou elevado em pessoas com declínio cognitivo subjetivo. Trabalho posterior com 453 participantes indicou que indicadores de função renal e hepática podem influenciar sua concentração urinária.
A evidência mais diretamente relacionada aos testes rápidos atuais foi publicada em 2025 no Journal of Alzheimer’s Disease e está indexada no PubMed. Os pesquisadores desenvolveram uma tira qualitativa de fluxo lateral para detectar fragmentos urinários da proteína precursora de beta-amiloide que contêm beta-amiloide. A avaliação incluiu 4.418 participantes de uma coorte chinesa, 408 pessoas de um hospital em Chengdu e 367 integrantes do estudo australiano AIBL. Houve aumento da positividade com a idade na coorte populacional, concordância considerada boa na coorte clínica chinesa e diferenças entre controles e pacientes em análises específicas do grupo australiano.
O limite que não pode desaparecer da notícia
O estudo de 2025 sustenta potencial para triagem inicial, não demonstra que o teste preveja individualmente o Alzheimer 18 ou 20 anos antes dos sintomas. O desenho não acompanhou pessoas assintomáticas por duas décadas para verificar quem desenvolveria a doença. Os autores pedem estudos longitudinais adicionais. O artigo também declara duas patentes relacionadas à tecnologia e informa que um dos inventores possui participação na empresa desenvolvedora. Esses vínculos não invalidam os dados, mas reforçam a necessidade de replicação independente.
O intervalo de 10 a 20 anos frequentemente citado na comunicação pública refere-se à história natural do Alzheimer, na qual alterações biológicas podem começar muito antes da manifestação clínica. Esse conhecimento não prova que qualquer teste de urina disponível consiga determinar hoje quem terá demência duas décadas mais tarde. A distinção é essencial para evitar sobrediagnóstico, ansiedade, exames confirmatórios desnecessários e intervenções sem benefício demonstrado.
Em 2026, os grandes critérios diagnósticos e a diretriz clínica de biomarcadores citada nesta matéria dão papel definido a PET, líquor e testes sanguíneos que atinjam requisitos de desempenho em pessoas com comprometimento cognitivo. Ainda não atribuem a um teste urinário qualitativo a função de confirmar Alzheimer, substituir os métodos de referência ou rastrear a população assintomática. O lugar mais prudente da urina, quando utilizada, é o de ferramenta auxiliar de triagem, sempre vinculada a avaliação clínica e a um fluxo confirmatório.
Predição não é prevenção
Um exame pode medir um marcador de doença, estimar probabilidade ou indicar necessidade de investigação. Ele não previne o Alzheimer por si. A prevenção, no estado atual da ciência, significa reduzir risco ao longo da vida, tratar condições associadas e preservar reserva cognitiva e saúde vascular. Também exige políticas públicas, porque escolaridade, poluição, acesso a cuidado auditivo e visual e desigualdade social não dependem apenas de escolhas individuais.
A Comissão Permanente da Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado das demências estimou em 2024 que cerca de 45% dos casos de demência poderiam, em nível populacional, ser prevenidos ou postergados pela abordagem de 14 fatores modificáveis. A lista reúne baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, traumatismo craniano, poluição do ar, isolamento social, colesterol LDL elevado e perda visual não tratada. A estimativa se refere às demências em conjunto e descreve fração populacional potencialmente modificável. Ela não significa que 45% dos casos individuais serão evitados, nem transforma hábitos saudáveis em garantia contra Alzheimer.
As recomendações atualizadas da OMS priorizam atividade física, abandono do tabaco, redução do consumo nocivo de álcool, alimentação equilibrada, participação social e cognitiva, peso adequado e controle de pressão arterial, colesterol e glicemia. Correção de perdas auditivas e redução da exposição à poluição também integram a agenda de redução de risco.
Tratamento combina controle de sintomas, cuidado integral e terapias modificadoras
Donepezila, rivastigmina e galantamina atuam sobre a neurotransmissão colinérgica e podem oferecer benefício sintomático em pacientes selecionados. A memantina, antagonista do receptor NMDA, é utilizada sobretudo em fases moderadas ou avançadas, conforme avaliação clínica. Essas medicações não removem a causa da doença e não interrompem a neurodegeneração. A revisão periódica de resposta, tolerabilidade, adesão e interações medicamentosas continua indispensável.
Lecanemabe e donanemabe inauguraram uma etapa de terapias dirigidas à beta-amiloide para pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve por Alzheimer, com confirmação da patologia amiloide. São tratamentos de indicação restrita, infusão e monitoramento especializados. Alterações de imagem relacionadas à amiloide, conhecidas como ARIA, podem incluir edema e micro-hemorragias cerebrais. Ressonâncias de controle, avaliação de risco hemorrágico, uso concomitante de anticoagulantes e genótipo APOE entram na decisão compartilhada.
A revisão Cochrane publicada em 2026 reuniu 17 ensaios randomizados, 20.342 participantes e sete anticorpos antiamiloide. Na análise da classe, o efeito médio sobre cognição e gravidade da demência aos 18 meses foi considerado trivial, e o benefício funcional, pequeno no melhor cenário. Houve aumento de ARIA. A síntese inclui medicamentos de gerações e resultados distintos, por isso não responde se todos os agentes têm o mesmo desempenho. Ainda assim, oferece uma referência rigorosa para comunicar expectativas: redução de placas amiloides não equivale a cura, recuperação cognitiva ou benefício amplo para qualquer paciente.
Intervenções não farmacológicas permanecem parte central do cuidado. Atividade física adaptada, reabilitação, estimulação cognitiva, rotina estruturada, correção de déficits sensoriais, cuidado nutricional, participação social e apoio aos cuidadores podem melhorar funcionamento e qualidade de vida. Sintomas comportamentais pedem investigação de dor, infecção, constipação, privação de sono, sobrecarga ambiental e efeitos de medicamentos antes da prescrição de antipsicóticos.
O laboratório assume uma responsabilidade maior
A expansão dos biomarcadores desloca parte da complexidade diagnóstica para o laboratório clínico. Validação analítica, rastreabilidade metrológica, estabilidade pré-analítica, interferentes, definição de zonas intermediárias, controle externo da qualidade e comunicação do contexto de uso tornam-se decisivos. Em sangue, função renal, idade, comorbidades e diferenças entre plataformas podem alterar a interpretação. Em urina, concentração da amostra, momento da coleta, função renal e natureza qualitativa ou quantitativa do ensaio exigem atenção equivalente.
Laudos devem informar o analito, a metodologia, o ponto de corte, a finalidade validada e as limitações. Expressões como “positivo para Alzheimer” são inadequadas quando o método apenas identifica um biomarcador associado ou um sinal de risco. Resultados limítrofes precisam de uma rota definida. O mesmo vale para resultados discordantes entre clínica, sangue, líquor e imagem.
O princípio que organiza a prática em 2026
Quanto mais cedo e mais acessível é o exame, maior precisa ser o rigor sobre quem testar, o que o resultado significa e qual conduta comprovadamente útil virá depois. Um biomarcador só produz valor clínico quando melhora uma decisão real.
O Alzheimer pode começar biologicamente anos antes da demência, mas a medicina ainda não dispõe de um exame universal capaz de antecipar com certeza o destino de uma pessoa assintomática. Sangue, líquor, imagem, genética e urina ocupam estágios diferentes de maturidade científica. Reconhecer essa diferença não reduz a importância das novas tecnologias. Ao contrário, protege sua credibilidade e orienta a inovação para a pergunta que realmente importa: se o resultado modifica, com segurança, a vida do paciente.
Referências
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