Teste imunoquímico fecal no SUS: o que muda | Newslab

SUS incorpora teste imunoquímico fecal (FIT) e inaugura nova etapa no rastreamento do câncer colorretal

Procedimento será oferecido a pessoas assintomáticas de 50 a 75 anos e deverá ser repetido a cada dois anos. A efetividade da estratégia dependerá da qualidade laboratorial e do acesso oportuno à colonoscopia

A inclusão do teste imunoquímico fecal, conhecido pela sigla FIT, na tabela de procedimentos do Sistema Único de Saúde estabelece uma nova referência para o rastreamento do câncer colorretal no país. Destinado a homens e mulheres assintomáticos entre 50 e 75 anos, o exame será realizado a cada dois anos e poderá ampliar o acesso de mais de 40 milhões de brasileiros à detecção precoce da doença.

A medida entrou em vigor com a publicação da portaria no Diário Oficial da União, em 10 de agosto. O registro do novo procedimento nos sistemas do SUS está previsto para setembro. Oferecido em modalidade ambulatorial e classificado como procedimento de atenção básica, o FIT passa a integrar um fluxo que envolve coleta domiciliar, análise laboratorial, comunicação do resultado e, nos casos positivos, investigação por colonoscopia.

A mudança responde à magnitude epidemiológica da doença. O Instituto Nacional de Câncer estima 53.810 novos casos de tumores de cólon e reto por ano no Brasil entre 2026 e 2028, com 26.270 diagnósticos entre homens e 27.540 entre mulheres. Excluídos os tumores de pele não melanoma, o câncer colorretal ocupa a segunda posição em incidência no país.

Um teste dirigido à hemoglobina humana

O FIT pesquisa concentrações reduzidas de hemoglobina nas fezes por meio de anticorpos dirigidos contra a globina humana. Esse princípio o diferencia do teste de sangue oculto baseado no guaiaco, cuja reação química pode sofrer influência de componentes presentes na alimentação e não distingue adequadamente a origem do sangramento.

Como a globina tende a ser degradada durante sua passagem pelos segmentos superiores do trato gastrointestinal, o método imunoquímico apresenta maior especificidade para sangramentos provenientes do cólon e do reto. A coleta pode ser realizada em casa, com uma única amostra depositada em dispositivo próprio, sem preparo intestinal ou restrição alimentar prévia.

Essas características reduzem barreiras frequentes no rastreamento. A colonoscopia exige preparo do intestino, infraestrutura especializada e sedação em grande parte dos casos. O FIT, por sua vez, permite selecionar entre indivíduos assintomáticos aqueles que precisam prosseguir para uma avaliação endoscópica.

O exame, contudo, não visualiza o intestino nem identifica diretamente a natureza da lesão. A presença de hemoglobina pode estar associada a adenomas, câncer colorretal ou outras causas de sangramento. Da mesma forma, algumas neoplasias e lesões precursoras podem não sangrar no momento da coleta e permanecer abaixo do limite de detecção.

Desempenho depende do ponto de corte

Segundo o Ministério da Saúde, a sensibilidade do FIT para detectar câncer colorretal situa-se entre 85% e 92%. O intervalo está alinhado aos resultados apresentados no relatório técnico das Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do Câncer de Cólon e Reto, submetido à consulta pública pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde.

A revisão sistemática selecionada pela Conitec reuniu mais de 1,2 milhão de participantes e encontrou sensibilidade de 89% e especificidade de 94% para o FIT, considerando o limite de 10 microgramas de hemoglobina por grama de fezes. Para o teste baseado em guaiaco, a sensibilidade foi de 59% no mesmo conjunto de evidências.

O desempenho é menos favorável para adenomas avançados. No relatório, a sensibilidade estimada do FIT para essas lesões foi de 33%, embora superior aos 15% observados com o método baseado em guaiaco. O dado reforça que um resultado negativo não exclui completamente a presença de lesão precursora ou câncer.

Outra revisão de estudos de acurácia analisada pela Conitec mostrou que a redução do limite de positividade aumenta a sensibilidade, ao custo de mais resultados positivos e maior demanda por colonoscopia. Com ponto de corte de até 10 microgramas por grama, a sensibilidade estimada para câncer colorretal foi de 80%, com especificidade de 91%. Acima de 30 microgramas por grama, a sensibilidade caiu para 66%, enquanto a especificidade alcançou 96%.

A definição do limite, portanto, ultrapassa uma decisão estritamente analítica. Ela interfere na proporção de pessoas encaminhadas à atenção especializada e precisa considerar a capacidade disponível para colonoscopias. O relatório brasileiro recomendou o ponto de corte de 50 nanogramas por mililitro no material diluído, valor equivalente, de maneira aproximada, a 10 microgramas de hemoglobina por grama de fezes.

Métodos qualitativos e quantitativos

O SUS admite o emprego de testes qualitativos e quantitativos. As duas modalidades utilizam anticorpos contra a globina humana, porém produzem informações diferentes.

Os ensaios qualitativos, em geral imunocromatográficos, fornecem uma classificação positiva ou negativa conforme o limite estabelecido pelo fabricante. São mais simples, mas podem apresentar diferenças de desempenho entre marcas e certa variabilidade na interpretação visual.

Os sistemas quantitativos determinam a concentração de hemoglobina fecal e permitem processamento automatizado de grande volume de amostras. Também favorecem a avaliação objetiva dos resultados, a rastreabilidade analítica e a comparação do desempenho ao longo do tempo.

