Exames para identificar doenças genéticas e defeitos cromossômicos, feitos com uma única biópsia, melhoram as taxas de gravidez

Casais que estão passando por diagnóstico genético pré-implantação (PGD – Pre-Implantation Genetic Diagnosis) para evitar a transmissão de doenças hereditárias, como a distrofia muscular de Duchenne ou a fibrose cística, também devem ter seus embriões selecionados por números anormais de cromossomos ao mesmo tempo PGS (Pre-Implantation Genetic Screening), afirmam pesquisadores italianos.

Dr Arnaldo Cambiaghi, médico espedialista em medidicina reprodutiva do IPGO explica: “Tanto o PGD quanto o PGS são exames que podem ser utilizados no processo fertilização in vitro (FIV), com o objetivo de diagnosticar nos embriões a existência de alguma doença genética antes da implantação no útero da mãe. Assim, casais com chances de gerar filhos com problemas genéticos como Síndrome de Patau (trissomia do cromossomo 13), Síndrome de Edwards (trissomia do cromossomo 18), Síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21), Síndrome do Klinefelter (47XXY), distrofia muscular, hemofilia, entre outras anomalias genéticas, podem descobrir se o embrião possui tais doenças por meio deste exame.

Tanto o PGD quanto o PGS consistem na retirada de uma ou mais células do embrião (biópsia embrionária), em laboratório, e encaminhamento para análise, antes mesmo deles serem colocados no útero. Esses procedimentos não afetam o futuro bebê. Os embriões com problemas não devem, então, ser transferidos. A diferença entre PGD e PGS está no tipo de análise genética realizada:

  • • PGD (examina doenças genéticas) – diagnóstico genético pré-implantação, envolve a remoção de algumas células de um embrião de FIV para testá-lo para uma condição genética específica (fibrose cística e Doença de Gaucher entre outras, por exemplo), antes da transferência do embrião para o útero.
  • • PGS (examina doenças cromossômicas) – rastreio genético pré-implantação é o termo apropriado para testar a normalidade total cromossômica nos embriões. O PGS não está à procura de um diagnóstico de doença específica – é o rastreio do embrião para números de cromossomos normais. Com isso, sabemos se o embrião tem alguma síndrome cromossômica como Síndrome de Down, Patau, Edwards e outras.

“Dessa forma, o PGD é realizado quando um casal tem história familiar de alguma doença relacionada a algum gene específico. Quando queremos ver somente a integridade dos cromossomos”, conclui Cambiaghi.

Ao fazer isso, os embriões que estiverem livres não só da doença genética, mas também de anormalidades cromossômicas (aneuploidia), serão transferidos para o útero, dando a melhor chance de se alcançar uma gravidez bem-sucedida e evitando o risco de falhas de implantação, abortos espontâneos ou até mesmo o nascimento de crianças que possam ser afetados por condições como a síndrome de Down (em que há um cromossomo extra) ou a síndrome de Turner (em que uma menina possui apenas um cromossomo X em vez dos dois normais).

A pesquisa

O estudo dos médicos italianos que relata a maior série de testes genéticos do mundo, publicado na revista Human Reprodution, uma das principais publicações de medicina reprodutiva do mundo, mostra que os pesquisadores realizaram PGD e pré-implantação de rastreio genético (PGS) em células coletadas em uma biópsia simples. Eles selecionaram entre cinco e dez células da camada externa de 1.122 blastocistos (a coleta precoce de células que começam a se formar cerca de cinco dias após o óvulo ter sido inseminado com esperma e se tornar um embrião) e, após PGD e PGS, 218 blastocistos foram transferidos para o útero das mulheres, resultando em 99 gravidezes e no nascimento de 70 bebês saudáveis em janeiro de 2017, quando o artigo foi escrito. Esta é uma taxa de gravidez de 49%, superior à taxa média de gravidez clínica, entre 22-32%, relatada na população geral de casais submetidos à fertilização in vitro (FIV).

