Prevenção e controle do colesterol: o que mudou em 2026 | Newslab

Colesterol além do resultado: novas diretrizes refinam a prevenção cardiovascular

No Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, avanços recentes deslocam a atenção do colesterol total para a carga de partículas aterogênicas, a exposição ao LDL ao longo da vida e biomarcadores capazes de revelar riscos que o lipidograma convencional pode não mostrar por completo.

Celebrado em 8 de agosto, o Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol chega a 2026 em um momento particularmente relevante para a medicina cardiovascular e para o laboratório clínico. Nos últimos meses, novas recomendações nacionais e internacionais ampliaram a forma de avaliar as dislipidemias. A pergunta deixou de ser simplesmente se o colesterol está “alto” ou “normal”. Hoje, importa saber qual partícula está elevada, por quanto tempo o organismo esteve exposto a ela e qual é o risco cardiovascular daquele indivíduo.

A mudança tem base consistente. As doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morte no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 19,8 milhões de pessoas morreram por doenças cardiovasculares em 2022, o equivalente a cerca de 32% de todas as mortes globais. Infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral responderam por aproximadamente 85% desses óbitos.

Nesse cenário, o LDL colesterol ocupa posição central. Evidências provenientes de estudos genéticos, epidemiológicos e ensaios clínicos sustentam uma relação causal entre partículas que contêm apolipoproteína B, sobretudo LDL, e o desenvolvimento da doença cardiovascular aterosclerótica. O problema, portanto, não se resume a um resultado laboratorial fora de uma faixa de referência. Envolve a carga aterogênica acumulada ao longo da vida.

LDL colesterol: a exposição também importa

O colesterol é indispensável à fisiologia humana. Participa da estrutura das membranas celulares e da síntese de hormônios esteroides e ácidos biliares. Como é pouco solúvel no meio aquoso do plasma, seu transporte ocorre associado a lipoproteínas.

É justamente nesse ponto que a conhecida divisão entre “colesterol bom” e “colesterol ruim” começa a perder precisão científica. LDL e HDL são lipoproteínas. Quando o laboratório informa LDL-c, está estimando ou mensurando a quantidade de colesterol transportada pelas partículas de LDL. O risco aterosclerótico, contudo, está relacionado à presença e à retenção de partículas contendo apolipoproteína B na parede arterial.

Um amplo conjunto de evidências analisado pelo Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration mostrou que, para cada redução de aproximadamente 1 mmol/L, ou 38,7 mg/dL, no LDL-c obtida com estatinas, houve redução relativa em torno de 21% na ocorrência de eventos vasculares maiores. Os resultados foram publicados no The Lancet e constituem parte importante da base científica para as atuais estratégias de redução de LDL.

A duração da exposição é igualmente relevante. Estudos genéticos demonstram que indivíduos expostos desde cedo a concentrações menores de LDL apresentam menor risco de doença cardiovascular ao longo da vida. Em direção oposta, condições como a hipercolesterolemia familiar submetem o sistema arterial a concentrações elevadas de LDL desde a infância.

Essa perspectiva ajuda a explicar por que a prevenção contemporânea está se deslocando para fases cada vez mais precoces da vida.

O mesmo LDL pode ter significados clínicos diferentes

Uma das mudanças conceituais mais importantes da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025, elaborada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, está no reforço de que a interpretação do LDL-c depende da estratificação de risco cardiovascular.

Consequentemente, não existe um único valor de LDL-c que possa ser classificado como ideal para todas as pessoas.

Risco cardiovascular Meta de LDL-c Meta de colesterol não HDL
Baixo < 115 mg/dL < 145 mg/dL
Intermediário < 100 mg/dL < 130 mg/dL
Alto < 70 mg/dL < 100 mg/dL
Muito alto < 50 mg/dL < 80 mg/dL
Extremo < 40 mg/dL < 70 mg/dL

Para indivíduos classificados como de risco baixo ou intermediário, a diretriz recomenda redução de pelo menos 30% do LDL-c quando houver indicação terapêutica. Nos grupos de risco alto, muito alto ou extremo, a redução recomendada é de pelo menos 50%.

A categoria de risco extremo é uma das novidades do documento brasileiro e contempla situações de carga cardiovascular particularmente elevada. Nesses pacientes, a meta de LDL-c inferior a 40 mg/dL reflete o conjunto de evidências segundo o qual indivíduos com risco basal muito elevado obtêm maior benefício absoluto com reduções mais intensas das lipoproteínas aterogênicas.

