Por Fredson Costa Serejo*
Introdução
Na edição no 145, demos início ao Panorama em Biomedicina falando sobre o cenário dos Concursos Públicos para o Biomédico e seus desafios (SEREJO, 2018). Essa problematização nos leva a alguns questionamentos quanto ao Planejamento das atividades produtivas nas organizações e na área de Saúde não poderia ser diferente. Alguns projetos são tão complexos e até ambiciosos que só podem ser atingidos por meio da articulação de um amplo e, em geral, conjunto heterogêneo de atores. É o caso do setor da Saúde, que articula diferentes unidades, programas e serviços para garantir o cuidado à sociedade, conformando interesses e conflitos. Isso exige um grande esforço e muita competência de gestão, e que sem um planejamento eficaz se torna quase que impossível de ser realizado.
O planejamento constitui-se num instrumento contínuo para diagnosticar a realidade e propor as alternativas para transformá-la, são os meios para viabilizar que isso aconteça e as oportunidades para executar as ações pensadas, o que demandará o reinício do ciclo. Peter Drucker diz que o planejamento se refere às implicações futuras de decisões presentes, e não às decisões futuras (DRUCKER, 2002).
O planejamento nasceu na área da administração, e teve como
principal foco o processo de trabalho, com ênfase no aumento da produtividade e na racionalidade econômica das organizações. Posteriormente, passou a compor o ciclo administrativo e ganhou destaque no alcance de objetivos e metas para além do escopo da eficiência. As organizações devem ser vistas como uma forma de seus membros viabilizarem futuros almejados, aportando recursos materiais e humanos para atingir seus propósitos, por conta de seus interesses e expectativas. Cada organização tem uma finalidade que a tornou necessária e garantiu a sua estruturação. Trata-se da razão de ser da organização, também denominada missão ou imagem-objetivo, que define a sua função básica na sociedade, nos termos dos produtos e dos serviços que ela produz. O sucesso de uma organização se dá pelo cumprimento de sua missão. É ela que agrega e orienta a ação de todos os seus membros e tem na figura do gestor o responsável pela condução do processo administrativo, dos recursos e das pessoas em sua direção. Portanto, a administração de uma organização requer um conjunto de tarefas e atividades realizadas sequencialmente e de modo contínuo, cujo papel do planejamento é fundamental (LACERDA, 2013).
O planejamento faz parte do que chamamos de ciclo administrativo, que engloba um conjunto de tarefas e atividades necessárias para administrar uma organização de maneira sequencial e contínua. Este ciclo é composto de pelo menos quatro etapas: o planejamento; a organização-desenvolvimento; a execução-direção; e o controle-avaliação. O processo de planejamento incorpora a ideia de definição de objetivos e a formulação de estratégias. Neste momento, também se analisa a realidade, buscando oportunidades e ameaças, além de alianças que aumentem a capacidade de executar o plano. Assim, o objetivo desse trabalho foi realizar um Perfil do Biomédico no Brasil para criação de futuras proposições para o planejamento de ações para a profissão.
Método
Foi realizada uma pesquisa exploratória descritiva (SEVERINO, 2007), baseada no levantamento das informações coletadas através de um formulário online (Google Docs) que foi distribuído nas Redes Sociais durante o período de 06/Janeiro a 12/Fevereiro de 2018. A amostragem teve nível de confiança de 95% e erro amostral <2%. Questionários inválidos e/ou em duplicidade foram analisados e excluídos. Esta pesquisa foi feita por adesão espontânea, tendo sua limitação e viés em relação à amostra devido aos levantamentos online terem suas dificuldades de monitoramento, qualificação e acesso à tecnologia. Apesar disso, a amplitude da amostra e sua abrangência em todo o território nacional são argumentações que permitem que os dados obtidos sejam estatisticamente tratados como probabilísticos.
Resultados
Participaram da pesquisa 3.513 pessoas, 1783 profissionais (50,8%) e 1730 estudantes (49,2%), sendo um público predominantemente feminino (71,3%) do que masculino (28,7%). A maioria do público era solteiro (75,7%) e quanto a faixa etária, era constituído de pessoas jovens na faixa de 19-28 anos (70,3%), seguido de 29-38 anos (22,8%) e >39 anos (6,9%). Embora o maior número de profissionais Biomédicos esteja presente na região Sudeste o questionário foi respondido por pessoas nascidas na Região Nordeste (41,9%), seguida das Regiões Sudeste (26,7%), Norte (13,9%), Centro-Oeste (9,3%), Sul (8%) e ainda de 0,2% de pessoas estrangeiras.
Quanto as informações acadêmicas a maioria das pessoas estudam/estudaram em Instituições Privadas de ensino (82,3%). Com relação a titulação máxima obtida entre os Biomédicos 34,1% relataram ter apenas a graduação e que apenas 20,7% tem Especialização; 4,8% tem Mestrado; 1,4% tem Doutorado e 0,5% pós-Doutorado. Esse é um dado que chama bastante a atenção quando comparado com outras profissões, como o farmacêutico, onde 80,8% tem Especialização, 14,6% tem Mestrado e 4,6% tem o Doutorado (SERAFIN, 2015).
O domínio de língua estrangeira (inglês, espanhol e outras) foi declarado por 48,3% dos pesquisados. O nível de conhecimento do idioma inglês (58,9%) foi o mais predominante tendo como características: 46,4% leem, 20,6% leem e escrevem e 33% leem, escrevem e falam. Quando é considerada a participação em congressos, observa-se que 73% participam, sendo que os que participam, 44,9% o fazem anualmente, 19,7% semestralmente e 16,8% em intervalos
superiores a cinco anos. Cabe destacar que 59% não apresentam nenhum trabalho científico. Já em relação à participação em cursos de atualização, constatou-se que 75,2% participam, enquanto que 24,8% não participam. Dos que participam, 34,1% o fazem anualmente, 27,8% semestralmente e 12,8% em intervalos superiores a 3 anos.
Numa segunda etapa do questionário foram realizadas perguntas específicas para cada um dos grupos (Profissional e Estudante). Inicialmente foram delimitadas a região geográfica de participação conforme a Tabela 1 e, em ambos os casos, os Estados que mais participaram foram Bahia (n=543 pessoas); São Paulo (n=475 pessoas) e Minas Gerais (n=315 pessoas).

