Meninas autistas com ansiedade generalizada exigem cuidados específicos para prevenir o sofrimento emocional e comportamentos autolesivos | Newslab

Meninas autistas com ansiedade generalizada exigem cuidados específicos para prevenir o sofrimento emocional e comportamentos autolesivos

Neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela explica como a camuflagem social, a ansiedade e a necessidade de aceitação podem comprometer a regulação emocional e por que o apoio familiar deve fazer parte do acompanhamento clínico.

Meninas e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) podem apresentar sofrimento psicológico intenso, mesmo quando demonstram elevada capacidade intelectual, bom desempenho escolar e comportamentos aparentemente adaptados. O neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela alerta para a necessidade de reconhecer sinais de sobrecarga emocional, dificuldades de autorregulação e sentimentos persistentes de rejeição, especialmente quando existem alterações comportamentais ou manifestações de desesperança.

Uma das características que pode dificultar a identificação desse sofrimento é a camuflagem social, também denominada masking. O fenômeno ocorre quando a pessoa autista procura reproduzir comportamentos socialmente esperados, controlar manifestações espontâneas e esconder dificuldades para evitar rejeição ou conseguir integrar-se a um grupo.

Esse esforço pode exigir uma quantidade elevada de recursos cognitivos e emocionais. A jovem consegue manter um comportamento aparentemente adequado durante o período escolar, mas apresenta exaustão, irritabilidade, isolamento ou dificuldades em iniciar tarefas quando retorna para casa.

Um estudo publicado em 2023 na revista científica Autism Research, envolvendo 733 crianças e adolescentes autistas entre 4 e 17 anos, identificou uma associação entre camuflagem social e sintomas de ansiedade, depressão e outras manifestações de sofrimento psicológico.

Outra revisão sistemática, publicada em 2025, analisou 56 estudos com 13.410 crianças e adolescentes autistas. Os resultados identificaram níveis de sintomas ansiosos ligeiramente superiores nas meninas em comparação com os meninos, particularmente nas participantes de maior idade e com QI mais elevado. A diferença média foi pequena e variou entre os estudos, não permitindo generalizações individuais.

Quando a ansiedade compromete a capacidade de agir

O TAG caracteriza-se por preocupação excessiva e persistente, acompanhada de dificuldades em controlar os pensamentos ansiosos e manifestações como tensão, inquietação, alterações do sono e dificuldades de concentração.

Nas jovens autistas, a ansiedade pode coexistir com dificuldades de flexibilidade cognitiva, processamento sensorial e regulação emocional, comprometendo a capacidade de iniciar atividades, organizar tarefas e enfrentar acontecimentos inesperados.

O problema não corresponde necessariamente à ausência de vontade, inteligência ou responsabilidade. Uma jovem pode compreender perfeitamente aquilo que precisa fazer e, simultaneamente, apresentar dificuldades em executar a tarefa devido à sobrecarga emocional e às exigências de controle executivo.

Do ponto de vista neurobiológico, funções como planejamento, inibição comportamental e regulação emocional dependem de redes que envolvem o córtex pré-frontal dorsolateral, ventromedial, orbitofrontal, o córtex cingulado anterior e outras regiões cerebrais. A ansiedade pode modificar o funcionamento dessas redes, mas não permite concluir, isoladamente, que exista uma falha estrutural em uma sub-região específica.

Segundo Fabiano de Abreu Agrela, o acompanhamento deve considerar a diferença entre a capacidade intelectual e a capacidade de utilizar essa inteligência durante períodos de sofrimento psicológico.

A exaustão associada à necessidade contínua de adaptação também pode contribuir para episódios de esgotamento, frequentemente descritos como burnout autista. Contudo, dificuldades executivas, isolamento e perda de iniciativa exigem avaliação individual, pois também podem estar relacionados à ansiedade, depressão ou outras condições clínicas.

A necessidade de aceitação e o papel da família

O sentimento de pertencimento pode assumir particular importância para adolescentes que enfrentam dificuldades de integração social, rejeição pelos colegas ou experiências recorrentes de incompreensão.

Para Fabiano de Abreu Agrela, a resposta familiar deve privilegiar a validação emocional, a previsibilidade das rotinas e a comunicação objetiva, sem transformar as dificuldades executivas da jovem em acusações de incapacidade ou falta de interesse.

“Validar conquistas reais”, defende o neurocientista, ao recomendar o reconhecimento de comportamentos positivos e realizações concretas.

O especialista também propõe “diálogo sem rigidez” e “inclusão ativa” como princípios de convivência familiar. Na prática, significa explicar as consequências dos comportamentos com paciência, convidar a jovem para atividades compartilhadas e demonstrar que sua participação na família não depende exclusivamente do cumprimento de expectativas.

A validação emocional não implica ausência de regras. A previsibilidade e a organização podem favorecer a autonomia, desde que as exigências respeitem as capacidades funcionais e o estado emocional da jovem.

“Precisamos de regras e tarefas domésticas claras”, afirma Fabiano.

A orientação consiste em definir responsabilidades acessíveis, explicar os objetivos e evitar expressões depreciativas diante de erros ou atrasos. Dizer repetidamente que uma adolescente é inútil, incapaz ou que nunca faz nada pode intensificar sentimentos de inadequação e comprometer a relação de confiança.

