É possível identificar fungos em uma amostra de hemocultura antes de o sistema sinalizar positividade?
Um estudo da Universidade de Chiba, no Japão, mostra que o sequenciamento por nanoporos pode antecipar essa identificação durante a incubação do frasco, oferecendo informações com potencial para orientar a escolha do antifúngico.
Publicado em 21 de agosto de 2026 no periódico Microbiology Spectrum, o trabalho descreve um fluxo analítico de aproximadamente sete horas. A identificação em nível de espécie foi obtida em até uma hora e meia após o início do sequenciamento.
A espécie importa para a decisão clínica
A identificação do agente tem consequências para o tratamento. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, CDC, determinar a espécie de Candida é importante para orientar a terapia da candidíase invasiva. As hemoculturas permanecem como principal recurso diagnóstico, e testes de sensibilidade aos antifúngicos podem ser necessários.
O problema ganha relevância em pacientes com internação prolongada em terapia intensiva, cateter venoso central, neutropenia ou exposição a antibióticos de amplo espectro, condições reconhecidas pelo CDC como fatores de risco. Febre e calafrios são manifestações inespecíficas, o que reforça a importância da investigação laboratorial para esclarecer a etiologia.
Do frasco em incubação ao DNA microbiano
O protocolo começa com a redução do material genético humano. Após a lise seletiva das células do hospedeiro, o tratamento com benzonase diminui o DNA humano disponível na amostra e favorece a análise do material microbiano.
Em seguida, os pesquisadores extraem e amplificam o DNA por PCR e realizam sequenciamento por nanoporos. As leituras são produzidas em tempo real e comparadas com uma base de referência que reúne patógenos fúngicos e bacterianos associados a infecções da corrente sanguínea.
48 amostras clínicas. Oito espécies fúngicas.
A avaliação incluiu Candida albicans, Nakaseomyces glabratus, anteriormente denominada Candida glabrata, e Cryptococcus neoformans, entre outras espécies. Também foram identificadas infecções mistas.
Infecções mistas expõem os limites do método
Os resultados exigem cautela. Em uma amostra com diagnóstico clínico de infecção por Candida parapsilosis, o sequenciamento detectou Staphylococcus epidermidis, sem identificar o fungo. Os autores apontam que a abundância de DNA bacteriano pode encobrir o sinal fúngico.
O momento ideal para retirar a amostra durante a incubação ainda precisa ser definido. A pesquisa também indica a necessidade de ampliar a validação em infecções mistas.
Informação genética e sensibilidade aos antifúngicos
Os dados permitiram investigar variantes candidatas em genes relacionados à resistência.
Para os laboratórios, a perspectiva é acrescentar informação durante a espera pela positividade. A aplicação clínica dependerá de validação adicional, e a possibilidade de melhorar os desfechos dos pacientes permanece como potencial do método.