Tabela 1: Participação por Região (%)
Com relação aos Estudantes, que participaram da pesquisa, a maioria estava no 4º ano (40,5%), seguido do 3º ano (26,1%), 2º ano (24,7%) e do 1º ano (8,7%). Uma das perguntas que foi realizada para esse grupo foi qual área eles têm interesse em atuar no mercado de trabalho, sendo que eles tinham a possibilidade de votar em até três áreas. Na Tabela 2 são mostradas as 10 áreas mais votadas.

Tabela 2. Áreas de interesse de atuação
Similarmente, realizamos para o Grupo dos Profissionais uma pergunta sobre em qual áreas eles estão atuando para verificar, se de fato, aquilo que tem sido estimulado/ensinado na Universidade está tendo reflexo na inserção dos futuros egressos, como demanda do Mercado de Trabalho. As 10 principais áreas de maior atuação são mostradas na Tabela 3.

Tabela 3. Áreas de atuação dos Profissionais
Comparativamente, podemos destacar que algumas das áreas preferidas pelos Estudantes na graduação como Genética, Perfusão, Reprodução Humana e Citologia Oncótica, não aparecem como as principais áreas de atuação dos Biomédicos no Mercado de Trabalho. Isso pode se dever a três situações especulativas: 1) São áreas restritas e com baixa demanda de mercado; 2) Existem poucos profissionais formados e a nossa amostragem não foi capaz de rastrear; 3) São áreas com intensa competição e grande exigência técnica, e pela insipiente formação do Biomédico, o mercado prefere outros profissionais. Devido a poucas publicações nessa temática, esse estudo passa a ter limitações para a possibilidade de maiores extrapolações para a totalidade da população, mas que merece maior atenção para futuras análises.
Ainda sobre a atuação profissional nas áreas da Biomedicina verificamos uma forte concentração na área de Análises Clínicas. As áreas de Patologia Clínica, Hematologia, Bioquímica, Microbiologia, Parasitologia, Imunologia e Banco de Sangue são áreas laboratoriais na qual o Biomédico é contratado como Analista Clínico onde dificilmente ele tem exclusividade de atuação em uma única área, mesmo tendo especialização, e o que muitas das vezes acontece é que o profissional acaba atuando como generalista perpassando por todas essas áreas simultaneamente.
Aos Profissionais (n=1.783) ainda foi perguntado o tempo que estavam atuando no Mercado de Trabalho que pode ser verificado no Figura 1. O público amostrado é em sua maioria de recém-formados (54,4%) com menos de 5 anos de formados. Mas chama a atenção a quantidade de pessoas que informaram que ainda não trabalham (26,4%) na área.