A quantificação oferece maior flexibilidade para programas populacionais, pois permite ajustar o limiar de encaminhamento segundo a capacidade endoscópica. Essa característica exige cautela. Mudanças no ponto de corte alteram a sensibilidade, a taxa de positividade e o número de colonoscopias necessárias. Qualquer ajuste deve estar amparado por protocolo clínico, avaliação epidemiológica e monitoramento contínuo dos desfechos.

A World Endoscopy Organization destaca a necessidade de padronizar unidades, critérios de avaliação e formas de apresentação dos resultados do FIT. Sem essa harmonização, diferenças entre dispositivos, tampões de coleta e sistemas analíticos podem dificultar a comparação entre laboratórios e regiões.

Qualidade começa antes da análise

A expansão do FIT coloca a fase anterior à análise no centro do rastreamento. A quantidade de fezes introduzida no dispositivo, a homogeneização no tampão, o intervalo entre coleta e processamento e as condições de transporte podem interferir na concentração de hemoglobina recuperada.

Temperaturas elevadas e atrasos prolongados podem favorecer a degradação da hemoglobina fecal, com possível redução da positividade. Esse aspecto merece atenção especial em um país de dimensões continentais, com diferenças climáticas acentuadas e redes de transporte laboratorial heterogêneas.

A implantação exige instruções de coleta compreensíveis, identificação inequívoca das amostras, critérios documentados de aceitação e rejeição, validação ou verificação do desempenho do método, controle interno da qualidade e participação em programas de avaliação externa. Os serviços também precisarão acompanhar indicadores como taxa de amostras inadequadas, positividade por faixa etária, repetição de coleta, tempo de liberação e concordância com os achados posteriores da colonoscopia.

A qualidade não se encerra com a emissão do laudo. O resultado deve ser integrado a sistemas capazes de identificar quem precisa de investigação, registrar a conclusão da colonoscopia e reconvocar, após dois anos, as pessoas com resultado negativo que permaneçam na faixa etária recomendada.

Resultado positivo não confirma câncer

O FIT é um exame de rastreamento, não um teste confirmatório. Um resultado positivo indica que houve detecção de hemoglobina na amostra, mas não determina a origem do sangramento nem estabelece diagnóstico de malignidade.

A colonoscopia permanece como o método indicado para investigação dos casos positivos. O procedimento permite examinar diretamente o cólon e o reto, obter biópsias e remover parte das lesões precursoras durante o próprio exame. Quando houver suspeita de câncer, o diagnóstico definitivo dependerá da avaliação anatomopatológica do tecido coletado.

A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, considera que há evidência suficiente de redução da mortalidade por câncer colorretal quando o FIT é realizado a cada dois anos e os resultados positivos são seguidos por colonoscopia. Nas coortes avaliadas pela instituição, a redução relativa da mortalidade variou de 10% a 40%.

Esse benefício pressupõe continuidade assistencial. Um estudo publicado no periódico Gut mostrou que a ausência de colonoscopia após FIT positivo esteve associada ao dobro do risco de morte por câncer colorretal. O resultado evidencia uma limitação central de qualquer programa baseado em testes fecais: o rastreamento perde parte substancial de seu valor quando a confirmação diagnóstica não ocorre.

Rastreamento não deve atrasar a investigação de sintomas

A nova indicação aplica-se exclusivamente a pessoas assintomáticas e com risco padrão. O FIT bienal não deve ser empregado para postergar a investigação de indivíduos com sangramento visível, anemia por deficiência de ferro, alteração persistente do hábito intestinal, perda de peso sem causa conhecida, dor abdominal relevante ou suspeita clínica de câncer.

Pessoas com histórico pessoal de câncer colorretal, pólipos adenomatosos ou doença inflamatória intestinal também podem exigir estratégias distintas. O mesmo vale para indivíduos com síndromes hereditárias, como polipose adenomatosa familiar e síndrome de Lynch, ou com antecedentes familiares que aumentem significativamente o risco.

Nesses grupos, a conduta deve ser definida por avaliação clínica e protocolos específicos, com eventual indicação direta de colonoscopia e início do acompanhamento em idade mais precoce.

O desafio passa da incorporação à execução

A entrada do FIT na tabela do SUS cria uma base concreta para ampliar o rastreamento, mas o resultado populacional dependerá da organização do programa. Distribuir kits sem convocação ativa, controle de retorno, garantia da qualidade e seguimento dos resultados positivos tende a produzir cobertura irregular e perdas ao longo do percurso.

Laboratórios clínicos, atenção primária, serviços de endoscopia e anatomia patológica ocuparão posições complementares nessa linha de cuidado. A capacidade de conectar essas etapas determinará se o novo procedimento funcionará como um exame isolado ou como instrumento efetivo de prevenção e diagnóstico precoce.

Para o câncer colorretal, cuja evolução costuma incluir um período prolongado de lesões precursoras, essa diferença é decisiva. A tecnologia incorporada é simples para o paciente, mas sua efetividade depende de uma rede preparada para transformar o resultado analítico em conduta clínica no tempo adequado.

Fontes consultadas

INCA, inclusão do FIT na tabela de procedimentos do SUS

INCA, Estimativa 2026 a 2028 para incidência de câncer no Brasil

Conitec, Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do Câncer de Cólon e Reto

IARC e OMS, avaliação das evidências sobre rastreamento do câncer colorretal

New England Journal of Medicine, perspectiva da IARC sobre o rastreamento

Gut, impacto da ausência de colonoscopia após FIT positivo

World Endoscopy Organization, padronização e qualidade dos testes FIT