“Tive um fim de semana terrível, porque me senti completamente indigno.” Foi assim que o cientista Paul Nurse descreveu, a um amigo, os dias depois de receber o Prémio Nobel. Este episódio, citado num estudo do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), com investigadores em Portugal e no Brasil, publicado na International Journal of Health Science (ISSN 2764-0159), da Atena Editora, uma das maiores editoras académicas do Brasil, ilustra um fenómeno que, segundo os autores, afeta de forma particularmente intensa pessoas com QI elevado: a síndrome do impostor.
Segundo o estudo, pessoas com QI elevado que sofrem desta síndrome tendem a alcançar grande sucesso académico e profissional, mas sentem-se inseguras porque não acreditam ter tido um papel real nessa conquista, atribuindo o resultado à sorte, ao acaso ou ao trabalho de outras pessoas envolvidas.
Para o autor principal do estudo, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Pós-Doutor em Neurociências e Diretor Científico do CPAH, existe uma ligação direta entre a capacidade analítica elevada e este tipo de insegurança. “Pessoas com QI elevado, devido à sua capacidade analítica acentuada, conseguem ver além do óbvio e observar a complexidade de um projeto com mais profundidade. Isso, paradoxalmente, reduz a sensação de responsabilidade pelo próprio sucesso. A pessoa vê tantas variáveis que contribuíram para o resultado, sinergia da equipa, contexto favorável, estratégia bem executada, que acaba por diluir o seu próprio mérito”, explica.
O estudo recorre à Escala Clance do Fenómeno do Impostor para identificar cinco sinais principais associados à síndrome: ansiedade generalizada, baixa autoestima, depressão, esgotamento e falta de autoconfiança. Os autores descrevem ainda cinco fases psicológicas típicas vividas por quem sofre da síndrome, desde a pressão de um prazo até ao sucesso da tarefa e à crença recorrente de que o sofrimento é necessário para alcançar resultados.
Um dado recolhido através da plataforma de genómica do CPAH, o Genetic Intelligence Project (GIP), reforça a dimensão do problema: numa análise a 20 pessoas com QI superior a 130 pontos, diagnosticado através de testes padronizados como o WAIS, todas relataram ter sentido esta síndrome em algum grau.
“Num momento em que se fala tanto de saúde mental no trabalho e de esgotamento profissional, sobretudo entre pessoas em posições de elevado desempenho, este estudo traz um alerta importante: o perfeccionismo, tão comum em pessoas com QI elevado, não é apenas uma característica de personalidade, é um fator de risco direto para a síndrome do impostor. E a boa notícia é que trabalhar a autoestima e o perfeccionismo é descrito na literatura como o ‘ponto-chave’ para reduzir a gravidade da síndrome”, afirma Fabiano de Abreu.
O artigo foi assinado também por Luiz Felipe Chaves Carvalho, Cirurgião Ortopédico e Traumatologista, Especialista em Cirurgia da Coluna e Mestre em Neurociências, certificado pela American Academy of Regenerative Medicine; por Mirian Coden, Doutora em Educação, do Nortus Scientific Center; por Marco Aurélio Brocolli Lima, Bacharel em Administração de Empresas e Especialista em Gestão Empresarial, Business Intelligence e Ciência de Dados e Inteligência Artificial, do Departamento de Neuronegócios do CPAH; e por Ravi Kaiut, Bacharel em Naturopatia, Mestre em Neurociência e Comportamento e Especialista em Neurociência, do Kaiut Yoga Institute.
O CPAH é um centro de pesquisa sem fins lucrativos, com investigadores em Portugal e no Brasil, sustentado por parceiros e investimento próprio, criado para dar estrutura a investigadores afastados do meio académico e a autodidatas, e que reúne atualmente a maior concentração de pessoas sobredotadas entre os seus membros.