Estudo mostra que atividades entre crianças e idosos reduzem sintomas de ansiedade em unidades de saúde | Newslab

Estudo mostra que atividades entre crianças e idosos reduzem sintomas de ansiedade em unidades de saúde

A investigação foi publicada pela revista Qualis A Open Minds, propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena.

Colocar crianças, adultos e idosos a conviver e a trocar experiências dentro de unidades básicas de saúde pode ser uma estratégia eficaz para reduzir sintomas de ansiedade, segundo um novo estudo brasileiro. A investigação foi publicada pela revista Qualis A Open Minds, propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena.

O trabalho reúne uma equipa de onze investigadores, entre eles Dalma Régia Monteiro Silva, Lucas Martins Monteiro, Lucas Guimarães Marinho, Marisa Pereira Monteiro, Larissa Rebeca Siqueira Araújo, Raynara Dias Marques, Ana Cristina Cruz Aguiar Câmara, Marilda Monteiro Silva, Mayara Pereira Lima Paiva, Emiliana Cruz Aguiar e Barbara Taise Barbosa Cunha.

Ansiedade é uma das perturbações mais comuns do mundo
A ansiedade está entre as perturbações mentais mais prevalentes a nível mundial, com impacto direto na qualidade de vida, no funcionamento social e na capacidade produtiva das pessoas. Segundo os autores, mesmo com protocolos clínicos já estabelecidos nos Cuidados de Saúde Primários, estratégias que promovem a interação social e o reforço de laços comunitários podem potenciar os efeitos do cuidado tradicional.

Foi neste contexto que os investigadores decidiram investigar a intergeracionalidade, entendida como a interação estruturada entre pessoas de diferentes faixas etárias, como uma possível estratégia complementar de cuidado dentro das unidades de saúde.

Como o estudo foi conduzido
A investigação teve carácter exploratório, combinando métodos quantitativos e qualitativos. Participaram de forma voluntária 65 pessoas de diferentes idades, distribuídas da seguinte forma:

● 15 crianças, entre os 6 e os 12 anos

● 12 adolescentes, entre os 13 e os 17 anos

● 20 adultos, entre os 18 e os 59 anos

● 18 idosos, com 60 ou mais anos

Antes e depois das atividades, os participantes responderam à escala GAD-7, um instrumento amplamente utilizado para medir sintomas de ansiedade generalizada. Foram ainda realizadas entrevistas semiestruturadas e observação participante durante as atividades, que incluíram dinâmicas de grupo, troca de experiências, leitura coletiva e rodas de conversa sobre estratégias para lidar com a ansiedade.

Redução de mais de 30% nos sintomas de ansiedade
Segundo os resultados, verificou-se uma redução média de 34,2% nas pontuações da escala GAD-7 após as atividades intergeracionais, considerando todos os grupos etários avaliados. A melhoria mais expressiva ocorreu entre as crianças, com uma queda de 40,4%, e entre os idosos, com uma redução de 38,5%. Os adolescentes e os adultos também apresentaram melhorias, embora de menor intensidade.

Os investigadores associam este resultado ao contacto entre diferentes gerações combinado com atividades participativas, que terá funcionado como fator de proteção contra sintomas de ansiedade.

O que os participantes relataram sentir
A análise qualitativa das entrevistas identificou quatro categorias centrais nos relatos dos participantes:

● Interação social positiva, com envolvimento em dinâmicas de grupo e troca de experiências.

● Desenvolvimento de competências socioemocionais, como empatia, cooperação e resiliência.

● Reforço de laços comunitários, com maior sentido de pertença.

● Aprendizagem mútua, com troca de conhecimentos entre gerações diferentes.

Um dos relatos citados no estudo resume bem esta perceção: os participantes descreveram ter gostado de conversar com os idosos e de aprender com as suas histórias, ao mesmo tempo que se sentiram parte de algo importante para o grupo como um todo.

Os profissionais de saúde envolvidos no estudo relataram ainda maior adesão às orientações clínicas e uma participação mais ativa dos utentes nas atividades da unidade após o programa.

Limitações reconhecidas pelos próprios autores
Os investigadores fazem questão de destacar as limitações do trabalho. A amostra foi pequena e restrita a unidades específicas de Cuidados de Saúde Primários, e o período de acompanhamento foi curto, o que impede avaliar os efeitos a longo prazo da intervenção. A heterogeneidade dos grupos etários também pode ter influenciado a resposta às atividades propostas.

Por isso, os autores recomendam que estudos futuros alarguem a amostra, utilizem um período de acompanhamento mais longo e testem a intervenção em diferentes contextos, de modo a confirmar a sustentabilidade dos resultados observados.

O que os investigadores concluem
Segundo os autores, a intergeracionalidade revelou-se uma estratégia inovadora e eficaz de cuidado complementar nos Cuidados de Saúde Primários, capaz de reduzir sintomas de ansiedade, reforçar laços sociais e desenvolver competências socioemocionais em participantes de diferentes idades. O estudo sugere que este tipo de prática pode representar um caminho promissor de inovação para a saúde pública, ao integrar ações educativas, comunitárias e terapêuticas dentro do cuidado tradicional.