A família também deve observar alterações no sono, no apetite, nas interações sociais, na participação escolar e na capacidade de realizar atividades habituais. Essas alterações não constituem, isoladamente, indicadores de risco suicida, mas justificam atenção quando surgem associadas ao sofrimento psicológico persistente.

O risco de comportamentos autolesivos exige atenção clínica

A associação entre autismo, sofrimento emocional e comportamentos autolesivos tem sido documentada na literatura científica. A presença de ansiedade, depressão, experiências de rejeição e antecedentes de autolesão pode aumentar a vulnerabilidade, embora o risco individual dependa de diferentes fatores.

Expressões persistentes de inutilidade, desesperança, isolamento ou incapacidade de suportar a dor emocional não devem ser desconsideradas.

Fabiano de Abreu Agrela chama a atenção para um problema frequentemente ignorado pelas famílias: “O sofrimento é interno e no silêncio.”

A ausência de manifestações externas evidentes não exclui sofrimento grave. Algumas jovens apresentam sinais identificáveis, razão pela qual a observação familiar deve ser acompanhada de comunicação direta e avaliação profissional.

Diante de uma ingestão intencional de medicamentos em excesso, uma autolesão ou suspeita de comportamento suicida, é necessária avaliação médica e psicossocial. A ingestão excessiva, isoladamente, não permite determinar a intenção suicida sem investigar as circunstâncias.

As recomendações clínicas internacionais orientam a avaliação especializada após episódios de autolesão, com identificação dos fatores associados ao comportamento, elaboração de um plano de segurança e acompanhamento posterior. Quando persistem preocupações com a segurança, recomenda-se acompanhamento inicial nas 48 horas seguintes à avaliação psicossocial.

O plano deve incluir estratégias para reconhecer o agravamento do sofrimento, contatos de emergência, pessoas de confiança e medidas para restringir o acesso a medicamentos ou outros meios potencialmente perigosos.

Perguntar diretamente à jovem se apresenta pensamentos de morte ou suicídio não aumenta, segundo a evidência disponível, a probabilidade desses pensamentos. Pode, pelo contrário, permitir reconhecer uma situação que exige intervenção.

Tratamento psicológico, acompanhamento médico e apoio familiar

O acompanhamento de meninas autistas com TAG deve considerar as particularidades sensoriais, comunicacionais, cognitivas e emocionais de cada pessoa.

As recomendações clínicas do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) para crianças e adolescentes autistas indicam a terapia cognitivo-comportamental adaptada como uma das intervenções possíveis para a ansiedade. As adaptações podem incluir comunicação concreta, materiais visuais, atividades estruturadas, pausas durante as sessões e participação dos responsáveis quando apropriada.

O tratamento farmacológico pode ser considerado para determinados transtornos associados, mediante avaliação médica individualizada. A medicação não tem como objetivo eliminar características da identidade autista, mas tratar sintomas e condições clínicas que comprometem o bem-estar e o funcionamento diário.

O apoio familiar não substitui a intervenção psicológica ou psiquiátrica quando existem manifestações de sofrimento grave. A função da família consiste em oferecer segurança emocional, relações previsíveis, respeito pelas diferenças individuais e condições que favoreçam a autonomia.

Para Fabiano de Abreu Agrela, compreender o comportamento de uma adolescente autista exige reconhecer que inteligência elevada e sofrimento emocional podem coexistir. A capacidade intelectual não impede a ansiedade, nem garante que uma jovem consiga regular sozinha todas as suas emoções.

O cuidado deve começar antes da crise. Reconhecer o sofrimento, compreender as dificuldades e manter uma relação de confiança permite que a jovem encontre apoio sem precisar esconder aquilo que sente.

FONTES E REFERÊNCIAS

Fonte especializada: Dr. Fabiano de Abreu Agrela, neurocientista, Pós-PhD em Neurociências, especialista em Genômica e Bioinformática. Declarações e orientações sobre ansiedade, autismo feminino, camuflagem social, regulação emocional e apoio familiar, outubro de 2026.

Protocolos clínicos:

1. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Autism spectrum disorder in under 19s: support and management. Diretriz clínica CG170. https://www.nice.org.uk/guidance/cg170

2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Self-harm: assessment, management and preventing recurrence. Diretriz NG225, 2022. https://www.nice.org.uk/guidance/ng225

Estudos científicos:

3. The relationship between camouflaging and mental health in autistic children and adolescents. Autism Research, 2023, 16(1), 190–199. DOI: https://doi.org/10.1002/aur.2859

4. Sex/Gender Differences in Internalizing Problems of Autistic Children and Young People: A Systematic Review and Meta-Analysis. Publicação científica, 2025. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41125201/

5. A systematic review and meta-analysis of mental health outcomes associated with camouflaging in autistic people. Research in Autism Spectrum Disorders, 2024. DOI: https://doi.org/10.1016/j.rasd.2024.102492

6. National Institute of Mental Health. Frequently Asked Questions About Suicide. https://www.nimh.nih.gov/health/publications/suicide-faq