Insuficiência cardíaca exige diagnóstico precoce | Newslab

Dia Nacional de Alerta à Insuficiência Cardíaca reforça prioridade do diagnóstico precoce

Celebrada em 9 de julho, a data chama atenção para uma síndrome progressiva que exige reconhecimento clínico, apoio laboratorial qualificado e acompanhamento contínuo

Celebrado em 9 de julho, o Dia Nacional de Alerta contra a Insuficiência Cardíaca foi oficializado pelo Departamento de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Brasileira de Cardiologia após uma iniciativa iniciada em Niterói, em homenagem a Carlos Chagas. A escolha da data aproxima a cardiologia contemporânea de um marco científico brasileiro, já que a doença de Chagas segue associada a alterações cardíacas crônicas, arritmias, insuficiência cardíaca progressiva e morte súbita em parte dos pacientes infectados.

A insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica em que o coração perde capacidade de suprir adequadamente as necessidades circulatórias do organismo. Não significa parada do coração, mas uma condição crônica, progressiva e potencialmente grave, que pode decorrer de hipertensão arterial, doença coronariana, infarto prévio, diabetes, obesidade, valvopatias, cardiomiopatias e outras doenças estruturais ou funcionais do coração.

No Brasil, publicação da Rede HU Brasil, vinculada à Ebserh, informa que cerca de 2 milhões de brasileiros vivem com insuficiência cardíaca, com aproximadamente 240 mil novos casos ao ano. A mesma fonte destaca que a doença está entre as principais causas de internação por doenças cardiovasculares no país.

O alerta é particularmente importante porque os sintomas podem ser atribuídos, de forma equivocada, ao envelhecimento, ao sedentarismo ou ao cansaço cotidiano. Falta de ar aos esforços, dificuldade para respirar ao deitar, edema em pernas, tornozelos ou pés, ganho de peso por retenção de líquido, fadiga intensa, fraqueza e tosse persistente, especialmente à noite, devem motivar avaliação médica. Sinais como falta de ar intensa em repouso, sensação de sufocamento, dor torácica persistente, confusão mental, desmaio, lábios arroxeados ou palpitações com sensação de desmaio iminente exigem atendimento imediato.

O diagnóstico não depende de um exame isolado. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida, aprovado pelo Ministério da Saúde em 2024, define a investigação a partir de sinais e sintomas sugestivos, evidência de alteração estrutural ou funcional cardíaca, congestão sistêmica ou pulmonar de origem cardiogênica e níveis elevados de peptídeos natriuréticos. Eletrocardiograma, radiografia de tórax, dosagem de BNP ou NT proBNP e ecocardiografia transtorácica compõem a avaliação conforme a probabilidade clínica.

Os peptídeos natriuréticos ocupam papel estratégico. BNP e NT proBNP são biomarcadores utilizados internacionalmente no diagnóstico e no manejo da insuficiência cardíaca em adultos, com valor na estratificação prognóstica. No PCDT brasileiro, os pontos de corte citados para apoio diagnóstico são 35 pg/mL para BNP e 125 pg/mL para NT proBNP, lembrando que a probabilidade de insuficiência cardíaca aumenta conforme os níveis se elevam. Resultados positivos, porém, precisam ser interpretados no contexto clínico e confirmados por ecocardiografia quando indicado, pois esses biomarcadores podem se elevar em síndrome coronariana aguda, embolia pulmonar, miocardite, doença valvar, disfunção renal, infecções graves, anemia e alterações metabólicas ou hormonais.

A abordagem atual também reforça a necessidade de integração entre atenção primária, cardiologia, laboratório, imagem cardiovascular, enfermagem, farmácia clínica, nutrição, fisioterapia e reabilitação. A Organização Mundial da Saúde destaca que doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no mundo e que a detecção precoce é essencial para que o manejo com aconselhamento e medicamentos seja iniciado em tempo oportuno.

No SUS, o PCDT de 2024 cita medicamentos com impacto positivo na sobrevida de pacientes com insuficiência cardíaca, incluindo inibidores da enzima conversora de angiotensina, betabloqueadores, antagonistas da aldosterona, dapagliflozina e sacubitril valsartana, conforme critérios clínicos definidos. O documento também reforça medidas não medicamentosas, como orientação dietética e prática de atividade física, dentro de um plano terapêutico individualizado.

As diretrizes internacionais seguem em atualização. A European Society of Cardiology publicou atualização focada em 2023 após novos ensaios clínicos randomizados, com mudanças em recomendações para diferentes fenótipos de insuficiência cardíaca, incluindo fração de ejeção levemente reduzida, fração preservada, comorbidades e insuficiência cardíaca aguda.

No Dia Nacional de Alerta, a principal mensagem para pacientes, profissionais e gestores é objetiva. Insuficiência cardíaca deve ser reconhecida cedo, investigada com método e acompanhada de forma contínua. Em uma condição marcada por descompensações, reinternações e perda funcional, a diferença entre atraso e intervenção oportuna pode estar no olhar clínico atento, na interpretação adequada dos exames e na organização de uma linha de cuidado capaz de sustentar o tratamento ao longo do tempo.