A finerenona reduziu a velocidade de perda da função renal em adultos com doença renal crônica sem diabetes, segundo resultados do estudo internacional FIND-CKD. O ensaio clínico de fase 3, publicado no New England Journal of Medicine, avaliou 1.584 participantes com albuminúria e comprometimento renal acompanhados por aproximadamente três anos.
Os dados abrem uma perspectiva terapêutica para um grupo amplo e heterogêneo de pacientes, incluindo pessoas com doença renal relacionada à hipertensão e diferentes glomerulopatias. Ao mesmo tempo, reforçam a importância dos exames laboratoriais utilizados para identificar progressão, selecionar candidatos ao tratamento e acompanhar a segurança da intervenção.
Estudo avaliou pacientes com albuminúria persistente
O FIND-CKD incluiu adultos sem diabetes com taxa de filtração glomerular estimada, a eGFR, entre 25 e menos de 90 mL/min/1,73 m². Todos apresentavam relação albumina-creatinina urinária, UACR, entre 200 e 3.500 mg/g, além de utilizarem um inibidor do sistema renina-angiotensina em dose tolerada.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente para receber finerenona, em doses diárias de 10 ou 20 mg, ou placebo. O tratamento experimental foi acrescentado à terapia convencional, composta por inibidores da enzima conversora de angiotensina ou bloqueadores dos receptores da angiotensina II.
A eGFR média inicial foi semelhante nos dois grupos, aproximadamente 47 mL/min/1,73 m². O perfil indica uma população com comprometimento renal relevante e risco aumentado de progressão, caracterizada ainda por albuminúria elevada.
Declínio da filtração glomerular foi mais lento
O desfecho primário foi a inclinação total da eGFR, definida como a variação média anual da função renal desde o início do estudo até o 32º mês.
Entre os pacientes tratados com finerenona, a eGFR diminuiu, em média, 3,3 mL/min/1,73 m² por ano. No grupo placebo, a redução foi de 4,0 mL/min/1,73 m² por ano. A diferença entre os grupos foi de 0,7 mL/min/1,73 m² anuais, com intervalo de confiança de 95% entre 0,3 e 1,1 e valor de p inferior a 0,001.
Embora a diferença anual pareça numericamente moderada, a preservação cumulativa da função renal pode adquirir relevância clínica ao longo do tempo, sobretudo em uma condição progressiva. A inclinação da eGFR é utilizada em pesquisas nefrológicas como desfecho substituto para avaliar a evolução da doença e os possíveis efeitos de terapias renoprotetoras.
Análise publicada na Nature Reviews Nephrology classificou os achados como uma ampliação das evidências anteriores, até então concentradas principalmente em pacientes com doença renal crônica associada ao diabetes tipo 2.
Desfecho cardiorrenal composto apresentou redução de risco
O estudo avaliou ainda um desfecho secundário composto por insuficiência renal, redução sustentada de pelo menos 57% na eGFR, hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular.
Esses eventos ocorreram com menor frequência entre os participantes tratados com finerenona. O hazard ratio foi de 0,77, o que corresponde a uma redução relativa de 23% no risco do desfecho composto, com intervalo de confiança de 95% entre 0,60 e 0,99.
A interpretação dos componentes isolados exige cautela. Para o desfecho renal composto por insuficiência renal ou queda sustentada de pelo menos 57% na eGFR, o hazard ratio foi de 0,78, com intervalo de confiança entre 0,60 e 1,01. Para hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular, o resultado foi de 0,60, com intervalo entre 0,27 e 1,33.
Como esses intervalos incluem o valor 1, os resultados isolados não demonstraram significância estatística convencional. O estudo sustenta com maior robustez o benefício sobre a trajetória da eGFR e sobre o desfecho cardiorrenal combinado, sem permitir conclusões definitivas sobre cada evento analisado separadamente.
Albuminúria apresentou redução precoce
A finerenona também produziu redução da albuminúria, um marcador laboratorial associado a dano glomerular e risco de progressão da doença renal.
