Teste salivar para câncer pode detectar tumores em cerca de 1 h | Newslab

Teste salivar rápido pode ampliar estratégias de detecção precoce de câncer

Nova plataforma baseada em biossensores e espectroscopia Raman detecta biomarcadores tumorais na saliva em cerca de uma hora

Pesquisadores australianos desenvolveram um método diagnóstico capaz de identificar biomarcadores associados a diferentes tipos de câncer utilizando apenas uma amostra de saliva, com tempo de análise aproximado de uma hora. A tecnologia, baseada em sensores nanoestruturados e espectroscopia Raman aprimorada, representa um avanço no campo do diagnóstico molecular não invasivo e pode contribuir para ampliar o acesso ao rastreamento precoce da doença.

O estudo foi conduzido por cientistas da Queensland University of Technology (QUT), na Austrália, e descreve um sistema portátil que detecta a proteína S100P, um biomarcador já associado a tumores como os de pâncreas, cólon, próstata e cavidade oral. O trabalho foi publicado no periódico científico Talanta, especializado em química analítica e desenvolvimento de métodos instrumentais.

Biossensor baseado em nanopartículas

A tecnologia utiliza um sensor de papel funcionalizado com nanopartículas de ouro e prata. Esse arranjo nanométrico permite explorar a técnica de espectroscopia Raman intensificada por superfície, conhecida como SERS (Surface-Enhanced Raman Spectroscopy), que amplifica o sinal espectroscópico de moléculas específicas presentes na amostra biológica.

Para conferir seletividade ao sistema, anticorpos específicos para o biomarcador S100P são imobilizados na superfície do sensor por meio de um processo fotoquímico que utiliza LEDs de ultravioleta profundo. Quando a saliva entra em contato com o dispositivo, a proteína alvo se liga ao sensor, permitindo que seu espectro Raman seja detectado por um leitor portátil.

Os pesquisadores também desenvolveram um microdispositivo de extração baseado em papel capaz de concentrar o biomarcador antes da análise, etapa que aumenta a sensibilidade e reduz interferências da matriz biológica. O resultado é um método analítico rápido, de baixo custo e potencialmente aplicável fora de laboratórios especializados.

Saliva como matriz diagnóstica emergente

A utilização da saliva como fluido diagnóstico tem ganhado relevância nos últimos anos, impulsionada pelo avanço de tecnologias ômicas, biossensores e microfluídica. Diferentemente de exames baseados em sangue ou biópsias, a coleta salivar é simples, não invasiva e pode ser realizada em ambientes clínicos ou até em estratégias de triagem populacional.

Estudos em biologia molecular demonstram que a saliva contém uma grande diversidade de biomarcadores, incluindo DNA, RNA, proteínas e metabólitos capazes de refletir alterações sistêmicas do organismo. Essas assinaturas moleculares podem revelar a presença de doenças, inclusive neoplasias, uma vez que células tumorais liberam moléculas específicas que acabam circulando em fluidos biológicos.

Esse conceito se aproxima do paradigma da chamada “biópsia líquida”, abordagem diagnóstica que busca identificar sinais moleculares de tumores em fluidos corporais sem a necessidade de procedimentos invasivos.

Perspectivas para diagnóstico point-of-care

O principal diferencial da tecnologia desenvolvida pela equipe australiana está na combinação de portabilidade, baixo custo e rapidez de análise. Em tese, o dispositivo poderia ser utilizado em ambientes de point-of-care, clínicas ambulatoriais ou programas de rastreamento, reduzindo barreiras logísticas para diagnóstico precoce.

Embora os resultados sejam promissores, especialistas ressaltam que tecnologias desse tipo ainda precisam passar por etapas adicionais de validação clínica antes de serem incorporadas à prática médica. Ensaios com maior número de amostras, padronização de protocolos e avaliação da sensibilidade e especificidade diagnóstica são etapas essenciais para a translação da pesquisa para o ambiente clínico.

Tendência em diagnóstico molecular

A pesquisa se insere em um movimento mais amplo da medicina diagnóstica, que busca métodos cada vez menos invasivos, mais rápidos e capazes de detectar doenças em estágios iniciais. Nesse contexto, plataformas baseadas em biossensores, nanotecnologia e análise espectroscópica têm sido apontadas como uma das principais tendências da próxima geração de diagnósticos laboratoriais.

Se confirmada em estudos clínicos ampliados, a abordagem baseada em saliva poderá complementar estratégias atuais de rastreamento oncológico, contribuindo para ampliar a detecção precoce e, consequentemente, melhorar o prognóstico de pacientes com diferentes tipos de câncer.