Figura 1. Tempo de Atuação Profissional
Esse dado ainda pode ser confirmado e ampliado com a pergunta “se as pessoas estão trabalhando atualmente…”, como mostra a Figura 2. É considerável o número de pessoas desempregadas em nossa área (24,2%) e conforme os dados do IBGE, no ano passado, apesar do início de recuperação da atividade econômica, o desemprego encerrou 2017 numa taxa elevada: 12,7% na média anual e 11,8% no último trimestre (BRASIL, 2017). Temos apenas 47,3% dos Biomédicos atuando na área e isso reflete a realidade dos recém-formados frente à crise política e econômica na qual têm passado o nosso país. Alternativamente, até conseguir a sua colocação no mercado de trabalho, os Biomédicos têm atuado fora da área (15,1%) ou investido em continuar estudando (13,5%) fazendo Especialização, para aumentar a sua qualificação técnica em diversas áreas, ou seguindo a carreira acadêmica fazendo Mestrado e Doutorado.

Figura 2. Profissionais trabalhando
Um dos dados mais complexos dentro da nossa carreira, ainda diz respeito, a principal queixa dos Biomédicos, que é a questão salarial, como mostrado na Figura 3. A maior parte dos Biomédicos ganham salários até R$ 2.000 e muitas vezes, recebem 30% à menos, do que outras profissões que também atuam na área de Análises Clínicas o que geram muitas indignações.

Figura 3. Faixa Salarial dos Biomédicos
Pela limitação do nosso estudo, ainda não foi possível, subdividir a faixa salarial por Regiões ou Estados o que poderia melhor refletir e visualizar maiores distorções de ganhos em todo o Brasil. Apesar disso, podemos verificar que o Biomédico ainda não tem compreensão quanto aos papéis das suas Instituições e quais estão implicadas no processo de atuação junto aos empregadores para as discussões de acordos coletivos para a classe, como mostrado na Figura 4. Atualmente, temos apenas 5 sindicatos formados no país e nossa representação tem sido extremamente insipiente com apenas 3,7% de participação dos Biomédicos sindicalizados.