No sexto mês, 56% dos participantes tratados com o medicamento apresentaram redução de pelo menos 30% na UACR, em comparação com 24,4% no grupo placebo. A diminuição máxima média observada foi de aproximadamente 39% no 12º mês.
O resultado reforça o valor da UACR como parâmetro de acompanhamento longitudinal. Alterações nesse marcador podem surgir antes de eventos clínicos avançados e contribuir para a avaliação da resposta terapêutica, desde que interpretadas em conjunto com a eGFR, o diagnóstico etiológico e as condições clínicas do paciente.
Uma análise pré-especificada publicada no JAMA examinou participantes com doenças glomerulares, que representavam aproximadamente 60% da população do FIND-CKD. Os efeitos sobre a perda da função renal foram semelhantes entre diferentes subtipos, incluindo nefropatia por imunoglobulina A e glomeruloesclerose segmentar e focal.
Hipercalemia permanece como ponto de atenção
O evento adverso mais frequente foi a hipercalemia, registrada em 17% dos pacientes que receberam finerenona e em 13,3% daqueles que receberam placebo.
A alteração levou à interrupção definitiva do tratamento em 1,5% dos participantes do grupo finerenona e em 0,1% do grupo controle. Hospitalizações relacionadas à hipercalemia ocorreram em 0,9% e 0,6%, respectivamente.
A diferença confirma a necessidade de acompanhamento do potássio sérico, especialmente em pacientes com função renal reduzida ou em uso concomitante de medicamentos que interferem no sistema renina-angiotensina-aldosterona. A avaliação laboratorial deve considerar ainda as variações da creatinina e da eGFR após o início do tratamento e durante os ajustes de dose.
Apesar do aumento nos episódios de hipercalemia, a incidência geral de eventos adversos foi semelhante entre os grupos, 68,3% com finerenona e 65,4% com placebo. Não foram identificados novos sinais de segurança durante o estudo.
Biomarcadores assumem papel central na tomada de decisão
Para os laboratórios clínicos, o FIND-CKD evidencia a função integrada de três parâmetros na assistência ao paciente renal, a eGFR calculada a partir da creatinina sérica, a UACR e a concentração sérica de potássio.
A eGFR permitiu definir a população estudada e mensurar o principal efeito terapêutico. A UACR identificou pacientes com dano renal persistente e foi utilizada para acompanhar a resposta ao tratamento. O potássio sérico permaneceu como marcador essencial de segurança.
Esse conjunto de exames exige padronização pré-analítica e analítica, consistência entre medições seriadas e interpretação longitudinal. Oscilações isoladas podem refletir hidratação, alterações hemodinâmicas, interferências medicamentosas ou variabilidade biológica. A análise da tendência ao longo do tempo oferece informações mais confiáveis sobre progressão e resposta terapêutica.
Resultados ainda dependem de avaliação regulatória
A finerenona é um antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide já estudado e utilizado em determinados contextos de doença renal crônica associada ao diabetes tipo 2. O FIND-CKD amplia a base científica para pacientes sem diabetes, mas os resultados do ensaio não representam, por si mesmos, uma extensão automática das indicações aprovadas.
Qualquer incorporação a protocolos clínicos dependerá da avaliação das autoridades regulatórias, da atualização de diretrizes e da análise do benefício em diferentes perfis de pacientes.
O estudo foi financiado pela Bayer, fabricante da finerenona, e contou com pesquisadores vinculados à empresa entre os autores. A informação deve ser considerada na avaliação crítica da pesquisa, embora o desenho randomizado, o controle por placebo e a publicação em periódico submetido à revisão por pares fortaleçam a qualidade da evidência.
Os resultados posicionam a finerenona como uma possível nova opção para retardar a progressão da doença renal crônica sem diabetes. O avanço também torna mais evidente a dependência entre inovação terapêutica e diagnóstico laboratorial de qualidade, uma vez que a identificação do risco, o acompanhamento da resposta e o controle da segurança permanecem sustentados por biomarcadores renais e eletrolíticos.