Uma leve indisposição, um carocinho atrás da orelha, ou uma simples prisão de ventre são sintomas, aparentemente inofensivos, que podem mascarar tipos raros de câncer em crianças. Segundo a Assessora em Genética e Genômica do Laboratório Lustosa, Fernanda Soardi, a maior dificuldade do diagnóstico da doença é que esses e outros sintomas, como, por exemplo, palidez, cansaço prolongado, febre, emagrecimento, hematomas e alterações nos olhos, são comuns a diferentes doenças, o que pode confundir profissionais médicos, pais e responsáveis. Esse é o alerta neste Dia Internacional de Luta contra o câncer infantil, celebrado em 15 de fevereiro.
O médico Joaquim Caetano, ex-presidente do Departamento de Oncologia da Sociedade Mineira de Pediatria (SMP), destaca que esse cenário faz com que o diagnóstico só aconteça tardiamente. Segundo ele, por causa disso, o câncer infantil é, em boa parte dos casos, descoberto em estágios avançados e em situações de emergências oncológicas, com alto risco de morte.
Apesar disso, cerca de 80% das crianças e adolescentes acometidos pelos tumores pediátricos podem ser curados. “O diagnóstico precoce é uma medida de prevenção secundária, que possui grande potencial na mudança da realidade para as crianças e adolescentes com câncer, permitindo o tratamento das doenças em estágios iniciais e a utilização de modalidades de tratamento menos agressivas e menos tóxicas, proporcionando melhores resultados com menos sequelas”, ressalta.
Para Fernanda Soardi, independentemente do tipo de câncer, a atenção dos familiares às mudanças no comportamento da criança deve ser redobrada. “É bom ficar de olho em sintomas que podem ser enganosamente corriqueiros. Se eles não desaparecerem em um prazo de 7 a 10 dias, é preciso voltar ao médico para obter um diagnóstico mais detalhado. Pode ser necessário buscar exames laboratoriais, radiológicos ou genéticos. Isso é fundamental para auxiliar na investigação clínica e apontar o tratamento mais adequado”, orienta.
Origem da Doença
De acordo com Joaquim Caetano, o câncer na infância e na adolescência difere em vários aspectos do câncer na idade adulta. Além de se tratar, de forma geral, de uma doença rara na faixa etária de 0 a 19 anos, as diferenças se acentuam na origem biológica, nos fatores de risco, nos tipos histológicos, no sítio anatômico, no tratamento e nas respostas ao tratamento. “Nos adultos, por exemplo, os fatores ambientais têm grande impacto sobre a doença. Nas crianças, eles exercem pouca ou nenhuma influência, uma vez que os tumores são de origem embrionária, mais agressivos”, argumenta.
Fernanda Soardi também reforça que o câncer infantil, embora também corresponda à proliferação descontrolada de células em qualquer local do organismo, possui características próprias. “Diferentemente do câncer em adultos, o câncer infantil geralmente afeta as células do sistema sanguíneo e os tecidos de sustentação. Algumas dessas células sofrem alteração no seu material e prolifera-se de forma rápida e desordenada. Por esse motivo, a evolução da doença pode ser mais rápida em crianças”, complementa.
Cânceres raros
Embora no Brasil, conforme o Instituto Nacional do Câncer (INCA), sejam registrados, aproximadamente, 12 mil novos casos de câncer infantil a cada ano, os tumores mais raros são pouco conhecidos e têm baixa incidência. Tumores no fígado, nos rins, na retina, nas glândulas adrenais, entre outros tipos raros, conforme o INCA, correspondem a, aproximadamente, 10% de todos os casos notificados entre os pequenos. De acordo com o Grupo Europeu de Estudo Cooperativo para Tumores Raros Pediátricos (EXPERT), o câncer raro é aquele que tem incidência menor ou igual a 2 casos por um milhão de pessoas ao ano.