Fibrose cística no Brasil: terapia tripla muda desfechos | Newslab

Fibrose cística no Brasil: terapia tripla muda desfechos e reforça valor do diagnóstico precoce

Dados nacionais de vida real registram melhora da função pulmonar, redução do cloreto no suor e menor necessidade de antibiótico intravenoso. Os resultados ampliam a importância da triagem neonatal, do teste do suor e da genotipagem do CFTR

No Dia Mundial da Fibrose Cística, celebrado em 8 de setembro, o Brasil chega à data com uma mudança concreta na assistência à doença. O relatório mais recente do Registro Brasileiro de Fibrose Cística (REBRAFC), publicado em agosto de 2026 com dados de 2024, começa a mostrar em escala nacional os efeitos da incorporação da combinação elexacaftor, tezacaftor e ivacaftor, conhecida pela sigla ETI, ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Os números ajudam a dimensionar essa transição. O REBRAFC reúne 6.194 pessoas cadastradas e analisou dados de acompanhamento de 4.007 indivíduos em 2024. Naquele ano, 1.815 utilizavam algum modulador da proteína CFTR, dos quais 1.743 recebiam ETI. Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde informou que mais de 2,4 mil pacientes já eram beneficiados pela terapia na rede pública.

Essa expansão coincide com mudanças relevantes nos indicadores nacionais. O registro contabilizou 22 óbitos em 2024, ante 49 em 2023 e 55 em 2022. O número de transplantes pulmonares caiu cerca de 50% desde 2022. Na população acompanhada como um todo, o volume expiratório forçado no primeiro segundo, o VEF1, apresentou ganho de aproximadamente 4% em relação ao ano anterior.

Os resultados são expressivos, porém precisam ser interpretados com rigor. Comparações anuais de um registro observacional não provam que toda a mudança decorreu exclusivamente do medicamento. Diferenças no número de pacientes acompanhados, no perfil clínico da população e em outras práticas assistenciais podem influenciar os desfechos. Ainda assim, a direção dos achados brasileiros é coerente com os ensaios clínicos que estabeleceram a eficácia da terapia tripla e com dados de vida real obtidos em outros países.

O que mudou com os moduladores da CFTR

A fibrose cística é uma doença genética de herança autossômica recessiva. Alterações nas duas cópias do gene CFTR comprometem o funcionamento de uma proteína que regula o transporte de íons e água pela membrana das células. Como consequência, secreções ficam desidratadas e mais espessas. O impacto aparece principalmente nos pulmões, no pâncreas, no intestino, nos seios da face e no sistema reprodutivo.

Durante décadas, o tratamento concentrou-se nas consequências da doença, com fisioterapia respiratória, medicamentos para tornar o muco menos viscoso, antibióticos, reposição de enzimas pancreáticas, suporte nutricional e manejo das complicações. Essas medidas continuam essenciais. Os moduladores acrescentaram uma abordagem dirigida ao defeito molecular, pois melhoram a quantidade ou a atividade da proteína CFTR em pessoas com variantes genéticas responsivas.

Na combinação ETI, elexacaftor e tezacaftor favorecem o processamento e a chegada da proteína CFTR à superfície celular. O ivacaftor aumenta a probabilidade de abertura do canal. O efeito depende do genótipo, razão pela qual a análise molecular deixou de ter função apenas diagnóstica e passou a orientar o acesso ao tratamento.

O ensaio clínico de fase 3 que fundamentou o uso de ETI em pessoas com ao menos uma variante F508del mostrou aumento de 14,3 pontos percentuais no VEF1 previsto ao longo de 24 semanas, redução de 63% na taxa anualizada de exacerbações pulmonares e queda de 41,8 mmol/L no cloreto do suor em comparação com placebo. Esses achados foram publicados em 2019 no The New England Journal of Medicine.