Ainda no momento da redação do artigo, 13 novas gravidezes estavam em andamento, sendo que 12 delas resultaram no nascimento de bebês saudáveis, enquanto houve apenas um aborto. Isso dá uma taxa de partos de 38,6%. Um total de 91 blastocistos saudáveis permanecem congelados esperando transferência. Um dos pesquisadores, que faz parte do Centro de Medicina Reprodutiva do European Hospital, em Roma, Itália afirmou que foi importante descobrir que, enquanto 55,7% dos blastocistos biopsiados não apresentavam doença genética ou mudanças nas estruturas dos cromossomos, apenas 27,5% deles também tiveram o número certo de cromossomos. Sem a realização de rastreio genético pré-implantação para aneuploidia, 316 blastocistos, que pareciam saudáveis, mas tinham números anormais de cromossomos, poderiam ter sido transferidos. Isso levanria a falhas de implantação, abortos espontâneos ou, por vezes, nascimentos de bebês afetados pela aneuploidia. Para os casais envolvidos e, particularmente as mulheres, esses resultados podem ser emocionalmente devastadores.

Como resultado de suas descobertas, os pesquisadores acreditam que os casais que forem submetidos ao PGD, também devem fazer o PGS. Para eles, pacientes que correm o risco de transmitir doenças genetica a seus descendentes precisam ter o diagnóstico genético pré-implante e, portanto, a biópsia do blastocisto deve ser realizada. Eles acreditam firmemente que, nesses casos, deve ser obrigatório analisar também o estado cromossômico do blastocisto, pois é possível realizar ambas as análises na mesma amostra de biópsia, sem realizar outros procedimentos perigosos e invasivos no embrião ou, de fato, sobre o feto em crescimento no útero.

Tanto o PGD quanto o PGS são técnicas já realizadas em centros de fertilidade e, portanto, seria possível que clínicas implementem as recomendações dos pesquisadores agora. No entanto, casais devem ser aconselhados cuidadosamente para que entendam que, ao rastrear para anormalidades genéticas e cromossômicas, haverá mais ocasiões em que não será possível transferir um embrião.

Os pesquisadores admitem que encontratam uma taxa de cancelamento de ciclo mais elevada do que a esperada, com 40% dos ciclos sem blastocistos transferíveis disponíveis. Isso pode acontecer quando há uma taxa de fertilização pobre ou um desenvolvimento embrionário fraco, e também quando não há blastocistos saudáveis disponíveis para transferência após PGD e PGS. Essa taxa de cancelamento foi de 12,2% em 2016, quando a combinação de PGD e PGS não foi realizada.

Realizar PGD e PGS não é tecnicamente difícil. O óvulo é inseminado, via injeção intracitoplasmática de esperma (ICSI) e, depois, é cultivado em laboratório. Quando o blastocisto começa a se formar e a massa celular interna, que eventualmente se desenvolve no feto, torna-se claramente identificável, são extraídas 5-10 células da camada externa. Este procedimento não prejudica o potencial de implantação do blastocisto em desenvolvimento, ao contrário de biópsias mais invasivas.

Realizar as análises em células tiradas de uma única biópsia evita a necessidade de uma segunda biópsia que possa ser potencialmente perigosa para o blastocisto e que possa influenciar o potencial de desenvolvimento e implantação do embrião. A Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia divulgou que apenas 28% dos embriões transferidos após o PGD levaram à gravidez. No estudo citado neste texto, foi demonstrado que a FIV baseada em PGD/PGS é capaz de aumentar a taxa de implantação do embrião em até quase 48% e no estudo foi obtida uma taxa clínica geral de gravidez de 49% por transferência de embriões.

“É preciso ter cuidado nas indicações do PGS, pois apesar de seus benefícios, esse exame pode apresentar resultados ‘falso positivo’, ou seja, indicar que o embrião é alterado, quando na verdade é normal, o que levaria ao descarte de um embrião saudável. Esta possibilidade de ‘falso positivo’ ou ‘falso negativo’ é possível e previsível nesse tipo de exame. Entretanto as técnicas de PGS vêm evoluindo, diminuindo a chance de falsos positivos, mas ainda isso não são 100% confiáveis”, finaliza Cambiaghi.


Fonte: InThePress


 

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