Vírus Nipah e vigilância global, lições da Covid-19 | Newslab

Vírus Nipah, vigilância global e os aprendizados deixados pela Covid

por Guilherme Ambar, biólogo, CEO da Seegene Brasil e diretor de Inovação da CBDL

Nas últimas décadas, o mundo tem testemunhado o surgimento e a reemergência de diversos agentes infecciosos com potencial pandêmico. Entre eles, o vírus Nipah merece atenção especial por sua alta letalidade, capacidade de transmissão e impacto sobre a saúde pública. Monitorado de forma contínua pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Nipah representa um exemplo claro da importância da vigilância epidemiológica global e do quanto aprendemos com a pandemia de Covid-19.

Descrito pela OMS como uma zoonose grave, o vírus Nipah é transmitido principalmente por morcegos frugívoros, que ser alimentam de frutas, do gênero Pteropus. A infecção em humanos pode ocorrer por meio do consumo de alimentos contaminados, do contato com animais infectados, especialmente porcos, ou ainda pela transmissão direta entre pessoas, por meio de secreções respiratórias e corporais. Desde 2001, surtos são registrados anualmente em Bangladesh, com 347 casos confirmados até 2025 e uma taxa de letalidade que ultrapassa 70%, um dado que por si só já demonstra a gravidade da doença. Mas o vírus foi identificado, primeiramente, na Malásia e com registros nas Filipinas, Singapura e na Índia.

O quadro clínico do Nipah costuma se iniciar de forma inespecífica, com febre, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta. Em muitos casos, no entanto, a evolução é rápida e severa, progredindo para encefalite aguda, sonolência, convulsões e coma em apenas 24 a 48 horas.

Complicações respiratórias, como pneumonia grave, também são frequentes. Essa progressão acelerada dificulta o diagnóstico precoce e reforça a necessidade de sistemas de vigilância eficientes e integrados. A mortalidade varia bastante de 40% a mais de 70%, já tendo chegado a 90% em alguns surtos. Os motivos seriam diferentes cepas, método de contágio, já que direto do morcego, por exemplo, a carga viral tende a ser maior, condições de saúde prévia dos infectados e o acesso rápido ou não ao tratamento intensivo.

Atualmente, não existem vacinas ou medicamentos específicos aprovados para o tratamento do vírus Nipah. O manejo dos pacientes baseia-se em cuidados intensivos de suporte, voltados principalmente às complicações neurológicas e respiratórias. Ao mesmo tempo, a OMS coordena e estimula o desenvolvimento de candidatos vacinais e terapêuticos, reconhecendo o potencial risco global representado pelo vírus. Em 2025, por exemplo, Bangladesh registrou quatro casos fatais isolados, levando a OMS a classificar o risco como moderado em nível nacional e baixo em escala global, uma avaliação possível justamente graças ao monitoramento constante.

Esse acompanhamento sistemático é um dos pilares da segurança sanitária internacional. Ao reunir dados epidemiológicos, mapear surtos, analisar padrões de transmissão e apoiar países na resposta rápida, a OMS contribui para que ameaças como o Nipah não sejam negligenciadas até se tornarem crises globais. A vigilância não é apenas uma ferramenta de reação, mas, sobretudo, de prevenção.

A pandemia de Covid-19 deixou lições valiosas nesse sentido. Aprendemos, de forma muitas vezes dolorosa, que atrasos na identificação de surtos, falhas na comunicação científica e falta de integração entre países podem custar milhões de vidas. Por outro lado, também vimos o poder da ciência quando ela é apoiada: o sequenciamento genético rápido, o desenvolvimento acelerado de vacinas, a ampliação da testagem e o uso de dados em tempo real transformaram a forma como lidamos com emergências sanitárias.

No contexto do vírus Nipah, esses aprendizados são fundamentais. Hoje, dispomos de tecnologias mais avançadas para diagnóstico molecular, monitoramento genômico e rastreamento de contatos. Empresas de biotecnologia, centros de pesquisa e autoridades sanitárias trabalham de maneira cada vez mais integrada, criando uma rede global de alerta precoce. Esse ecossistema científico é resultado direto da experiência adquirida durante a Covid-19.

Além disso, a pandemia reforçou a importância do conceito de “Uma Só Saúde” (One Health), que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. O Nipah, por ser uma zoonose ligada ao desmatamento, à urbanização desordenada e à proximidade entre humanos e animais silvestres, ilustra perfeitamente essa conexão. Monitorar esse vírus é também monitorar o impacto das nossas ações sobre os ecossistemas.

Em um mundo cada vez mais interconectado, nenhuma ameaça sanitária é verdadeiramente local. O fato de o risco global do Nipah ser atualmente considerado baixo não significa que ele possa ser ignorado. Pelo contrário: é justamente o monitoramento contínuo que mantém esse risco sob controle. A história recente nos mostrou que a vigilância, a transparência e o investimento em ciência não são custos, mas salvaguardas essenciais para o futuro.

A prevenção começa muito antes das manchetes e das emergências declaradas. Começa na coleta de dados, na cooperação internacional, no fortalecimento dos sistemas de saúde e no compromisso com a pesquisa.

Os aprendizados da Covid-19 nos deram ferramentas, conhecimento e, sobretudo, consciência. Cabe agora utilizá-los de forma responsável, para que vírus como o Nipah permaneçam sob vigilância, e não se transformem na próxima grande crise global.

Guilherme Ambar