Tratamento do câncer de cabeça e pescoço avança | Newslab

Julho Verde: estudo com participação brasileira indica que radioterapia em menos sessões mantém eficácia em câncer de cabeça e pescoço

O mês de julho é dedicado à conscientização sobre os cânceres de cabeça e pescoço, tumores frequentemente diagnosticados em fases avançadas. Pesquisa internacional de fase 3, que contou com a participação direta do Brasil e teve um pesquisador brasileiro entre os autores, mostrou que um esquema mais curto de radioterapia manteve os resultados de controle da doença, sobrevida e segurança observados no tratamento convencional

O Julho Verde, mês dedicado à conscientização sobre os cânceres de cabeça e pescoço, chama a atenção para a importância do diagnóstico precoce e dos avanços que vêm ampliando as possibilidades de tratamento desses tumores. Uma das novidades mais recentes vem da radioterapia. Publicado no International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics, o estudo HYPNO, de fase 3, demonstrou que um esquema de tratamento realizado em 20 sessões apresentou resultados semelhantes aos obtidos com o modelo convencional de 33 sessões em pacientes com câncer de cabeça e pescoço em estágio localmente avançado, quando a doença já ultrapassou o local onde surgiu e compromete estruturas vizinhas ou os gânglios linfáticos do pescoço, mas sem apresentar metástases em outras partes do corpo.

A pesquisa acompanhou 792 pacientes atendidos em 12 centros de 10 países de média e baixa renda, incluindo o Brasil. O Brasil participou diretamente da pesquisa por meio do Hospital de Amor, em Barretos (SP), responsável pela inclusão de 148 pacientes, cerca de 19% de toda a amostra, o que representa a segunda maior contribuição do estudo. O radio-oncologista Alexandre Arthur Jacinto, da instituição, é o único pesquisador brasileiro a integrar a lista de autores do trabalho. Os participantes permaneceram em acompanhamento por cerca de três anos e meio. Ao final do estudo, os pesquisadores observaram taxas semelhantes de controle local da doença, sobrevida global e ocorrência de efeitos colaterais graves entre os dois grupos.

Na avaliação do radio-oncologista Alexandre Arthur Jacinto, os resultados têm relevância especial para países que enfrentam limitações no acesso ao tratamento oncológico. “Além de reduzir em cerca de 40% o número de sessões, a estratégia também diminui o tempo total de tratamento. Isso representa mais comodidade para os pacientes e pode contribuir para ampliar a capacidade de atendimento dos serviços de radioterapia, especialmente em sistemas de saúde que convivem com restrições de infraestrutura”, afirma Jacinto, que é membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT).

A radioterapia está entre as principais modalidades terapêuticas utilizadas no tratamento do câncer. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 60% dos pacientes oncológicos precisarão receber radioterapia em algum momento da jornada de tratamento, seja de forma isolada ou combinada com cirurgia, quimioterapia, imunoterapia ou outras abordagens.

Nos tumores que acometem regiões como boca, língua, garganta, faringe e laringe, a radioterapia desempenha papel importante tanto no controle da doença quanto na preservação de funções essenciais, como fala, mastigação, deglutição e respiração. “O estudo demonstrou que é possível reduzir o número de sessões sem comprometer a eficácia do tratamento ou aumentar a toxicidade. Esse é um resultado particularmente relevante para países de renda média e baixa, onde o acesso à radioterapia ainda representa um desafio importante”, explica Jacinto.

Entre as tecnologias mais utilizadas está a Radioterapia de Intensidade Modulada (IMRT), que permite moldar os feixes de radiação ao formato do tumor. Dessa forma, doses mais elevadas podem ser direcionadas à área doente enquanto estruturas saudáveis localizadas ao redor recebem menor exposição à radiação.

Apesar dos avanços, especialistas alertam que o acesso à radioterapia ainda representa um desafio em diversas regiões do país. A concentração dos serviços nos grandes centros faz com que muitos pacientes precisem percorrer longas distâncias diariamente durante semanas para realizar o tratamento. Nesse cenário, estratégias capazes de reduzir o número de sessões podem beneficiar tanto os pacientes quanto a organização dos serviços de saúde.

Tipos de cânceres de cabeça e pescoço

Os cânceres de cabeça e pescoço compreendem um grupo de tumores que podem surgir em diferentes estruturas da boca, garganta, nariz e pescoço. Embora acometam regiões distintas, muitos compartilham fatores de risco importantes, especialmente o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Nos últimos anos, a infecção pelo HPV também passou a desempenhar papel relevante, principalmente nos tumores de orofaringe.

Tipos de cânceres de cabeça e pescoço

Os cânceres de cabeça e pescoço compreendem um grupo de tumores que podem surgir em diferentes estruturas da boca, garganta, nariz e pescoço. Embora acometam regiões distintas, muitos compartilham fatores de risco importantes, especialmente o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Nos últimos anos, a infecção pelo HPV também passou a desempenhar papel relevante, principalmente nos tumores de orofaringe.

Entre os principais tumores desse grupo estão:

Cavidade oral: língua, gengiva, céu da boca, assoalho da boca, bochechas e lábios
Faringe: nasofaringe, orofaringe e hipofaringe
Laringe: região das cordas vocais
Tireoide
Seios paranasais: cavidades localizadas ao redor do nariz e dos olhos
Glândulas salivares maiores: parótidas, submandibulares e sublinguais
Nariz e cavidade nasal

Embora seja tradicionalmente incluído entre os tumores de cabeça e pescoço, o câncer de tireoide apresenta características próprias. Diferentemente dos tumores da cavidade oral, faringe e laringe, ele geralmente não está relacionado ao consumo de tabaco ou álcool, costuma apresentar evolução mais lenta e, em muitos casos, é identificado a partir do aparecimento de um nódulo na região anterior do pescoço ou durante exames de imagem realizados por outros motivos.

De acordo com o radio-oncologista Wilson de Almeida Jr, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), a detecção precoce continua sendo um dos principais desafios dos cânceres de cabeça e pescoço. “Muitos pacientes apresentam sinais e sintomas nas fases iniciais da doença, mas frequentemente são confundidos com problemas benignos, o que pode atrasar o diagnóstico. Além disso, diferentemente de outros tipos de câncer, não há um método de rastreamento estabelecido para a população em geral”, alerta.

Dessa forma, consultas regulares com médicos, dentistas e estomatologistas podem contribuir para a identificação precoce de alterações suspeitas. “Feridas na boca que não cicatrizam por mais de duas semanas, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, dor de garganta prolongada, sangramentos sem causa aparente ou caroços no pescoço merecem investigação. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de sucesso do tratamento e menores tendem a ser os impactos na qualidade de vida do paciente”, conclui Almeida.

Referência bibliográfica

Bentzen SM, Gupta T, Jacinto AA, Rosenblatt E, Bhasker S, Napoles M, Binia S, Chansilpa Y, Aguiar S, Nagarajan M, Laskar SG, De Marchi P, Goloubeva O, Hopkins K, Zubizarreta E, Agarwal JP, Abdel-Wahab M. Hypofractionated Versus Normofractionated Accelerated Radiation Therapy With or Without Cisplatin for Locally Advanced Head and Neck Squamous Cell Carcinoma (HYPNO): A Randomized, Open-Label, Phase 3, Noninferiority Trial. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2026 Jun 1;125(2):387-398. Disponível em https://www.redjournal.org/article/S0360-3016(26)00020-9/fulltext