Investigar exaustivamente um problema, mapear todos os cenários possíveis e, no momento em que deveria surgir uma decisão, ficar imóvel. Esta é uma descrição recorrente feita por clínicos, investigadores e pelas próprias pessoas com QI muito elevado, segundo um estudo do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), com investigadores em Portugal e no Brasil, publicado na International Journal of Health Science (ISSN 2764-0159), da Atena Editora, uma das maiores editoras académicas do Brasil.
O estudo defende que este fenómeno, a que os autores chamam “paralisia de decisão”, não é um problema motivacional nem uma questão de personalidade, mas sim uma disfunção executiva real, com localização anatómica, substrato químico e, em vários casos, rastreabilidade genómica.
Segundo o autor principal do estudo, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Pós-Doutor em Neurociências e Diretor Científico do CPAH, o mecanismo central envolve uma dessincronização entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico. “O córtex pré-frontal produz uma análise sem fim, enquanto o sistema límbico injeta um sinal de ameaça em cada opção disponível. A pessoa pensa, prevê, antecipa, mas não age. E a inteligência elevada, paradoxalmente, pode mascarar este problema durante muito tempo”, explica.
O estudo apresenta dois conceitos teóricos centrais. O primeiro é a “inteligência DWRI”, sigla para Desenvolvimento de Amplas Regiões de Interferência Intelectual, que defende que a inteligência verdadeiramente integrativa depende da sincronia entre três eixos do córtex pré-frontal: o dorsolateral, responsável pelo processamento analítico, o ventromedial, responsável pelo peso emocional das decisões, e o orbitofrontal, responsável por antecipar consequências sociais. O segundo é o “savantismo estrutural compensado”, que descreve pessoas cuja morfologia cerebral se aproxima do perfil savant, mas que desenvolveram, ao longo da vida, mecanismos compensatórios que escondem défices adaptativos subjacentes.
“A função executiva, em vez de funcionar com a fluência espontânea que caracteriza o desenvolvimento típico, assume o papel de instrutora dos restantes circuitos cerebrais. O córtex pré-frontal ensina o resto do cérebro a funcionar de forma minimamente eficiente. O resultado visível é uma adaptação funcional satisfatória. O custo invisível é o esforço metabólico contínuo que essa supervisão exige”, afirma Fabiano de Abreu.
O estudo identifica ainda três variantes genéticas como moduladoras diretas deste fenómeno: a variante Val/Val do gene COMT, que degrada rapidamente a dopamina no córtex pré-frontal e pode tornar impossível “fechar” uma decisão depois de horas de processamento intenso; a variante 5-HTTLPR do gene SLC6A4, associada a maior sensibilidade à rejeição e ansiedade antecipatória; e o gene DRD4, associado à flexibilidade comportamental.
“A conclusão central deste trabalho é que o génio verdadeiro não se define pela ausência de desordem interna, mas pela capacidade metacognitiva de reorganizar esse caos através da consciência lógica. E este processo tem um custo metabólico real, que pode levar à exaustão executiva quando não é reconhecido a tempo”, conclui o investigador.
O artigo foi assinado também por Mirian Coden, Doutora em Educação, do Nortus Scientific Center; por Ravi Kaiut, Bacharel em Naturopatia, Mestre em Neurociência e Comportamento e Especialista em Neurociência, do Kaiut Yoga Institute; por Luiz Felipe Chaves Carvalho, Cirurgião Ortopédico e Traumatologista, Especialista em Cirurgia da Coluna e Mestre em Neurociências, certificado pela American Academy of Regenerative Medicine; e por Flávio Henrique dos Santos Nascimento, Médico Psiquiatra e Especialista em Neurociências.
O CPAH é um centro de pesquisa sem fins lucrativos, com investigadores em Portugal e no Brasil, criado para dar estrutura a investigadores afastados do meio académico e a autodidatas.