A orientação brasileira acompanha uma tendência internacional. Em março de 2026, a American Heart Association e o American College of Cardiology publicaram uma nova diretriz sobre manejo das dislipidemias, substituindo o documento norte-americano de 2018 e recuperando metas de LDL-c e colesterol não HDL definidas de acordo com o risco cardiovascular.

O lipidograma convencional continua essencial, mas já não conta toda a história

Colesterol total, HDL-c, LDL-c e triglicérides permanecem fundamentais na rotina diagnóstica. O avanço recente está na possibilidade de extrair informações adicionais sobre a carga de lipoproteínas aterogênicas.

O colesterol não HDL é um exemplo. Obtido pela diferença entre colesterol total e HDL-c, ele representa o colesterol transportado pelo conjunto das lipoproteínas potencialmente aterogênicas. Segundo a diretriz brasileira de 2025, sua utilização é particularmente útil quando os triglicérides estão acima de 150 mg/dL.

Há uma vantagem operacional importante para o laboratório: o parâmetro pode ser calculado a partir do próprio perfil lipídico, sem necessidade de novo ensaio.

Outro marcador ganha espaço nessa avaliação, a apolipoproteína B.

ApoB: quando interessa contar partículas

Cada partícula aterogênica de LDL, VLDL, remanescentes e Lp(a) apresenta uma molécula de ApoB. A concentração de ApoB funciona, portanto, como uma aproximação direta do número de partículas aterogênicas circulantes.

Essa distinção pode ser relevante porque duas pessoas com concentrações semelhantes de LDL-c podem apresentar quantidades diferentes de partículas de LDL.

Uma análise publicada em 2024 no European Heart Journal, baseada em 293.876 participantes do UK Biobank, demonstrou que a ApoB acrescentou informação sobre risco cardiovascular mesmo depois de considerados LDL-c, colesterol não HDL e triglicérides. Durante acompanhamento mediano de 11 anos, ocorreram 19.982 novos eventos de doença cardiovascular aterosclerótica.

A diretriz brasileira recomenda considerar a ApoB especialmente em situações nas quais os triglicérides estão elevados e em cenários de possível discordância entre a quantidade de colesterol e o número de partículas aterogênicas.

Isso ganha relevância em pacientes com diabetes, síndrome cardiometabólica e hipertrigliceridemia, nos quais um LDL-c aparentemente controlado pode não representar integralmente a carga de partículas aterogênicas.

Lp(a): um exame para ser feito ao menos uma vez

Entre as mudanças de maior impacto para a medicina laboratorial está a valorização da lipoproteína(a), ou Lp(a).

A Lp(a) apresenta estrutura semelhante à LDL, com uma molécula adicional de apolipoproteína(a). Evidências epidemiológicas e genéticas sustentam sua associação causal com doença cardiovascular aterosclerótica e estenose calcificada da valva aórtica. Um consenso da European Atherosclerosis Society já havia consolidado essa relação.

Diferentemente de outros componentes do perfil lipídico, a concentração de Lp(a) é determinada predominantemente pela genética e permanece relativamente estável ao longo da vida. Alimentação e atividade física têm influência limitada sobre seus níveis.

Por esse motivo, a diretriz brasileira recomenda a dosagem de Lp(a) ao menos uma vez na vida em adultos, quando disponível. Valores iguais ou superiores a 50 mg/dL ou 125 nmol/L são considerados agravantes de risco. O documento ressalta uma particularidade analítica importante: não se recomenda converter matematicamente mg/dL em nmol/L, porque diferenças estruturais entre isoformas da apolipoproteína(a) impedem uma conversão suficientemente precisa.

A diretriz norte-americana de 2026, publicada poucos meses depois, passou igualmente a recomendar que adultos realizem a avaliação de Lp(a) pelo menos uma vez.

Há, portanto, uma convergência importante entre recomendações recentes. O risco lipídico contemporâneo começa a ser entendido para além do LDL-c isoladamente.

A fase pré-analítica também entrou na discussão

Para os laboratórios clínicos, a atualização brasileira traz orientações que atingem diretamente a rotina.

O jejum não é considerado necessário para a avaliação lipídica inicial de grande parte dos pacientes. Colesterol total, HDL-c, LDL-c e colesterol não HDL apresentam pouca influência do estado alimentar. Os triglicérides são a fração mais suscetível à variação pós-prandial.

Quando os triglicérides ultrapassam 440 mg/dL em uma amostra coletada sem jejum, a diretriz recomenda, segundo avaliação médica, nova coleta após 12 horas de jejum.

