Exame dd-cfDNA auxilia monitoramento pós-transplante | Newslab

Novo exame de DNA no sangue ajuda a evitar biópsias desnecessárias em pacientes transplantados

Tecnologia passa a ser oferecida pelo Igen/AFIP e auxilia médicos no monitoramento de órgãos transplantados por meio de um exame de sangue simples

Acompanhar a saúde de um órgão transplantado costuma significar uma rotina de exames frequentes e, diante de qualquer suspeita de rejeição, a possibilidade de uma biópsia. Embora seja considerada o padrão ouro para confirmar o diagnóstico, a técnica exige a retirada de uma amostra do órgão para análise, envolve riscos inerentes a um procedimento invasivo e pode gerar desconforto ao paciente.

Uma nova tecnologia disponível no Brasil busca acrescentar uma camada de informação a esse acompanhamento. O Instituto de Imunogenética (Igen/AFIP) passa a oferecer o exame de DNA livre circulante derivado do doador, conhecido pela sigla dd-cfDNA, um biomarcador capaz de identificar sinais de lesão no órgão transplantado por meio de uma simples coleta de sangue.

A proposta não é substituir a biópsia, mas ajudar médicos a identificar situações em que a probabilidade de rejeição é baixa, contribuindo para evitar procedimentos invasivosdesnecessários. “Quem faz o diagnóstico de rejeição continua sendo a biópsia. O papel do dd-cfDNA é diferente. Quando o resultado vem abaixo do ponto de corte, a probabilidade de rejeição é muito baixa. Isso ajuda a equipe médica a avaliar melhor a necessidade de uma biópsia naquele momento”, explica Renato De Marco, biomédico, especialista em histocompatibilidade e diretor do Igen.

Como funciona o exame

O teste se baseia em um princípio já conhecido da medicina molecular. Todas as células do organismo liberam fragmentos de DNA na corrente sanguínea. Em pacientes transplantados, uma pequena parte desse material genético é proveniente do órgão recebido, ou seja, DNA vindo do doador.

Quando ocorre algum tipo de lesão no enxerto, seja por rejeição, infecção ou outras condições clínicas, a quantidade de DNA derivado do doador presente no sangue pode aumentar. A partir dessa informação, o exame oferece aos médicos mais um elemento para acompanhar a saúde do órgão transplantado.

O resultado não determina sozinho a causa da lesão e nem confirma rejeição. Sua principal contribuição está no chamado valor preditivo negativo. Em outras palavras, quando o resultado está abaixo do ponto de corte estabelecido, a chance de não haver rejeição é elevada.

Dados analisados pelo Igen mostram que aproximadamente 80% das biópsias realizadas por suspeita de disfunção do enxerto não confirmaram rejeição. Segundo De Marco, esse cenário demonstra o potencial do exame como ferramenta complementar na tomada de decisão clínica. “Quando o teste apresenta resultado negativo, é muito provável que não exista rejeição. Isso pode ajudar a evitar biópsias desnecessárias. Quando o resultado é positivo, a equipe médica ainda precisa investigar a causa da lesão e, muitas vezes, recorrer à biópsia para definir o diagnóstico e a conduta”, afirma.

Menos invasivo, mais monitoramento

No caso do transplante renal, um dos principais sinais de alerta utilizados atualmente é o aumento da creatinina. O problema é que essa alteração costuma aparecer quando algum grau de lesão já está instalado.

Pesquisas internacionais apontam que alterações nos níveis de dd-cfDNA podem surgir antes de alguns sinais clínicos tradicionalmente utilizados para monitorar a função dos órgãos transplantados. Embora sejam necessários mais estudos na população brasileira, especialistas consideram que a tecnologia representa um avanço importante na busca por métodos menos invasivos e mais sensíveis de acompanhamento.

A coleta do exame é semelhante à de outros exames laboratoriais de rotina. O diferencial está no uso de tubos específicos que preservam a amostra e permitem a análise molecular por sequenciamento de nova geração, tecnologia já empregada pelo Igen em exames de histocompatibilidade utilizados na área de transplantes. O resultado fica disponível em até três dias.

Crescimento dos transplantes amplia demanda por novas tecnologias

A chegada do exame ao mercado brasileiro ocorre em um momento de expansão do sistema nacional de transplantes. Dados do Ministério da Saúde mostram que o país realizou cerca de 31 mil transplantes em 2025, o maior número já registrado. Entre os procedimentos mais frequentes estão os transplantes de rim, fígado e coração.

O Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo e é o quarto país que mais realiza transplantes renais e hepáticos, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Índia. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), foram realizados 9.935 transplantes de órgãos sólidos em 2025, um crescimento em relação aos 9.458 procedimentos registrados em 2024. Apesar desse avanço, mais de 80 mil pessoas ainda aguardam por um transplante no país.

Nesse cenário, novas tecnologias de monitoramento ganham relevância para qualificar o acompanhamento pós-transplante. O exame de dd-cfDNA pode ser aplicado em receptores de órgãos sólidos, como rim, fígado, coração e pulmão, e não é indicado para transplantes de córnea. Ainda segundo dados de dezembro de 2025, mais de 41 mil pessoas aguardavam por transplante de órgão sólido.

Esse cenário ajuda a explicar o interesse crescente por tecnologias capazes de qualificar o acompanhamento pós-transplante. Hoje, o exame é oferecido de forma particular e pode ser solicitado por qualquer médico responsável pelo acompanhamento do paciente transplantado. Segundo De Marco, já existem conversas com centros transplantadores interessados em avaliar o uso da tecnologia como ferramenta complementar para reduzir procedimentos invasivos e otimizar recursos assistenciais.

Para uma eventual incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), seriam necessários estudos clínicos e econômicos que demonstrem benefícios para pacientes e para o próprio sistema de saúde. Esse processo é conduzido pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). “A adoção de novas tecnologias depende da demonstração de benefícios clínicos e econômicos. Precisamos mostrar que o uso do exame pode contribuir para reduzir procedimentos desnecessários e melhorar o acompanhamento dos pacientes transplantados”, afirma.

Potencial para o Brasil e para a América Latina

Embora existam estudos e aplicações consolidadas do dd-cfDNA em centros transplantadores internacionais, a oferta da tecnologia ainda é limitada em muitos países devido à complexidade técnica envolvida.

No Brasil, o Igen adaptou a metodologia à sua estrutura de sequenciamento genético e já iniciou a realização de exames para pacientes acompanhados em instituições como o Instituto Dante Pazzanese e o Hospital do Rim. A instituição também avalia oportunidades de expansão para outros países da América Latina.

No último dia 10, os maiores especialistas em monitoramento de transplantes em órgãos sólidos e medicina diagnóstica, se reuniram em São Paulo, na Vila Clementino, para trocar conhecimento sobre o novo exame aplicado no Brasil no congresso:“dd-cfDNA em Transplante de Órgãos Sólidos: Da Evidência à Aplicação Clínica”. Renato De Marco, Diretor do Igen, ministrou a palestra: “Experiência do Mundo Real com Testes de cfDNA no Brasil”; da qual vai aprofundou no tema com implementação do exame na prática clínica, as considerações operacionais e o impacto no manejo dos pacientes. Além de De Marco, participaram especialistas dos EUA, Brasil e Argentina.

Para especialistas da área, o avanço da medicina de precisão abre caminho para que exames moleculares complementem métodos tradicionais de acompanhamento, ampliando a capacidade de vigilância clínica e contribuindo para uma jornada mais segura para pacientes transplantados e equipes médicas.


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