Figura 4. Participação nas Instituições
Mais ainda, quando perguntados se tinham conhecimento sobre se existia algum Biomédico atuando no setor público da sua cidade devidamente incluído no Plano de Cargos e Salários a maioria dos Estudantes (71,3%) e Profissionais (65%) responderam que NÃO. Essa informação somente corrobora o que já havíamos publicado anteriormente (SEREJO, 2018) mostrando que somente existem Biomédicos incluídos no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) em somente 31,8% das cidades do Brasil! Isso significa que SÃO MAIS DE 3.832 CIDADES NO BRASIL SEM BIOMÉDICOS NO SERVIÇO PÚBLICO!
Para finalizar a pesquisa foram realizadas algumas perguntas abertas onde foi possível dar a opinião sobre quais eram os principais motivos de permanência na Profissão onde se tem destaque o “Amor à carreira” e suas “múltiplas possibilidades de atuação”. E quando perguntados sobre as causas de insatisfação na carreira Biomédica podemos destacar quatro grandes demandas: (1) Falta de Piso Salarial; (2) Desvalorização Profissional; (3) Desunião dos Biomédicos; e (4) Baixa inserção em Concursos Públicos.
É nítido o desconhecimento dos profissionais e estudantes quanto a atribuição das entidades de classe, confundindo apoio político, fiscalização, incentivos a processos de capacitação e com relação a criação de uma justa remuneração para a profissão. Os profissionais também se manifestaram quanto aos seus anseios em relação à carreira, referindo que se sentem estimulados pela vocação; pela característica altruísta da profissão na descoberta de novas curas de doenças, que possibilitam o atendimento das necessidades da população no que se refere à prevenção de doenças e à promoção e recuperação da saúde, assim como, em outras profissões da saúde. Essa satisfação no trabalho é um fenômeno amplamente estudado e decorre da influência que a mesma pode exercer sobre o trabalhador, afetando sua saúde física e mental, atitudes, comportamento profissional, social, tanto com repercussões para a vida pessoal e familiar do indivíduo como para as organizações (MARTINEZ, 2003).
Apesar disso, se queixam do total desconhecimento da profissão por grande parte da população, falta de apoio institucional, muita desunião entre os profissionais para melhoria da classe e que medidas devem ser tomadas para a maior publicização da profissão, não somente para o público leigo, mas para os governantes e políticos que não legislam em prol da maior inclusão dos biomédicos nos serviços públicos para um melhor atendimento à sociedade. É importante destacar que as competências do profissional Biomédico vão além da Pesquisa Científica e técnicas laboratoriais em Análises Clínicas (PERINAZZO et al., 2016), e que dentre outras áreas, uma das nossas habilitações é a área de Saúde Pública (CFBM, 2017), que nos permite atuar em áreas estratégicas do Sistema Único de Saúde como Planejamento de Saúde; Controle e Avaliação, Auditoria, Educação Permanente, Educação em Saúde, Atenção Básica, Vigilância Sanitária, Ambiental e Epidemiológica entre outras áreas que devem ser fortalecidas pelas gestões de saúde Municipais, Estaduais e Federais e que com a presença do Biomédico poderia ser de fundamental apoio.
Frente a essas demandas de insatisfação os participantes da pesquisa foram convidados a participar de grupos de Whatsapp formados em cada um dos Estados para discutir a profissão. A intenção será a da criação de uma grande rede de cooperação onde seja possível unir e apoiar Conselho, Sindicatos, Associações, Universidades, Estudantes e Profissionais em uma grande estratégia de Planejamento de Ações focadas nas demandas loco-regionais. Assim, foi criada a União Nacional Biomédica (UNABIOMED), um movimento apartidário, ainda não institucionalizado, mas congregador de proposições para a valorização do Biomédico.
Conclusão
A iniciativa de buscar delinear o atual perfil do Biomédico no país, traz uma enorme satisfação de confirmar que a profissão está atravessando um período de profundas transformações. Esse estudo não tem a pretensão de ser um retrato fiel, pois o conceito de “perfil” é muito amplo e complexo no que diz respeito à coleta e à interpretação dos dados, envolvendo muitos aspectos que extrapolam o escopo do estudo. Mas a pesquisa atendeu o objetivo pretendido. Revelou dados que permitiram um conhecimento mais profundo desse profissional, das suas atividades e abriu a possibilidade para novas investigações. O conhecimento do perfil do Biomédico no Brasil oferece possibilidades para que o profissional conheça, pela primeira vez, a sua realidade, ofertando uma análise situacional do atual estado e a condução de questionamentos para a proposição de mudanças significativas, através de um maior empoderamento da responsabilidade que as mudanças só decorrem através da união da classe. O estudo sem dúvida pode, também, ser uma ferramenta útil para que os órgãos de classe possam traçar estratégias de ação em benefício da profissão.
Vagas de emprego na área de Biomedicina
Bibliografia
- BRASIL, Portal, Desemprego volta a cair em agosto, diz IBGE, Governo do Brasil, disponível em: <http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2017/09/desemprego-volta-a-cair-em-agosto-diz-ibge>, acesso em: 5/12/2017.
- CFBM. Conselho Federal de Biomedicina. Manual do Biomédico. Publicação online. Disponível em: <https://crbm1.gov.br/site/wp-content/uploads/2016/04/Manual-do-Biomedico-Edicao-digital-2017.pdf> Acesso em: 16/02/18.
- DRUCKER, P. Administrando em tempos de mudança. São Paulo: Pioneira, 2002.
- LACERDA, Josimari Telino; Lúcio José Botelho; Cláudia Flemming Colussi. Planejamento na Atenção Básica. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências da Saúde. 2013.
- MARTINEZ, Maria Carmen; PARAGUAY, Ana Isabel Bruzzi Bezerra, Satisfação e saúde no trabalho: aspectos conceituais e metodológicos, Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, v. 6, p. 59–78, 2003.
- PERINAZZO, Jéssica et al, A Atuação do Profissional Biomédico na Atenção Primária à Saúde: Desafios na Formação, Revista Saúde Integrada, v. 8, n. 15–16, 2016.
- SERAFIN, Claudia, Daniel Correia Júnior, Mirella Vargas. Perfil do farmacêutico no Brasil: relatório. Brasília. Conselho Federal de Farmácia. 2015.
- SEREJO, Fredson. Biomedicina e os Concursos Públicos: Cenário Atual e Perspectivas. Revista Newslab, n.145, p. 44-49. Dez/Jan. 2018. Disponível em <https://www.newslab.com.br/biomedicina-e-os-concursos-publicos-cenario-atual-e-perspectivas/>. Acesso em: 15/02/18
- SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 23. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
Fredson Costa Serejo
Doutor e Mestre em Biofísica – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
Especialista em Educação na Saúde para Preceptores do SUS – Hospital Sírio Libanês/Ministério da Saúde.
Especialista em Micropolítica e Gestão do Trabalho em Saúde – UFF
Biomédico – CRBM 15688 – Hospital Municipal São Francisco de Assis – Porto Real/RJ
Professor Adjunto do Centro Universitário de Barra Mansa – UBM/RJ.
Email: preparabiomedico@gmail.com