Dados de vida real confirmam resposta na população brasileira

O primeiro Relatório Nacional de Monitoramento dos Moduladores de CFTR no SUS avaliou 647 crianças, adolescentes e adultos com pelo menos uma variante F508del, tratados com ETI em 39 centros de referência. Por se tratar de acompanhamento da prática clínica, a quantidade de informações disponíveis variou conforme o desfecho. As análises consideraram pacientes que tinham medidas antes e depois do início do tratamento.

Entre 245 pessoas com espirometrias pareadas, o VEF1 médio passou de 72,89% para 83,70% do valor previsto após um período de 8 a 14 meses. O ganho absoluto médio foi de 10,81 pontos percentuais.

O teste do suor também captou a restauração parcial da função da CFTR. Entre 200 pacientes com resultados pareados, a concentração média de cloreto caiu de 93,02 para 44,46 mmol/L, uma redução média de 48,56 mmol/L. Após o início da terapia, 34,1% apresentaram concentração inferior a 30 mmol/L, faixa considerada normal no relatório.

Outro indicador relevante foi a necessidade de antibiótico intravenoso, utilizado em exacerbações pulmonares mais graves. Entre os pacientes com informações comparáveis, a média caiu de 19,16 dias nos 12 meses anteriores ao tratamento para 0,71 dia durante o acompanhamento. A redução média foi de 17,5 dias.

O perfil de segurança observado foi considerado favorável. Entre 468 pessoas com dados disponíveis, 18,2% relataram ao menos um evento adverso. Cefaleia, desconforto abdominal, dor epigástrica, ansiedade e náusea estiveram entre as manifestações mais frequentes. A maioria dos eventos foi leve ou moderada. Em alguns casos, houve necessidade de interrupção temporária ou ajuste do esquema, com posterior reintrodução.

Esses resultados não significam cura. Pessoas em uso de moduladores continuam precisando de acompanhamento em centros especializados, vigilância da função pulmonar e hepática, avaliação nutricional, cultura de secreções respiratórias e definição individualizada das demais terapias. O seguimento prolongado será necessário para esclarecer a durabilidade dos benefícios e eventos menos frequentes.

O diagnóstico precoce ganhou ainda mais importância

Uma terapia capaz de modificar a fisiopatologia aumenta o custo clínico de cada diagnóstico tardio. O teste do pezinho permite identificar recém-nascidos com maior probabilidade de fibrose cística por meio da dosagem de tripsinogênio imunorreativo. Esse resultado é uma triagem, não uma confirmação diagnóstica.

Quando a triagem é alterada, a investigação deve avançar rapidamente para o teste quantitativo do cloreto no suor em serviço habilitado. A interpretação reúne resultado laboratorial, sinais clínicos e, quando indicado, estudo molecular do gene CFTR. Concentrações de cloreto no suor iguais ou superiores a 60 mmol/L sustentam o diagnóstico no contexto adequado. Valores intermediários exigem avaliação especializada e exames complementares.

O próprio REBRAFC mostra a diferença de tempo criada pela triagem neonatal. Entre as pessoas identificadas por esse caminho, a mediana de idade ao diagnóstico foi de 1,77 mês. Nos casos sem a triagem como elemento diagnóstico, a mediana chegou a 53,44 meses. Como o registro reúne pessoas diagnosticadas em diferentes períodos e por protocolos distintos, a comparação não deve ser lida como uma estimativa causal isolada. Ela evidencia, contudo, a capacidade da triagem de encurtar a jornada até o centro de referência.

A vigilância clínica permanece necessária mesmo diante de um teste do pezinho sem alteração. Tosse persistente, pneumonias de repetição, dificuldade para ganhar peso ou crescer, fezes volumosas e gordurosas, diarreia recorrente, suor muito salgado, pólipos nasais, pancreatite sem causa esclarecida e infertilidade masculina podem justificar investigação. Uma triagem negativa reduz a probabilidade da doença, porém não exclui todos os casos.

