Biomarcadores ganham espaço na luta contra o cancro e prometem tratamentos mais precisos | Newslab

Biomarcadores ganham espaço na luta contra o cancro e prometem tratamentos mais precisos

Ferramentas moleculares ajudam os médicos a diagnosticar precocemente, a prever a evolução da doença e a escolher a terapêutica certa para cada doente

O cancro continua a ser uma das principais causas de morte no mundo, mas a forma de o enfrentar está a mudar. Uma nova geração de exames baseados em biomarcadores — moléculas encontradas no sangue, em tecidos ou noutros fluidos do corpo — vem permitindo diagnósticos mais precoces, prognósticos mais fiáveis e tratamentos moldados ao perfil genético de cada tumor.

De acordo com uma investigação divulgada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do CPAH, sob gestão técnica da Editora Atena), estes marcadores já orientam decisões clínicas em cancros da mama, da próstata, do pulmão e do trato gastrointestinal, entre os mais comuns no Brasil.

O que são e para que servem
Segundo o estudo, conduzido por João Antônio Olle e colegas da Universidade do Brasil, campus Canoas, com supervisão do professor Thiago Silveira de Moura, os biomarcadores dividem-se em três grandes grupos:

● Diagnósticos, que confirmam a presença do tumor ou identificam o seu subtipo

● Prognósticos, que indicam o risco de recidiva e a probabilidade de sobrevivência, independentemente do tratamento

● Preditivos, que apontam a probabilidade de resposta a uma terapêutica específica

Esta classificação orienta desde o rastreio inicial até ao acompanhamento após o início do tratamento.

Da bioquímica clássica à biópsia líquida
Marcadores tradicionais como o PSA, o CA 15-3, o CEA e o HER2 continuam presentes na rotina médica, mas apresentam limitações de sensibilidade e especificidade. Por isso, a investigação tem-se voltado para alternativas menos invasivas, como a chamada biópsia líquida.

Esta técnica analisa amostras de sangue em busca de ADN tumoral circulante e de células tumorais circulantes, permitindo monitorizar a evolução do cancro sem necessidade de novas biópsias ao tecido. O estudo destaca ainda o papel crescente dos microRNAs e das alterações epigenéticas, como a metilação de determinados genes, na identificação precoce de tumores.

Terapêuticas guiadas por mutações específicas
Um dos avanços mais relevantes apontados pela revisão é o uso de biomarcadores para orientar terapêuticas-alvo e imunoterapias. Mutações em genes como KRAS, BRAF, EGFR e ALK, além da expressão da proteína PD-L1, ajudam os médicos a decidir quais os doentes que beneficiam de determinados medicamentos e quais os que provavelmente não responderão a eles.

No cancro do pulmão de células não pequenas, por exemplo, apenas os doentes com biomarcadores positivos costumam responder a tratamentos direcionados, o que evita a exposição de outros doentes a terapêuticas caras e potencialmente tóxicas sem benefício real.

Desafios que ainda é preciso superar
Apesar dos avanços, os autores alertam que o uso isolado de um único biomarcador pode levar a interpretações erradas, já que a variabilidade biológica entre doentes e a heterogeneidade dos tumores reduzem a precisão de indicadores usados de forma isolada. A recomendação é integrar diferentes marcadores com exames de imagem e com dados histopatológicos, além de investir na normalização das técnicas laboratoriais.