Outro detalhe aparentemente simples possui relevância analítica. A manutenção prolongada do torniquete pode provocar hemoconcentração e interferir nos resultados. O documento recomenda liberá-lo assim que a agulha tenha penetrado a veia.

A informação sobre a condição de coleta também deve acompanhar o resultado. A diretriz orienta que o laboratório informe no laudo se a amostra foi obtida sem jejum ou após 12 horas de jejum e apresente valores adequados de referência para triglicérides conforme essa condição.

São recomendações que reforçam um princípio básico da medicina laboratorial: precisão analítica perde valor quando as variáveis pré-analíticas são negligenciadas.

Hipercolesterolemia familiar: quando o diagnóstico precisa começar cedo

A discussão sobre prevenção do colesterol também passa obrigatoriamente pela hipercolesterolemia familiar, uma das doenças genéticas mais frequentes associadas ao risco cardiovascular.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em Circulation, reunindo dados de mais de 7 milhões de indivíduos, estimou prevalência global de aproximadamente um caso de hipercolesterolemia familiar heterozigótica para cada 311 pessoas.

A doença provoca exposição elevada ao LDL desde o nascimento. Por isso, identificar um caso pode ter implicações para toda uma família.

A diretriz brasileira de 2025 recomenda rastreamento universal do perfil lipídico entre 9 e 11 anos e novamente entre 17 e 21 anos. Entre 2 e 8 anos e dos 12 aos 16 anos, o rastreamento seletivo é indicado diante de fatores específicos, como história familiar de hipercolesterolemia ou doença cardiovascular prematura.

O diagnóstico de um indivíduo com hipercolesterolemia familiar também abre espaço para rastreamento em cascata entre familiares. Nesse contexto, o laboratório deixa de participar apenas do diagnóstico de um paciente e passa a contribuir para a identificação precoce de indivíduos geneticamente expostos ao risco.

A fronteira agora está na Lp(a)

A Lp(a) representa ainda uma das áreas mais ativas da pesquisa cardiovascular. Diferentes estratégias baseadas em oligonucleotídeos antissenso e RNA interferente conseguem produzir reduções expressivas dessa lipoproteína em estudos clínicos. A questão decisiva, contudo, permanece em aberto: reduzir laboratorialmente a Lp(a) resultará em menor ocorrência de eventos cardiovasculares?

Em agosto de 2026, essa resposta ainda não está disponível.

O estudo de fase 3 Lp(a)HORIZON, com mais de 8 mil participantes e pelacarsena, foi desenhado justamente para avaliar desfechos cardiovasculares em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e Lp(a) elevada. Em sua atualização corporativa de julho de 2026, a Novartis ainda situava a divulgação desses dados entre os eventos clínicos aguardados para o segundo semestre. Outros programas com olpasirana e lepodisirana seguem em desenvolvimento.

É uma distinção essencial. Reduzir um biomarcador não demonstra, por si, benefício clínico. Ensaios de desfechos são necessários para estabelecer se a modificação da Lp(a) se traduz efetivamente em prevenção de infarto, AVC e outras complicações cardiovasculares.

Do resultado laboratorial à prevenção

O Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol encontra, em 2026, uma medicina cardiovascular mais precisa do que aquela baseada exclusivamente no colesterol total.

LDL-c permanece como o principal alvo lipídico terapêutico, respaldado por décadas de evidências. Ao seu redor, colesterol não HDL, ApoB e Lp(a) permitem caracterizar melhor a carga aterogênica e reconhecer situações em que um lipidograma aparentemente pouco expressivo pode subestimar o risco.

Para o laboratório clínico, essa evolução amplia a responsabilidade sobre a qualidade da fase pré-analítica, a escolha e padronização dos métodos, a apresentação dos resultados e a comunicação adequada das metas vinculadas ao risco cardiovascular.

O exame continua começando em um tubo de sangue. Sua interpretação, porém, está cada vez menos confinada a uma única concentração.

Referências essenciais

  1. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025
  2. American Heart Association, 2026 Guideline on the Management of Dyslipidemia
  3. World Health Organization, Cardiovascular diseases, atualização de 2025
  4. Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration, The Lancet
  5. Sniderman et al. ApoB e discordância de marcadores lipídicos, European Heart Journal, 2024
  6. European Atherosclerosis Society, consenso sobre Lp(a)
  7. Hu et al. Prevalência de hipercolesterolemia familiar, Circulation