Genotipagem tornou-se parte da decisão terapêutica

O relatório brasileiro informa que 89,5% dos indivíduos cadastrados realizaram algum teste genético. Há uma limitação importante: a base não registra qual metodologia foi empregada. Alguns pacientes podem ter sido avaliados apenas para F508del ou por painéis restritos, enquanto outros passaram por sequenciamento mais abrangente do CFTR.

Essa diferença importa em uma população geneticamente diversa. O REBRAFC identificou 393 variantes distintas, e uma parcela dos resultados permaneceu inconclusiva. Quando a suspeita clínica e o teste do suor sustentam a investigação, um painel negativo limitado não encerra necessariamente o caso. O laboratório e a equipe assistencial devem avaliar a necessidade de sequenciamento mais amplo e pesquisa de deleções ou duplicações, conforme o contexto.

No SUS, o PCDT vigente contempla ETI para pessoas a partir de seis anos com pelo menos uma variante F508del. Em maio de 2026, o GBEFC, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia publicaram parecer favorável à ampliação do acesso para crianças de dois a cinco anos e para pessoas com variantes raras responsivas, mediante critérios clínicos e monitoramento. O debate expõe a fronteira atual do cuidado: ampliar o benefício sem perder rigor na indicação, na avaliação de segurança e na sustentabilidade do acesso.

A próxima etapa é evitar que o avanço seja desigual

O cenário brasileiro mostra que uma terapia de precisão pode produzir ganhos mensuráveis fora dos ensaios clínicos. Ele também revela os pontos em que a assistência pode falhar: coleta tardia do teste do pezinho, demora para confirmar um resultado alterado, oferta desigual do teste do suor, investigação molecular incompleta e dificuldade de encaminhamento a centros especializados.

Diretrizes internacionais publicadas em 2025 chamaram atenção para outro problema, painéis de variantes pouco representativos podem reduzir a sensibilidade da triagem em grupos de diferentes ancestralidades. Entre as recomendações estão algoritmos que combinem o tripsinogênio imunorreativo com painéis genéticos mais abrangentes e, quando necessário, uma etapa de sequenciamento. Embora formuladas para o sistema norte-americano, essas recomendações trazem uma questão pertinente ao Brasil, a diversidade genética precisa ser considerada no desenho dos testes.

No Dia Mundial da Fibrose Cística, os dados permitem uma mensagem menos abstrata. O tratamento avançou e já modifica indicadores clínicos no país. Para que esse benefício comece antes do dano pulmonar e nutricional acumulado, cada etapa precisa funcionar no tempo certo: triagem, confirmação laboratorial, caracterização genética, encaminhamento e cuidado contínuo.

Referências

  1. Grupo Brasileiro de Estudos em Fibrose Cística. Registro Brasileiro de Fibrose Cística, Relatório Anual de 2024. Publicado em agosto de 2026.
  2. Grupo Brasileiro de Estudos em Fibrose Cística. Relatório Nacional de Monitoramento, Moduladores de CFTR no SUS. Março de 2026.
  3. Ministério da Saúde. Medicamento ofertado no SUS reduz internações de pessoas com fibrose cística. Agosto de 2026.
  4. Ministério da Saúde e Conitec. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 30 de abril de 2024, que aprova o PCDT da Fibrose Cística.
  5. Middleton PG et al. Elexacaftor, Tezacaftor and Ivacaftor for Cystic Fibrosis with a Single Phe508del Allele. New England Journal of Medicine. 2019;381:1809-1819.
  6. McGarry ME et al. Cystic Fibrosis Newborn Screening: A Systematic Review Driven Consensus Guideline from the United States Cystic Fibrosis Foundation. International Journal of Neonatal Screening. 2025;11(2):39.
  7. Grupo Brasileiro de Estudos em Fibrose Cística, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Parecer técnico-científico sobre ETI em crianças de dois a cinco anos e pessoas com variantes raras do CFTR. Maio de 2026.