Quando a genética explica o que a clínica demorou a ver: a relação entre Ehlers-Danlos e autismo | Newslab

Quando a genética explica o que a clínica demorou a ver: a relação entre Ehlers-Danlos e autismo

Pesquisador português-brasileiro mergulhou na literatura científica após identificar sinais da síndrome em familiar próximo — e encontrou dados que a medicina ainda trata como territórios separados

Foi no ambiente doméstico que o neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Diretor Científico do CPAH — Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, deparou pela primeira vez com a sobreposição que viria a estudar em profundidade. Um familiar próximo apresentava simultaneamente traços do espectro autista e sinais físicos que, com o tempo, apontariam para a Síndrome de Ehlers-Danlos, uma condição do tecido conjuntivo marcada por hipermobilidade articular, pele elástica e fragilidade sistémica dos tecidos.

“O que me chamou a atenção foi perceber que dois quadros que a medicina trata em consultórios completamente diferentes estavam presentes na mesma pessoa, e que a literatura científica já sinalizava essa conexão há anos”, afirma o pesquisador, que acumula formação em neurociências, biologia, genómica e psicologia, além de atuar como criador do GIP — Genetic Intelligence Project, plataforma de análise de predisposição genética individual.

A observação do caso próximo funcionou como ponto de partida para uma revisão sistemática da evidência disponível. O que Dr. Fabiano encontrou contrariou o silêncio clínico ainda prevalente sobre o tema.

O que os números dizem

A metanálise mais recente sobre o assunto, publicada em 2025 no periódico científico Autism por Baeza-Velasco e colaboradores, analisou 20 estudos que examinaram a relação entre Transtorno do Espectro Autista (TEA), hipermobilidade articular e Síndrome de Ehlers-Danlos. Dos 15 estudos que testaram a associação diretamente, 12 reportaram resultados estatisticamente significativos. A prevalência global de hipermobilidade articular em indivíduos autistas foi de 22,3%, número que sobe para 31% quando a avaliação é feita clinicamente, e não por autorrelato. Já a prevalência de SED ou Transtorno do Espectro da Hipermobilidade em amostras autistas chegou a 39% nos estudos com diagnóstico clínico formal.

“Quase quatro em cada dez pessoas autistas avaliadas clinicamente apresentam critérios para Ehlers-Danlos ou hipermobilidade patológica. Isso não é coincidência estatística — é um sinal de que estamos diante de condições com sobreposição biológica real”, explica Dr. Fabiano.

Essa sobreposição tem fundamento genético identificado. Uma revisão publicada no Journal of Personalized Medicine por Casanova et al. (2020) mapeou 35 genes associados simultaneamente ao autismo com hipermobilidade e às síndromes de Ehlers-Danlos. Ao cruzar esses conjuntos em redes de interação proteica, os genes das duas condições formaram agrupamentos extensos, sugerindo mecanismos moleculares compartilhados e uma base potencial para a sobreposição fenotípica observada clinicamente.

O problema começa no diagnóstico

Para Dr. Fabiano, a raiz do problema é estrutural. A Síndrome de Ehlers-Danlos é atendida por geneticistas e reumatologistas. O autismo, por psiquiatras e neuropediatras. Com especialidades separadas, a co-ocorrência raramente é reconhecida no contexto clínico, o que leva a subdiagnóstico sistemático de ambas as condições.

O retardo diagnóstico da SED, por si só, já é grave. Estudos indicam que metade dos pacientes com Ehlers-Danlos espera 14 anos por um diagnóstico correto, e um quarto aguarda 28 anos — o maior atraso diagnóstico registado entre 16 doenças raras avaliadas. Quando se adiciona a isso o subdiagnóstico do autismo em mulheres, grupo que representa a maioria dos casos de SED hipermóvel, o quadro torna-se ainda mais preocupante.

“A mulher com SED hipermóvel que apresenta dificuldades sociais, sensibilidade sensorial e padrões de comportamento repetitivo tem altíssima probabilidade de ter o seu autismo atribuído simplesmente à dor crónica e à fadiga, e seguir anos sem o diagnóstico correto. O mascaramento social feminino no autismo amplifica esse erro”, aponta o neurocientista.

Neurobiologia comum

A pesquisa aponta também para convergências neurobiológicas. Estudos identificaram diferenças estruturais cerebrais em indivíduos com hipermobilidade em regiões diretamente envolvidas no processamento emocional, atenção e controle cognitivo da dor, incluindo a amígdala bilateral e o cingulado anterior — áreas cujas alterações são igualmente descritas no autismo. Ambas as condições partilham ainda perfis de disfunção autonômica semelhantes, com hipertonia simpática basal, baixa reatividade parassimpática e elevada taxa de comorbidade com ansiedade, síndrome de taquicardia postural ortostática e distúrbios imunológicos.

“Quando você olha para os dois quadros do ponto de vista neurobiológico e genético, começa a questionar se a separação diagnóstica que temos hoje reflete a biologia ou apenas a história da especialização médica”, observa Dr. Fabiano.

Da observação clínica à pesquisa estruturada

O caso familiar que desencadeou a investigação passou a integrar o repertório de referência do pesquisador no desenvolvimento do GIP, plataforma que produz Relatórios de Predisposição Genética individuais a partir de dados genómicos, incorporando escores poligénicos, farmacogenómica e análise de variantes clínicas. A identificação de marcadores associados à hipermobilidade e ao perfil neurodivergente num mesmo indivíduo tornou-se parte do protocolo de análise.

“A genómica permite antecipar essas sobreposições antes que a pessoa complete uma peregrinação de anos por especialistas. Não fazemos diagnóstico por genética — isso não é possível nem ético. Mas identificamos predisposições que devem orientar uma avaliação clínica mais completa e direcionada”, esclarece.

Para o pesquisador, a principal mensagem que a evidência científica disponível transmite é prática: profissionais que atendem pessoas autistas devem incluir rastreamento sistemático de hipermobilidade e sinais de conectivopatia. Da mesma forma, especialistas em SED deveriam considerar avaliação para transtornos do neurodesenvolvimento nos seus pacientes, em particular mulheres com queixas sociais e sensoriais de longa data.

“A ciência já fez a conexão. O que falta é que a clínica faça o mesmo.”

Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues é Pós-Doutor em Neurociências, Diretor Científico do CPAH — Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (Portugal/Brasil) e criador do GIP — Genetic Intelligence Project. Membro da Society for Neuroscience, da Royal Society of Biology, da Royal Society of Medicine e da Sigma Xi — The Scientific Research Honor Society.

Referências científicas

Baeza-Velasco, C., Vergne, J., Poli, M., Kalisch, L., & Calati, R. (2025). Autism in the context of joint hypermobility, hypermobility spectrum disorders, and Ehlers–Danlos syndromes: A systematic review and prevalence meta-analyses. Autism, 29(8), 1939–1958. https://doi.org/10.1177/13623613251328059

Baeza-Velasco, C., Cohen, D., Hamonet, C., Vlamynck, E., Diaz, L., Cravero, C., Cappe, É., & Guinchat, V. (2018). Autism, joint hypermobility-related disorders and pain. Frontiers in Psychiatry, 9. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2018.00656

Casanova, M., Baeza-Velasco, C., Buchanan, C. B., & Casanova, M. F. (2020). The relationship between autism and Ehlers-Danlos syndromes/hypermobility spectrum disorders. Journal of Personalized Medicine, 10(4), 260. https://doi.org/10.3390/jpm10040260