Exames rápidos veterinários: riscos da falsa segurança diagnóstica | Newslab

Exames rápidos: a falsa segurança no diagnóstico veterinário

Rapidez, quando interpretada sem contexto clínico e laboratorial, pode transformar triagem em erro diagnóstico

A promessa da rapidez

Os testes rápidos tornaram-se ferramentas amplamente utilizadas na rotina veterinária por oferecerem resultados em poucos minutos, baixo custo operacional e facilidade de execução. Essa combinação criou a percepção de segurança diagnóstica imediata, muitas vezes interpretada como definitiva. No entanto, rapidez não é sinônimo de precisão diagnóstica.

Limitações analíticas pouco discutidas

A maioria dos exames rápidos baseia-se em métodos imunocromatográficos, dependentes da interação antígeno-anticorpo. Isso os torna altamente sensíveis a fatores como fase da infecção, carga antigênica, resposta imunológica do hospedeiro e qualidade da amostra. Resultados falso-negativos são comuns em fases iniciais da doença, enquanto falso-positivos podem ocorrer por reações cruzadas.

Janela imunológica e interpretação equivocada

Um dos principais riscos está na chamada janela imunológica. Animais recentemente infectados podem apresentar resultado negativo, levando à falsa exclusão diagnóstica. Em doenças como leishmaniose, erliquiose e leptospirose, a soroconversão tardia compromete a confiabilidade do teste isolado, exigindo confirmação por métodos complementares.

O erro não está no teste, mas no uso

Os exames rápidos não devem ser encarados como ferramentas conclusivas, mas como testes de triagem. O erro mais frequente ocorre quando o resultado é interpretado sem correlação clínica, epidemiológica e laboratorial. A ausência de protocolos confirmatórios transforma uma ferramenta útil em fonte de decisões equivocadas.

Diagnóstico integrado como padrão

O diagnóstico veterinário seguro deve ser construído a partir da integração entre clínica, histórico epidemiológico e métodos laboratoriais complementares, como PCR, ELISA quantitativo e exames parasitológicos. Diretrizes internacionais reforçam que testes rápidos devem orientar decisões iniciais, nunca encerrá-las.

Considerações Finais

A falsa segurança dos exames rápidos reside menos na tecnologia e mais na forma como são utilizados. Reconhecer suas limitações é fundamental para evitar diagnósticos incompletos, atrasos terapêuticos e impactos negativos na saúde animal e coletiva.

Referências

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Foto da Dra. Alice Sampaio Del Colletto, biomédica e pesquisadora

Sobre a autora

Dra. Alice Sampaio Del Colletto

Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), biomédica com habilitação em histotecnologia clínica e anatomia. Atua como coordenadora dos cursos de Biomedicina e Medicina Veterinária no Centro Universitário Estácio de Santo André e como Pró Reitora de Pesquisa, Extensão e Internacionalização da mesma instituição. É pesquisadora associada ao Laboratório de Biotecnologia e Bioengenharia Celular e Molecular da UFABC. Suas áreas de atuação envolvem anatomia comparada, histotecnologia, imuno-histoquímica, oncologia, biotecnologia e pesquisa translacional em saúde.